O comércio no continente africano manteve o ritmo na primeira metade de 2026, mas as empresas que se expandem por toda a África enfrentam obstáculos relacionados a sistemas de pagamento fragmentados, restrições de liquidez e problemas de moeda estrangeira.
Novas oportunidades e barreiras financeiras
De acordo com a empresa global de fintech Verto, as empresas procuram cada vez mais mercados fora das suas fronteiras internas, graças ao facto de a Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA) abrir novas perspetivas. No entanto, muitas antigas barreiras financeiras que impedem o comércio transfronteiriço sem obstáculos permanecem inabaláveis.
Ola Oyetayo, CEO da Verto, observou que, apesar das dificuldades na movimentação de fundos entre países, os negócios em toda a África demonstram uma crescente confiança. Ele salientou que o comércio entre África do Sul, Nigéria, Quénia, Tanzânia e o bloco da África Ocidental continua a crescer, dado que existe procura por expansão e as empresas procuram ativamente oportunidades de crescimento fora dos seus mercados domésticos.
Papel estratégico da África do Sul
A África do Sul, sendo um dos mercados financeiros mais desenvolvidos da África, desempenha um papel fundamental como porta de entrada para o continente e como ponte para os centros comerciais internacionais. A Verto informou que uma das principais mudanças este ano foi a diversificação dos corredores comerciais, onde as empresas preferem procurar oportunidades dentro da África em vez de depender exclusivamente dos mercados mundiais tradicionais.
Para as empresas sul-africanas, isto cria oportunidades para alcançar novos clientes, fortalecer cadeias de abastecimento regionais e diversificar fontes de matérias-primas em todo o continente. No entanto, as empresas são forçadas a operar num ambiente operacional complexo, que inclui volatilidade cambial, requisitos regulamentares em mudança, obrigações de conformidade e aumento dos custos operacionais.
Problemas de execução de transações
A empresa indicou que estes fatores pesam particularmente sobre pequenas e médias empresas, pois os atrasos no recebimento de pagamentos e o acesso a moeda estrangeira afetam diretamente o capital de giro, os relacionamentos com fornecedores e os planos de desenvolvimento a longo prazo. Uma das tendências mais evidentes da primeira metade do ano foi a disparidade entre as ambições comerciais e a execução real dessas transações.
As empresas podem encontrar oportunidades atraentes em mercados vizinhos, mas a transferência de fundos através das fronteiras africanas é frequentemente mais difícil do que o pagamento em centros financeiros fora do continente. Anthony Butch, diretor comercial da Verto, afirmou que a liquidez continua a ser um dos problemas mais sérios para os negócios. Ele explicou que as empresas necessitam de acesso profundo às moedas dos mercados emergentes, contas multimoeda e um canal direto para redes cambiais. Sem isso, os pagamentos atrasam e o capital de giro fica congelado.
Corredor duplo para os negócios
Butch acrescentou que os negócios sul-africanos enfrentam uma complexidade adicional, pois necessitam de acesso fiável tanto aos mercados africanos como aos grandes centros financeiros mundiais. Ele observou que grande parte da infraestrutura foi construída para uma direção ou para outra, e é esta lacuna que gera a maior parte das dificuldades atuais para as empresas.
Apesar destes obstáculos, a Verto considera que o progresso está a ser alcançado através de iniciativas como o Sistema Pan-Africano de Pagamentos e Liquidação (Pan African Payment and Settlement System), bem como através de investimentos contínuos em pagamentos digitais, mecanismos de liquidação alternativos e tecnologias financeiras. A empresa constatou que instituições financeiras, empresas de fintech e reguladores estão cada vez mais alinhados quanto à necessidade de modernizar a infraestrutura de apoio ao comércio africano, embora a implementação desse processo ainda esteja em curso.
Perspetivas para o segundo semestre
Olhando para a segunda metade de 2026, Oyetayo prevê que as empresas que conseguirem mover capital de forma eficaz tanto nos mercados regionais como nos globais colherão os maiores benefícios da expansão das oportunidades comerciais. Ele salientou que iniciativas como o PAPSS são um passo significativo, mas atualmente o ritmo é ditado pelos operadores que criam os corredores, e não pela política. A Verto concluiu que as empresas africanas não esperam mais condições ideais para o comércio, e aquelas que estiverem dispostas a superar os problemas da infraestrutura financeira estarão melhor posicionadas para aproveitar as crescentes oportunidades regionais do continente.


