No âmbito da coleção Pride Month, pais de indivíduos transgênero e queer em toda a Índia partilham as suas experiências de aceitação e amor. Neste relato pessoal, dirigido à publicação The Better India, a Dra. Bela Sharma, diretora adicional de medicina interna da FMRI em Gurgaon, juntamente com o seu marido, o Almirante Naval (Dr.) Sanjay Sharma (aposentado), partilha a história da sua filha sobre a transição para a feminilidade.
Sinais precoces e incompreensão
A filha tentou comunicar a sua verdadeira autoidentidade desde cedo, por volta dos um ano e meio ou dois anos. Ela identificava-se como do sexo feminino, usava um dupatta e comprava uma boneca Barbie. Os pais não compreendiam essas manifestações, considerando-as apenas imitação da mãe e da avó ou brincadeiras infantis.
À medida que crescia, especialmente durante a puberdade, quando as ilusões desmoronam, os adultos frequentemente encontram explicações para o comportamento incomum, atribuindo-o ao 'comportamento rebelde típico de adolescente'. A escola aceitava a criança enquanto ela estudava bem, mas apenas um professor notou o problema e aconselhou a criança a usar camisa de manga comprida para esconder tatuagens e marcas de outros alunos.
Procura de ajuda e barreira cultural
Como médicos, eles tentaram encontrar as causas da infelicidade da filha, apresentando inúmeras hipóteses. Quando a filha regressou adulta, bonita e amorosa, em 2016, começaram a procurar especialistas capazes de fornecer assistência de afirmação de gênero na capital do país. No entanto, os conselhos dos colegas variavam entre acusações de 'influência ocidental' e sugestões de procurar ajuda no estrangeiro, pois tal ajuda seria supostamente inacessível na Índia.
Os autores sublinham que a cultura indiana é rica em histórias de diversidade de género, e que apagar essa história é uma verdadeira influência ocidental. Eles conseguiram encontrar os especialistas necessários porque ambos eram médicos e tinham acesso às redes apropriadas, bem como porque a filha deles tinha estudado antecipadamente os Padrões de Cuidados WPATH (Associação Profissional Mundial para a Saúde de Transgêneros).
Criação de um sistema de apoio
O apoio veio da família, amigos, colegas, bem como de grupos como SWEEKAR – The Rainbow Parents. O sogro deu-lhes uma força especial, aos 95 anos, dizendo: 'O vosso dever é estar ao lado da criança. Eu estou convosco'. Finalmente, em 2018, ocorreu um ponto de viragem: a filha conseguiu circular livremente na secção feminina e comprar roupas sem medo de julgamento.
Fundação da ATHI e novos padrões
O marido da autora, o Almirante Naval Dr. Sanjay Sharma (aposentado), estava profundamente preocupado com as lacunas no sistema de saúde que ele e a sua esposa observavam ao longo de toda a sua carreira. Reconhecendo que não havia caminho, decidiram construí-lo. O marido da autora deixou as Forças Armadas, participou em conferências WPATH e cursos de saúde de afirmação de gênero, fundando a ATHI (Associação para a Saúde de Transgêneros na Índia). A ATHI tem duas vertentes: IPATH (braço profissional) e KHEM (braço social).
Desde então, organizam conferências internacionais através do IPATHCON, formam profissionais de saúde e realizam seminários pelo país. Em 2020, publicaram os primeiros Padrões de Cuidados Indianos (ISOC-1), reconhecendo as diferenças entre as famílias, corpos e sistemas sociais indianos e os ocidentais. Hoje, o ISOC é amplamente utilizado como Guia de Saúde Transgênero em toda a Índia.
Conselhos aos pais e filosofia de vida
Hoje, os autores aconselham outros pais e crianças a aceitar o que está a acontecer gradualmente, 'minuto a minuto, respiração por respiração'. Consideram-se escolhidos, pois lhes foi confiada uma missão excecional. Pedem às crianças que tenham paciência com os pais, e aos pais que simplesmente amem os seus filhos incondicionalmente, pois esta é a sua principal tarefa. As crianças existem não para realizar as ambições ou sonhos dos pais, mas para viver a sua própria vida e aprender com os seus erros.