Alguns médicos, enfermeiros e profissionais de saúde comunitários que trabalham na linha de frente durante o surto contínuo de Ebola na República Democrática do Congo anunciaram uma greve esta semana. A causa são as condições de trabalho precárias e a ausência de salário, incluindo a falta de equipamentos de proteção individual.
Escala da crise e da greve
Este surto, considerado um dos piores, resultou em mais de 580 mortes e infectou mais de 1700 pessoas, segundo dados governamentais de terça-feira. A greve pode enfraquecer os esforços para retardar a propagação do vírus.
Por mais de dois meses, o médico de clínica geral Blez Katabuka Mugisa arriscou a vida tratando pacientes com Ebola em condições difíceis no centro da deterioração da situação no Congo. Ele relatou não ter recebido nenhum salário desde o início da crise.
Exigências dos trabalhadores
No domingo, Mugisa, de 33 anos, anunciou o início da greve. Ele expressou raiva e tristeza em relação ao governo, apontando que eles estão colocando suas vidas em risco sem remuneração. Mugisa trabalha no hospital Rwampara, perto de Bunia, na província de Ituri, e teme que a continuação das greves leve a um aumento no número de mortes.
Anteriormente, a resposta à crise foi dificultada por cortes de ajuda dos Estados Unidos e pela disseminação de desinformação entre a população, o que frequentemente gerava desconfiança nos profissionais de saúde. O Departamento de Saúde do Congo não respondeu aos pedidos de comentários.
Aviso oficial
No domingo, os trabalhadores na linha de frente na província de Ituri enviaram uma carta oficial às autoridades nacionais e provinciais. Nela, expressaram suas preocupações e alertaram para a adoção de medidas caso suas exigências — incluindo o pagamento de bônus e o fornecimento de suporte logístico adicional — não fossem atendidas em 48 horas.
A carta afirmava: «Cumprimos nossas missões com profissionalismo, lealdade e dedicação, muitas vezes em condições particularmente difíceis, marcadas por riscos significativos à saúde e segurança, bem como limitações logísticas». No entanto, apesar desses sacrifícios, restam exigências legais não resolvidas.
Condições de trabalho e promessas
De acordo com a carta, o governo havia prometido aos trabalhadores um bônus diário de US$ 76, dependendo do nível de risco que assumiam. A greve desta semana está concentrada principalmente em hospitais públicos administrados pelo Ministério da Saúde na província de Ituri, mais afetada pelo Ebola. Os grevistas eram predominantemente médicos que lutavam contra o surto.
Greves semelhantes, relacionadas a baixos salários e salários não pagos, não são incomuns no Congo, onde a maioria da população depende dos hospitais públicos. Em períodos anteriores, médicos deixaram os hospitais, deixando apenas uma pequena parte dos prestadores de serviços para fornecer cuidados de emergência.
Politicização das relações de trabalho
Um funcionário de uma organização não governamental, que pediu anonimato devido à sensibilidade da situação, observou que as relações de trabalho entre o governo e os profissionais de saúde se tornaram «extremamente politizadas». O dinheiro é retido pelo governo, doadores e, às vezes, organizações não governamentais. Embora na quarta-feira o trabalho em muitas partes de Ituri parecesse continuar normalmente, o movimento de greve poderia se intensificar, afetando todos, de médicos e enfermeiras a grupos de vigilância.
Blez Mugisa e outro médico contratado pelo governo, Emmanuel Mugisa, relataram que muitos funcionários no hospital onde ambos trabalhavam recusavam-se a trabalhar até receberem o pagamento. Em outros hospitais, os médicos disseram ao The Washington Post que estavam trabalhando normalmente.
Histórias pessoais e consequências
Blez Mugisa relatou que os profissionais de saúde trataram pacientes com Ebola por meses antes de perceberem a natureza deste vírus. Emmanuel Mugisa acrescentou que, desde o início do surto em Rwampara, cinco médicos e 17 enfermeiros morreram.
Mugisa lamentou a greve que deixa pacientes nos hospitais, enfatizando que ele não recebia salário desde o início do surto. Ele afirmou que respeita seu trabalho e seus pacientes, mas o Ministério da Saúde prometeu pagar-lhes os fundos. Segundo ele, o ministro da saúde até visitou Rwampara e prometeu aos funcionários um aumento salarial. Muitos profissionais de saúde, acrescentou ele, «já deixaram o hospital por medo».
Um modelo publicado pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças no mês passado mostrou que este surto de Ebola pode ser o mais devastador da história. A cepa do vírus Bundibugyo, responsável por este surto, não possui vacina ou tratamento aprovado e possui alta taxa de mortalidade.
Blez Mugisa, que começou a trabalhar no hospital há quatro anos, disse que deveria receber um salário de US$ 200 por mês, e o governo prometeu um bônus de mais de US$ 1000 por mês durante a crise. Ele declarou que não recebeu nada desde março. Ele descreveu um regime de trabalho pesado: «Saímos de casa muito cedo e voltamos tarde da noite. Nossas famílias, que deixamos em casa, não têm nada para comer».
Ele enfatizou que sente o dever de receber pagamento por esse trabalho, pois «trabalhamos todos os dias — não temos folgas». Médicos e enfermeiros acompanham as notícias na televisão e nas redes sociais sobre a chegada de fundos em resposta ao surto e não entendem por que esse dinheiro não chega até eles.
Mugisa também relatou que, após o início da greve, muitos pacientes, alguns dos quais já tinham desconfiança, pararam de ir ao hospital, morrendo em vez disso «em casa e nas ruas». Além disso, além dos colegas médicos falecidos pelo vírus, sua família estendida sofreu a perda de 23 membros desde o início do surto, alguns dos quais ele tratou pessoalmente. Ele decidiu voltar ao hospital na quarta-feira, incapaz de suportar o sentimento de culpa por ficar em casa. Segundo ele, cerca de metade dos funcionários tomaram a mesma decisão. Ele concluiu: «Mesmo que o governo não nos pague — são nossos parentes, vizinhos e amigos. Devemos ajudar as pessoas a viver».
Cheison transmitiu a reportagem de Dakar, Senegal.