Semanalmente, algo significativo acontece em KwaZulu-Natal quando o movimento March and March vai às ruas, realizando uma espécie de espetáculo teatralizado. Este fenômeno, chamado de 'quarto espelho', leva as pessoas a questionar sua própria identidade, perguntando quem são quando acreditam que não estão sendo observadas.
O que mostra o 'Quarto Espelho'
Este fenômeno demonstra cenas em que pessoas são perseguidas por contratar empregados imigrantes, mulheres grávidas são impedidas de entrar em hospitais e as pessoas decidem no momento quem é considerado humano e quem não é. Mais preocupante ainda é que o governo, ao reagir a esses eventos, pode estar olhando para o mesmo espelho e vendo o mesmo reflexo.
Situação nos Hospitais e Restrições de Acesso
No Hospital Addington, em Durban, a situação tornou-se assustadoramente comum: membros do March and March ocupam posições na entrada, exigindo a apresentação de documentos de identidade antes que qualquer pessoa possa entrar. Em um caso, um acadêmico de 77 anos, Crispin Henson, foi empurrado e negado a entrada após recusar-se a apresentar documentos. Ele só conseguiu entrar após ser acompanhado pela polícia.
Casos semelhantes não são incomuns. Mulheres grávidas são recusadas em clínicas, e um refugiado com diabetes do Congo foi impedido de receber medicamentos. Pessoas com documentos legais — solicitantes de asilo, refugiados, migrantes legais — são informadas de que não pertencem ali. O grupo afirma que está garantindo o cumprimento da Seção 17 e que a saúde pública é destinada aos sul-africanos que pagam impostos. No entanto, a Constituição garante atendimento médico a todos que estão no território, de acordo com a Seção 27, e não apenas a cidadãos ou contribuintes.
Questões de Aplicação da Lei e Direitos Humanos
A impressão mais profunda é a prisão de idosas e o transporte delas em vans policiais por contratar trabalhadores imigrantes. A Primeira-Ministra Thami Ntuli declarou que proprietários de empresas que contratam estrangeiros sem documentos enfrentarão prisões. Mas onde está o limite? Devemos tratar uma avó que procura ajuda doméstica como traficante de pessoas? A Comissão de Direitos Humanos da África do Sul declarou claramente que nenhum membro do público tem direito legal ou moral de aplicar leis de imigração. No entanto, a polícia parece confusa; no caso de Henson, os funcionários supostamente informaram-lhe que estavam agindo apenas por ordem do Ministro da Polícia.
A Constituição da África do Sul é uma das mais progressistas do mundo, criada sobre as ruínas do apartheid para proteger a dignidade humana de cada um. As Nações Unidas lembram que as leis protegem a dignidade humana, e não a dividem. No entanto, a situação parece diferente.
Reação de Organizações e Fatores Sociais
'Médicos Sem Fronteiras' encontrou membros da Operação Dudula em mais da metade das instituições de saúde que visitou nas províncias afetadas. Centenas de estrangeiros fugiram de suas casas em Durban, buscando refúgio em centros comunitários e delegacias de polícia depois de serem expulsos dos bairros. A questão da cultura de direitos humanos permanece aberta: ela não é uma ficção completa, mas está sendo testada. Este teste revela algo desconfortável — os direitos só importam quando os estendemos às pessoas que parecem, falam ou vêm de outro lugar.
A Primeira-Ministra Ntuli rejeitou a alegação de que KwaZulu-Natal está assolado pelo xenofobia, afirmando que isso não é sua essência. No entanto, existem outras opiniões: alguns sul-africanos em hospitais agradecem a esses autoproclamados defensores por reduzir as filas, e partidos políticos saudam os protestos como patriotismo. Mas também há vozes contrárias. O EFF chamou isso de um surto perigoso de funcionários de imigração autoproclamados. Kopanang Africa Against Xenophobia acredita que os imigrantes estão sendo usados como bodes expiatórios por problemas estruturais que existiam muito antes das recentes ondas de migração. Talvez o problema não seja racismo ou consciência tribal, mas algo mais sombrio — desespero causado por 32% de desemprego, serviços inoperantes e a sensação de que outra pessoa está recebendo o que lhe é devido.
Resposta Governamental e Dilemas Humanitários
Surgiu uma questão crítica: o que acontecerá se o governo olhar para o mesmo espelho e ver o mesmo reflexo? Como escreveu um observador humanitário em uma carta aberta ao Ministro do Interior Leon Schryber: qual é a diferença entre você e a Sra. Jacinta Ngobeze-Zuma? Um marchava com cartazes, o outro com política. Um gritava 'vá embora', o outro organizava a partida.
No entanto, para uma família assustada, carregando sua vida em duas bolsas, a viagem pode parecer a mesma. A resposta do governo provou ser eficaz: ônibus partem mais rápido, as filas avançam mais rapidamente, o processo melhora diariamente. Mas se um lado diz 'volte para casa' e o outro diz 'nós vamos ajudá-lo a voltar para casa', e nenhum deles para para perguntar: 'Você está seguro? Você está documentado? Você realmente precisa ir embora?', talvez tenhamos nos tornado mestres em mover pessoas antes de entendermos suas histórias.
Tanto migrantes documentados com permissões válidas quanto pessoas indocumentadas passam pela mesma máquina de repatriação. Por que os migrantes documentados não são avaliados primeiro para determinar se realmente precisam ser repatriados?
Se um migrante documentado for forçado a sair por medo, intimidação ou ameaças, isso é primeiro uma questão de imigração ou de proteção? A África do Sul emitiu esses documentos e reconheceu seu direito de estar aqui. Mas quando a multidão os ameaçou, a reação do governo foi ajudá-los a sair, e não proteger os direitos garantidos pelas próprias leis.
Conclusões sobre o Futuro da Sociedade
Isso leva à questão mais difícil. Quando a vida dos pobres não melhora, quando os empregos não aparecem, quando bodes expiatórios são enviados para o exterior, em quem a multidão voltará sua atenção? Eles se voltarão uns para os outros? Para o governo? Ou eles simplesmente encontrarão outro alvo, outro marginalizado, outra pessoa culpada por seus sofrimentos?
Esta é uma questão que devemos fazer a nós mesmos ao olhar para o quarto espelho. Gostamos do que vemos? Vemos a nós mesmos como herdeiros do legado de Mandela — coesão e inclusão, ou vemos algo mais sombrio — o reflexo da superioridade, a crença de que somos o povo escolhido da África, o princípio cínico de que o forte tem o direito? Talvez seja a coisa mais difícil que o quarto espelho revela: nossas leis, políticas e mecanismos de aplicação da lei, desprovidos de compaixão, podem parecer exatamente com o banditismo que condenamos. O espelho não mente. A questão é se temos coragem de ver o que ele mostra e agir de forma diferente.