Cientistas utilizaram radiotelescópios terrestres para registrar a presença de eritrulose — um açúcar encontrado, por exemplo, em framboesas — na nuvem molecular G+0.693-0.027, localizada na Via Láctea. Este fato marca o primeiro caso registrado de detecção de um açúcar no meio interestelar, confirmando a hipótese de que moléculas pré-bióticas complexas podem se formar e ser preservadas no espaço, de onde podem acabar no conteúdo de pequenos corpos celestes.
A importância dos açúcares para a vida
Os açúcares são moléculas criticamente importantes para a manutenção da vida, pois participam de processos metabólicos, atuam como componentes estruturais e fazem parte das bases dos ácidos nucleicos DNA e RNA. Estudos sobre como os açúcares simples surgiram na Terra primitiva são necessários para entender a origem da vida em nosso planeta e seu potencial de existência fora da Terra. Já se sabe que várias açúcares, incluindo ribose e frutose, foram encontradas em amostras de meteoritos e no solo do asteroide Bennu, o que, combinado com resultados de experimentos laboratoriais, permite levantar a hipótese de formação desses compostos complexos no meio interestelar.
Descobertas anteriores e desafios
Até o momento, apenas o glicaldeído foi identificado em nuvens interestelares e núcleos de cometas — uma diose simples classificada como um aldeído hidroxilado, próximo aos açúcares, e não um açúcar verdadeiro. As dificuldades em obter espectros rotacionais de açúcares na fase gasosa em condições laboratoriais foram superadas recentemente através do uso de evaporação ultrarrápida a laser, o que permitiu obter os dados necessários para a análise de ribose, 2-desoxiribose e eritrulose.
Detalhes do estudo da eritrulose
Um grupo de astrônomos liderado por Isaskun Jiménez-Serrano, do Centro Astrobiológico Espanhol, anunciou a descoberta de eritrulose no meio interestelar. Os cientistas estudaram a nuvem molecular G+0.693-0.027, que está na Zona Molecular Central da Galáxia, a cerca de 28 mil anos-luz do Sol. As observações ocorreram entre 2021 e 2024, utilizando o radiotelescópio de 40 metros da Observatório de Yepes e o radiotelescópio de 30 metros do IRAM. A nuvem G+0.693-0.027 tem atraído a atenção de astroquímicos há muito tempo devido à presença de muitas moléculas complexas significativas para organismos vivos.
Características do açúcar descoberto
A eritrulose pertence às cetoses, possui quatro átomos de carbono e é encontrada em framboesas, bem como em produtos cosméticos. Tornou-se a maior molécula acíclica e a segunda molécula quiral identificada no meio interestelar. Sua densidade colunar é de 8,7 x 10^23 partículas por centímetro quadrado, semelhante ao valor do glicaldeído também detectado na nuvem. Além disso, os pesquisadores não encontraram vestígios de gliceraldeído e diidroxiacetona (açúcares de três átomos de carbono), o que indica que a eritrulose ocorre 8 a 17 vezes mais frequentemente do que esses compostos, o que é incomum. Também não foi encontrado glicerol, que poderia servir como precursor da eritrulose.
Mecanismo de formação proposto
Os pesquisadores acreditam que a eritrulose em G+0.693-0.027 pode ter sido formada como resultado de uma reação química entre radicais de glicaldeído e etilenoglicol — ambos os substâncias estão presentes na nuvem em concentrações suficientemente altas. Essa reação, possivelmente ocorre na superfície sólida de gelo de água amorfo que cobre as partículas na nuvem interestelar, em temperaturas típicas para poeira na direção do centro da Via Láctea (cerca de 20-30 kelvins).
Conclusões sobre a origem cósmica
A descoberta da eritrulose serve como prova direta de que moléculas quirais complexas e pré-bióticas são capazes de surgir e persistir no meio interestelar. No contexto do Sistema Solar, os açúcares poderiam ter se formado na nebulosa protoplanetária, depois terem entrado na composição de pequenos corpos, que subsequentemente bombardearam a jovem Terra. Além disso, cetoses como a eritrulose podem se transformar em treose e eritrose em meio aquoso, o que potencialmente leva ao surgimento da molécula TRK — um possível precursor do RNA.
Outras descobertas astronômicas
Destaca-se que os astrônomos identificaram pela primeira vez um candidato promissor a uma estrela hiperveloz antiga e de baixa massa que está deixando a Via Láctea. Supõe-se que a estrela DESI-HVS1 fazia parte de um sistema binário anteriormente, que foi ejetado há quase treze milhões de anos como resultado de uma aproximação com um buraco negro supermassivo localizado no centro da Via Láctea.