A Residência MA, localizada em um condomínio residencial em Atibaia, foi projetada pelo Estúdio Rossi Arquitetos. O design da moradia foi concebido a partir da análise detalhada da geografia do terreno, da paisagem circundante e das necessidades domésticas, visando criar um lar definitivo adequado para uso contínuo durante todo o ano.
Relação com a Paisagem Local
O lote apresenta uma inclinação acentuada e se abre para uma área de preservação permanente, além da Pedra Grande, um marco geológico conhecido nacionalmente por atividades de escalada e esportes de montanha. Os moradores, um casal com quatro filhos (três adultos), já eram praticantes assíduos de esportes ao ar livre e frequentavam a região em viagens regulares vindas de São Paulo. Essa forte ligação com o território e a natureza foi um fator determinante tanto na escolha do local quanto na definição do projeto arquitetônico.
Necessidades Funcionais e Solução Estrutural
A mudança de residência exigiu um imóvel que fosse prático, funcional e altamente integrado, capaz de suportar diversas dinâmicas de uso diário. Era crucial para a família que os espaços operassem de forma fluida, promovendo interações visuais constantes entre os ambientes, mesmo quando estavam sendo utilizados simultaneamente. Embora a intenção inicial fosse por uma casa térrea e aberta, a topografia íngreme forçou a concepção de uma edificação em dois pavimentos, mas resolvida de modo a manter a percepção de térreo no nível principal superior.
A base da estrutura consiste em um pavimento de concreto armado que serve para vencer o desnível do terreno e funciona como plataforma para o volume superior. Este nível inferior contém a garagem, áreas de apoio técnico e uma oficina, conforme solicitado pelo morador, destinada à manutenção de equipamentos, trabalhos manuais de marcenaria e às atividades esportivas da família. Dois conjuntos de escadas — uma social, conectada ao jardim, e outra de serviço, mais reservada — organizam os fluxos de maneira clara entre os andares. Este embasamento é cercado por um muro de concreto armado e empenas revestidas em pedra moledo, cujos contornos orgânicos harmonizam com o terreno, conferindo privacidade em relação à rua do condomínio.
Pavilhões Superiores e Materiais
Sobre esta plataforma, que estabelece um platô contínuo no andar superior, assentam-se duas estruturas independentes, dispostas na mesma cota e configuradas como pavilhões suspensos sobre o jardim. Um desses pavilhões abriga os espaços sociais, enquanto o outro destina-se às áreas íntimas. A disposição respeita a geometria trapezoidal do lote: o pavilhão social fica alinhado à via de acesso, ao passo que o pavilhão íntimo acompanha a diagonal do terreno, gerando diferentes escalas de jardim e áreas de convívio entre eles. Ambas as extremidades são definidas por empenas revestidas em pedra moledo, reforçando a materialidade e o aspecto tectônico da composição.
Os volumes foram construídos utilizando madeira laminada colada (MLC), em colaboração com a Ita Engenharia, especialista em construção com madeira engenheirada. A estrutura pré-fabricada, feita em eucalipto certificado, proporciona leveza visual, alta precisão construtiva e agilidade na montagem, além de possibilitar grandes vãos e amplas aberturas. O sistema modular, com pilares e vigamentos em malha regular, assegura flexibilidade espacial e clareza estrutural, minimizando o desperdício e o impacto ambiental da obra. As coberturas também são industrializadas, reforçando a racionalidade construtiva geral.
Diferenciações Formais e Áreas Comuns
Apesar da uniformidade material, as massas apresentam distinções formais. O primeiro pavilhão possui cobertura inclinada, o que maximiza a altura livre na área social e facilita a entrada de luz natural e ventilação cruzada, enquanto o segundo utiliza cobertura plana. Uma cobertura de transição conecta as duas lâminas, marcando o ponto de encontro e organizando os percursos internos. Um pátio central ajardinado funciona como elemento articulador da residência, definindo fluxos, enquadrando vistas e mediando a interação entre a arquitetura e a paisagem. O projeto paisagístico, desenvolvido por Cate Poli, une os espaços construídos, intensificando a continuidade entre o interior e o exterior.
Áreas Sociais e Íntimas
O acesso principal para pedestres ocorre através de uma escadaria que serpenteia pela frente e lateral do lote até um hall coberto, situado no ponto de convergência dos dois pavilhões. Este ponto de encontro forma um desenho triangular, criando uma área ajardinada que é visível tanto para quem chega quanto para quem se dirige aos dormitórios, servindo como eixo visual central.
