A diplomacia da água está se tornando um aspecto criticamente importante da política externa e da segurança regional, pois a água adquiriu o status de recurso estratégico no século XXI, comparável ao petróleo ou às rotas de transporte. Esta tendência é particularmente relevante para a Ásia Central, onde as mudanças climáticas estão levando à redução dos geleiras e ao aumento da necessidade de água pela população.
Importância dos recursos hídricos transfronteiriços
Quase todos os grandes rios da região são transfronteiriços. Os recursos hídricos das bacias dos Amu Darya e Syr Darya sustentam a economia, a agricultura, a energia e a estabilidade ecológica de vários países simultaneamente. De acordo com dados da ONU, mais da metade da população mundial viverá em áreas com escassez de água até 2050, o que é agravado pelas mudanças climáticas, secas e aumento do consumo.
Transição para a cooperação
De acordo com cálculos do Banco Mundial, a falta de fortalecimento da cooperação na gestão dos recursos hídricos pode levar a perdas econômicas significativas na região. Portanto, o conceito de 'diplomacia da água' é cada vez mais utilizado nas relações internacionais. Hoje, não se trata tanto da distribuição de água, mas sim da gestão conjunta, troca de dados, previsão conjunta de riscos e garantia do equilíbrio de interesses.
Neste processo, o Uzbequistão busca formar uma nova abordagem baseada na cooperação na Ásia Central, indo além das reformas internas. O país promove a diplomacia da água como uma das direções chave de sua política externa.
De disputas para parcerias
Até recentemente, as questões hídricas na Ásia Central eram frequentemente discutidas no contexto de disputas. Os desacordos diziam respeito a grandes projetos de energia hidrelétrica, distribuição de água, volumes de captação durante o período de vegetação ou troca de energia, tornando este tema um dos mais complexos nas relações entre os países da região.
A situação começou a mudar em 2017, quando o Presidente do Uzbequistão, Shavkat Mirziyoyev, enfatizou repetidamente que boas relações de vizinhança e diálogo confiável são um pilar fundamental da política externa. Esta abordagem trouxe resultados práticos em questões de água.
Cúpulas de chefes de estado são realizadas regularmente, o trabalho dentro da Comissão Intergovernamental de Uso da Água foi ativado, e o diálogo sobre a gestão de recursos hídricos transfronteiriços atingiu um novo nível. Em setembro de 2023, o Presidente Shavkat Mirziyoyev, ao discursar na Assembleia Geral da ONU, destacou a necessidade de uso justo e racional dos recursos hídricos, cumprimento das normas internacionais relativas a águas transfronteiriças e fortalecimento da cooperação no setor hídrico da Ásia Central.
Resultados práticos das iniciativas
Os diálogos sobre questões hídricas na Ásia Central continuam, e agora eles passam do nível declaratório para a cooperação prática. Isso se manifesta em várias frentes.
Em primeiro lugar, foi estabelecido um diálogo político regular entre os países sobre a gestão de recursos hídricos transfronteiriços. As questões de água tornaram-se uma agenda separada nas reuniões dos líderes dos países da Ásia Central. Tópicos como a distribuição de água nas bacias do Amu Darya e Syr Darya, o uso eficiente de estruturas hidrotécnicas e os regimes de captação sazonal são discutidos regularmente. Especialistas acreditam que isso contribui para a formação de um clima de confiança.
De acordo com dados da Comissão Intergovernamental de Uso da Água (ICWC), nos últimos anos, a troca de informações e a prática de monitoramento conjunto na tomada de decisões sobre a distribuição de água têm se expandido. Esta abordagem é apoiada por organizações internacionais.
Um relatório do Banco Mundial indica que os países da Ásia Central podem alcançar benefícios econômicos bilionários através da gestão conjunta dos recursos hídricos. O relatório observa que a troca de informações, o planejamento coordenado e os investimentos conjuntos são os mecanismos mais eficazes para garantir a segurança hídrica.
Prioridade: gestão da informação
Na opinião dos especialistas, a próxima fase não consiste na construção de novos canais ou reservatórios. A principal tarefa é contar, prever e gerenciar de forma eficaz os recursos hídricos existentes.
A primeira reunião do Conselho de Especialistas, realizada em 30 de junho em Tashkent, foi dedicada a tais questões no encontro 'Reformas no Setor Hídrico do Uzbequistão: Resultados Alcançados, Desafios Atuais e Perspectivas Futuras'. Foram discutidas questões de segurança hídrica, digitalização, cooperação transfronteiriça, gestão de recursos hídricos em condições de mudança climática e tomada de decisões baseadas em ciência. Após a reunião, as ideias propostas serão usadas como base analítica para o desenvolvimento de novos documentos programáticos e estratégicos para o desenvolvimento do setor.
Importância da gestão digital
A diplomacia da água moderna já não se limita a acordos de distribuição de água entre os países. Para uma gestão eficaz dos recursos hídricos, são primariamente necessários dados precisos, contabilidade confiável e análise rápida. Se cada país se baseia em informações diferentes, alcançar acordos de distribuição de água torna-se difícil. Por isso, especialistas internacionais chamam a próxima fase de 'diplomacia de dados' — é necessária a formação de uma base de dados unificada na qual todas as partes confiem.
