Na África do Sul, em 18 de julho, os cidadãos comemorarão novamente o Dia Mandela, lembrando não apenas a figura mundial, mas também o jurista que acreditava que a lei deveria servir aos grupos desfavorecidos, marginalizados e esquecidos. Embora o Dia Mandela seja frequentemente associado a campanhas de coleta de cestas básicas, visitas a escolas e limpeza de áreas, sob este tempo de serviço esconde-se uma questão mais profunda: o país realmente honra sua visão de igualdade e dignidade para todos?
Direitos socioeconômicos como base da dignidade
Uma das maneiras mais evidentes de responder a essa pergunta é focar nos direitos socioeconômicos. Estes incluem os direitos à moradia, saúde e assistência social. Esses direitos são vistos não como luxos, mas como componentes diários da vida vivida com dignidade.
O caminho histórico dos direitos humanos
A história dos direitos humanos na África do Sul é um processo longo, doloroso e inacabado. Durante séculos, a lei foi usada não para proteger as pessoas, mas para controlá-las. A expansão colonial privou as comunidades de suas terras, e a legislação do apartheid institucionalizou a segregação racial, restringiu a circulação e negou aos cidadãos negros liberdades básicas. O massacre de Sharpeville em 1960 expôs a crueldade de um sistema que considerava vidas negras como descartáveis.
Naquela época, o conceito de direitos humanos no sentido moderno estava ausente no ordenamento jurídico. No entanto, os juristas começaram a resistir, recusando-se a aceitar a situação estabelecida. Eles defenderam presos políticos, contestaram prisões sem julgamento e usaram os tribunais, por mais limitados que fossem, para expor a injustiça. Essa atividade era frequentemente perigosa e raramente reconhecida, mas plantou a ideia de que a lei poderia ser recuperada, em vez de temida.
O desenvolvimento do ativismo jurídico
No final da década de 1980, o ativismo jurídico tornou-se uma força significativa. Juristas de interesse público, bem como associações jurídicas negras e movimentos por justiça comunitária, começaram a falar numa linguagem comum orientada para a igualdade, responsabilidade e direitos. Quando Mandela foi libertado da prisão em 1990, ele foi cercado por advogados que o apoiaram por décadas. Sua crença no Estado de Direito ajudou a moldar as negociações subsequentes.
O avanço constitucional de 1994
O avanço democrático de 1994 colocou os direitos humanos no centro da nova estrutura constitucional da África do Sul. A Carta de Direitos tornou-se a base da democracia do país, garantindo a proteção das liberdades civis e políticas, e reconhecendo os direitos socioeconômicos, incluindo acesso à moradia, saúde, alimentação, água e assistência social. Poucas constituições no mundo atingem esse nível.
Este passo foi uma escolha consciente, baseada na compreensão de que o apartheid era um sistema não apenas político, mas também econômico, que negava às pessoas a capacidade de viver com dignidade. Juristas especializados em direitos humanos desempenharam um papel crucial no desenvolvimento dessa base. Eles defenderam uma Constituição que não apenas preveniria abusos futuros, mas também eliminaria ativamente injustiças passadas. Eles também contribuíram para a criação de instituições do Capítulo 9, incluindo a Comissão de Direitos Humanos da África do Sul, responsável pela promoção e proteção dos direitos humanos e pela formação de uma cultura de responsabilização.
Aplicação prática dos direitos
O trabalho dos juristas de direitos humanos não terminou com a assinatura da Constituição. Nos anos seguintes, eles transformaram promessas constitucionais em realidade por meio de litígios estratégicos. Casos notáveis mudaram a trajetória do país. Entre eles, a decisão Grobbum, que confirmou o direito à moradia; o caso da campanha de tratamento, que forçou o governo a fornecer tratamento antirretroviral; e o caso Khoza, que garantiu o acesso a benefícios sociais para residentes permanentes. Cada uma dessas decisões reforçou o princípio de que os direitos são coercitivos, e não apenas simbólicos.
Em KwaZulu-Natal, esse trabalho ganhou uma acuidade especial. Comunidades que enfrentam municípios inoperantes, abastecimento de água inseguro, clínicas superlotadas e desigualdade persistente frequentemente dependiam de advogados de interesse público para contestar decisões ilegais e exigir o cumprimento das obrigações constitucionais. Em muitos casos, o processo judicial foi a única ferramenta eficaz para forçar o governo a agir.
Papel na preservação da memória e futuro
Os juristas de direitos humanos também desempenham um papel vital na preservação da memória histórica. A Comissão da Verdade e Reconciliação contou com o apoio de juristas que ajudaram as vítimas a contar suas histórias e buscar justiça. Hoje, quando a África do Sul se apresenta perante órgãos internacionais, os juristas de direitos humanos continuam a defender a insistência de Mandela de que a dignidade deve ser protegida tanto dentro quanto fora do país.
No entanto, a mera existência de juristas de direitos humanos não garante uma sociedade justa. Eles frequentemente trabalham em instituições com recursos limitados, sujeitas a influências políticas ou lentas na ação. Vitórias judiciais podem ser minadas por uma aplicação fraca, enquanto muitas comunidades continuam a enfrentar dificuldades em obter serviços jurídicos. Como muitos moradores da África do Sul sabem bem, os direitos significam pouco se não se traduzirem em comida na mesa, água da torneira e segurança nas ruas.
Apelo a mudanças estruturais
É por isso que o Dia Mandela deve ser mais do que um mero ritual de caridade. Deve servir como um lembrete de que os direitos humanos são uma prática diária, e não um evento anual. Mandela entendia que a dignidade exigia mais do que boas intenções; exigia mudanças estruturais. Uma cesta básica pode ajudar por um dia, mas um sistema de assistência social funcional garante proteção para toda a vida. Limpar o pátio da escola tem seu valor, mas garantir que cada escola tenha saneamento adequado e salas de aula seguras é justiça.
O Dia Mandela também deve nos levar a fazer perguntas mais complexas: nossos sistemas legais servem aos grupos marginalizados? Nossas instituições protegem os vulneráveis? Estamos apoiando os advogados e ativistas que estão entre o poder e os abusos? Estamos fortalecendo os órgãos de fiscalização que monitoram o governo?
Se pudermos responder honestamente a essas perguntas e agir de acordo com as respostas obtidas, então o Dia Mandela deixará de ser apenas um momento de lembrança. Tornar-se-á parte da longa jornada rumo à dignidade que Mandela iniciou com inúmeros juristas de direitos humanos.
O caminho da África do Sul em matéria de direitos humanos ainda está longe de terminar. Embora a Constituição continue a incorporar uma poderosa promessa, o Dia Mandela nos lembra que cumprir essa promessa exige mais do que 67 minutos. Exige um compromisso contínuo com a justiça, a responsabilidade e a convicção de que a lei deve servir àqueles que mais precisam dela.