No pavilhão social, salas de estar, jantar e cozinha formam um grande espaço contínuo, planejado para a convivência familiar e o uso diário, sem barreiras rígidas entre os cômodos. A fachada voltada para a rua do condomínio é protegida por uma série de painéis modulares que equilibram superfícies sólidas e aberturas estratégicas. Os caixilhos combinam folhas fixas e sistemas de abertura, permitindo vistas para a mata preservada do lado oposto da via, ao mesmo tempo que garantem privacidade parcial devido à copa das árvores. O vigamento da cobertura se projeta externamente, criando beirais amplos que protegem a fachada e se estendem até a varanda voltada para o pátio.
Internamente, uma extensa marcenaria contínua percorre todo o espaço, atuando como organizador do layout e suporte para diversas funções, como painel de TV, biblioteca, adega e armários da cozinha. Fabricada em madeira com tonalidade similar à estrutura aparente, ela contribui para a unidade visual. Algumas portas possuem desenho treliçado, facilitando a circulação de ar e o armazenamento de equipamentos audiovisuais. Acima deste elemento, uma grelha linear contínua aloja os difusores do sistema de ar-condicionado, integrando discretamente os aspectos técnicos ao desenho do móvel.
A decoração das salas é complementada por móveis em madeira maciça, reforçando a sensação de aconchego e atemporalidade. Há uma lareira na extremidade do ambiente social, proporcionando conforto térmico em dias mais frescos. Em uma fachada perpendicular, grandes janelas de vidro podem ser totalmente recolhidas, expandindo a conexão entre salas, varanda e área externa. O piso da varanda é feito em quartzito São Tomé, em padrão de cacos irregulares, e se estende pelos caminhos e contornos da piscina.
A cozinha é organizada em torno de uma bancada principal em formato «L», combinando bancadas de pedra, marcenaria e uma grande ilha central equipada com fogão de indução e áreas de estar, finalizada em um tom esverdeado que dialoga com a paleta natural da casa. Este arranjo transforma a cozinha em um ponto de encontro, mantendo comunicação direta entre quem cozinha e os demais presentes. A primeira bancada está situada sob uma janela e se estende para o exterior, fornecendo apoio à área externa e à churrasqueira, que é um espaço contido e integrado à arquitetura, protegido pelo avanço da cobertura.
Pavilhão Íntimo e Lazer
O pavilhão íntimo dispõe de cinco dormitórios, todos configurados como suítes. O corredor de acesso funciona como uma galeria envidraçada voltada para o recuo ajardinado do terreno, o que garante abundante iluminação natural e contato constante com o exterior. Nos quartos, a materialidade segue a lógica estrutural da residência: pilares e vigamentos de madeira expostos, paredes de cabeceira em pedra e piso em taco de madeira. Grandes caixilhos do chão ao teto enquadram vistas para o pátio, e a orientação para leste otimiza a entrada de luz solar nas primeiras horas do dia.
Os banheiros mantêm a paleta de materiais naturais, apresentando bancadas em pedra e revestimentos em mosaicos de travertino romano. Na suíte master, os painéis envidraçados oferecem vistas a partir da área da banheira. Nos banheiros das suítes dos filhos, claraboias auxiliam na iluminação natural. Externamente, o projeto luminotécnico distribui pontos de luz a cada três módulos do vigamento, criando um efeito gráfico noturno que destaca a estrutura.
O pátio central inclui uma piscina, que serve como área de lazer e ponto de articulação do complexo, acompanhada por um volume de sauna posicionado no fundo do lote, destinado ao apoio esportivo e à recuperação física. O paisagismo permeia toda a residência, desde a entrada até o nível principal, utilizando maciços vegetais de diversas alturas e espécies tropicais adaptadas ao clima local, reforçando a noção de permanência e continuidade entre o construído e a natureza.
Conclusão do Projeto
A Residência MA exemplifica como a combinação de implantação inteligente, uso criterioso de materiais certificados e sistemas construtivos industrializados resulta em eficiência, longevidade e menor impacto ambiental. Simultaneamente, as aberturas planejadas e a conexão direta com o exterior promovem conforto térmico, ventilação natural e bem-estar. O projeto ilustra a capacidade da arquitetura de sustentar um estilo de vida ativo e ligado à natureza, equilibrando qualidade de vida, funcionalidade e consciência ecológica.