Pesquisadores realizaram uma análise da composição isotópica do estrôncio nos dentes de 152 africanos libertados, sepultados na Ilha Santa Helena no século XIX após serem resgatados de navios negreiros. Esta análise permitiu confirmar suposições históricas de que a maioria dessas pessoas poderia ter origem nas regiões ocidentais da África Central, embora o grupo também incluísse indivíduos de outras partes do continente, incluindo áreas distantes da costa.
Contexto do Comércio Transatlântico de Escravos
Entre os séculos XVI e XIX, ou seja, durante aproximadamente quatro séculos, o comércio transatlântico de escravos esteve ativo. De acordo com estimativas históricas, cerca de 17 milhões de pessoas foram forçadamente removidas da África neste período, dos quais aproximadamente 12,5 milhões estavam destinadas à América. Os europeus transportavam principalmente escravizados dos portos da África Ocidental, onde o recurso humano era trocado por diversos bens. No entanto, uma parte significativa dos africanos morria antes de chegar ao Novo Mundo devido a más condições sanitárias, superlotação e outras razões; historiadores observam que cerca de 1,8 milhão dos 12,5 milhões não sobreviveu à travessia do Oceano Atlântico.
O Papel da Ilha Santa Helena
A Ilha Santa Helena, localizada no meio do oceano, desempenhou um papel importante na história do tráfico de escravos, sendo um local onde os africanos foram mantidos como escravos por um longo tempo. No entanto, a partir de 1840, os britânicos, já tendo proibido a escravidão, começaram a usar a ilha como base naval para combater os navios negreiros. Em 27 anos, eles desembarcaram cerca de 27 mil africanos libertados na ilha. A maioria deles foi enviada para trabalhar em colônias como trabalhadores assalariados, e apenas uma pequena parte teve permissão para permanecer. Além disso, cerca de 8 dos 27 mil libertados morreram pouco depois de chegarem à ilha.
Descobertas Arqueológicas e Pesquisa
Em 2007-2008, durante escavações que antecederam a construção do aeroporto na Ilha Santa Helena, arqueólogos descobriram dois grandes necrópoles com restos mortais de africanos libertados. Um total de 325 esqueletos articulados e muitos restos dispersos foram encontrados. Cientistas do Reino Unido, Dinamarca, China, Holanda e EUA, liderados por Hannes Schröder da Universidade de Copenhague, conduziram um estudo para determinar a composição isotópica do estrôncio no esmalte dentário de 152 pessoas e estabelecer suas regiões de origem.
Resultados da Análise Isotópica
As análises mostraram que nenhum indivíduo nas amostras estudadas havia nascido na própria Ilha Santa Helena, confirmando que os túmulos continham africanos libertados que morreram pouco depois de chegarem. Os dados gerais confirmaram informações históricas de que a maioria dessas pessoas era originária das regiões ocidentais da África Central, o que também era corroborado por fontes escritas e por uma recente análise genética limitada. Os cientistas também conseguiram determinar que as pessoas capturadas não provinham apenas de zonas costeiras, mas também de áreas interiores. Por exemplo, a amostra incluía indivíduos provavelmente nascidos em uma pequena região de Angola, distante do mar. Uma pequena parcela de pessoas poderia ser originária das regiões interiores da África Oriental ou Sul, mas sua proporção foi insignificante.
Conclusões dos Pesquisadores
Os pesquisadores concluíram que a maioria dos indivíduos analisados provavelmente nasceu a poucas centenas de quilômetros da linha costeira, embora alguns pudessem ter percorrido mais de mil quilômetros até o porto. Essas conclusões estão de acordo com testemunhos oculares de que parte dos prisioneiros percorria grandes distâncias até os portos de embarque dos escravos. A maioria deles, aparentemente, não permaneceu muito tempo na zona costeira. Uma exceção foi um homem que viveu por 19-25 anos; a análise de seus dentes mostrou que ele provavelmente nasceu em áreas interiores de Angola e, aos 7-9 anos, mudou-se para a zona costeira, onde viveu tempo suficiente para que isso se refletisse na proporção de isótopos leves e pesados de estrôncio.
Comparação com Outros Estudos
Estudos semelhantes são realizados nos Estados Unidos. Há alguns anos, geneticistas estudaram o DNA de mais de trinta pessoas cujos túmulos foram descobertos em Charleston (Carolina do Sul) e descobriram que a maioria delas provavelmente era originária das regiões ocidentais ou do oeste da África Central.
Estudo Adicional de Momia
Vale destacar o estudo da múmia egípcia antiga 'Mulher Trançada', que foi analisada pelos cientistas usando tomografia computadorizada. Esta múmia está em um museu americano, e os pesquisadores confirmaram que pertencia a uma mulher adulta que viveu, presumivelmente, durante os períodos XVIII-XXI dinastias e pertencia à elite não real. Os cientistas detalharam os procedimentos de preparação de seu corpo para o enterro, mas não encontraram causas para sua morte precoce. Os resultados deste trabalho foram publicados na revista Radiology Case Reports.