Na reunião do Conselho de Especialistas na capital, Iskandar Abdullaev, pesquisador sênior do Centro Científico-Informacional da Comissão Intergovernamental de Uso da Água (ICWC) e do Instituto Internacional de Gestão de Recursos Hídricos (IWMI), chamou a atenção especificamente para este problema. Ele enfatizou que as reformas no setor hídrico devem funcionar como um sistema de gestão unificado, e não como projetos separados.
'É necessário formar relatórios de informação digital. Esses relatórios devem servir de base para decisões financeiras. As decisões financeiras devem garantir serviços confiáveis, e os serviços devem satisfazer as necessidades dos usuários de água', afirmou o especialista.
Se antes a atenção principal estava na construção de infraestrutura, agora a questão da sua gestão está em primeiro plano. Na opinião do especialista, para isso é necessário criar um modelo digital (Digital Twin) para bacias hidrográficas. Esta tecnologia combina dados sobre rios, canais, estações de bombeamento, reservatórios, parcelas de terra e consumo de água em um modelo digital único. Como resultado, é possível calcular antecipadamente o consumo de água, a probabilidade de escassez, a carga na infraestrutura ou o risco de acidente. A inteligência artificial analisa vários cenários e sugere as opções mais ótimas aos tomadores de decisão.
Outro aspecto importante desta abordagem é considerar a questão da água não apenas sob uma perspectiva de engenharia, mas também levando em conta fatores econômicos e sociais. Por exemplo, se houver escassez de água em uma determinada área, o sistema avalia não apenas o volume de água, mas também o consumo de energia das estações de bombeamento, as necessidades dos agricultores, os custos financeiros e o impacto na qualidade dos serviços. Assim, as decisões são tomadas na fase de prevenção do problema, e não após sua ocorrência.
I. Abdullaev chama este processo de ciclo adaptativo digital-analítico: primeiro os dados são coletados, depois vários cenários são calculados através do modelo digital, a inteligência artificial avalia o risco e, em seguida, são tomadas decisões financeiras e de gestão. Esta abordagem está de acordo com as visões das organizações internacionais.
De acordo com relatórios do Banco Mundial e IWMI, as tecnologias de monitoramento digital, inteligência artificial e previsão permitem responder mais rapidamente à escassez de água, reduzir o consumo de energia e aumentar a eficiência do uso da água.
Digitalização em números
Os sucessos do Uzbequistão na diplomacia da água também são refletidos nas estatísticas. Em uma reunião presidida pelo Presidente Shavkat Mirziyoyev em fevereiro de 2026, foi anunciado que tecnologias de conservação de água foram implementadas em 2,6 milhões de hectares de terras irrigadas no país, o que representa 60% da área total irrigada. Enquanto isso, em 2017, esse indicador era de apenas 19 mil hectares. Como resultado, economiza-se 5 bilhões de metros cúbicos de água anualmente. Planeja-se que até 2028 essas tecnologias sejam implementadas em mais 930 mil hectares, elevando a cobertura total para 3,5 milhões de hectares ou 80% das terras irrigadas, o que permitirá aumentar a economia anual de água para 3,5 bilhões de metros cúbicos.
Estes números são muito importantes para a diplomacia da água, pois o aumento do nível de conservação de água dentro do país reduz a pressão sobre os recursos hídricos transfronteiriços. Além disso, o Programa Estadual de Desenvolvimento da Gestão de Recursos Hídricos e Irrigação para 2025-2028, aprovado em agosto de 2025, serve a este objetivo.
O programa prevê: reconstrução de 2.551 quilômetros de sistemas de irrigação; automação de 12 grandes estruturas hidrotécnicas; implementação de monitoramento digital em 12 mil poços de drenagem e 1.750 bombas; integração de 11 sistemas de informação em uma plataforma digital unificada. De acordo com o governo, graças a estas medidas, espera-se uma economia de água de 14 bilhões de metros cúbicos até 2028.
A digitalização está se tornando não apenas uma ferramenta de gestão interna, mas também um elemento importante da diplomacia da água, pois a informação aberta e confiável forma uma base comum de fatos para o diálogo com os países vizinhos.
Nova agenda do Uzbequistão
Há um esforço do Uzbequistão para transformar a questão da água na Ásia Central de uma disputa política em um objeto de cooperação prática. Na sétima reunião da cúpula dos chefes de estado da Ásia Central em 2025, o Presidente Sh. Mirziyoyev observou o agravamento da escassez de água na região e propôs a iniciativa de declarar o período de 2026 a 2036 como o 'Década de Ações Práticas para o Uso Racional da Água na Ásia Central'.
O chefe de estado também enfatizou a importância de envolver o Afeganistão no diálogo regional sobre o uso de recursos hídricos na bacia do Amu Darya. Além disso, foi proposta a criação de um Centro de Competências em Gestão de Recursos Hídricos no Uzbequistão, ligado ao Instituto de Mecanização da Irrigação e Agricultura. Estas iniciativas mostram que a diplomacia da água do Uzbequistão vai além da simples distribuição de recursos e visa formar uma cultura de gestão comum, cooperação científica, formação de quadros e implementação de tecnologias digitais.