Durante a busca pela democracia, milhões de pessoas enfrentaram um novo pesadelo composto por fome, desespero e desemprego. Este paradoxo, como aponta Zwelinisima Vavi, exige atenção cuidadosa.
Advertências dos trabalhadores contra o neoliberalismo
Os trabalhadores alertaram sobre os riscos associados ao neoliberalismo, ao programa GEAR, à privatização, às agências de emprego, à liberalização prematura do comércio, à política de austeridade e à mercantilização dos bens públicos. Eles insistiram que uma democracia que não mudasse as condições materiais da maioria da população enfrentaria, cedo ou tarde, uma crise de legitimidade. Esses avisos, inicialmente ignorados como slogans, agora se confirmaram com o desemprego em massa, a fome e o desespero.
Objetivos da Revolução Democrática Nacional
A Revolução Democrática Nacional nunca deveria se resumir apenas à troca de rostos no edifício da União. Os trabalhadores lutavam não apenas pela mudança de cor dos governantes, mas pela transformação das condições em que vivem. A Carta da Liberdade representava um contrato com os oprimidos, prometendo autogoverno, participação popular na riqueza do país, distribuição de terras entre os trabalhadores, garantia de trabalho e segurança, bem como igualdade perante a lei.
A estratégia e tática do ANC, adotadas em Morogoro, desenvolveram essa ideia, alertando que a libertação seria inútil se a riqueza da terra não retornasse a todo o povo, e que a manutenção do poder dos interesses econômicos existentes não seria nem sombra de libertação. O movimento de libertação entendia que o poder político sem transformação econômica trairia o verdadeiro significado da liberdade.
Mudança da Reconstrução para a Consolidação Fiscal
O programa RDP tornou-se uma ponte entre o sonho e o governo, incorporando a Carta da Liberdade em programas de desenvolvimento habitacional, abastecimento de água, eletricidade, empregos, terra, desenvolvimento industrial, educação, saúde e transporte público. No entanto, a tragédia é que o RDP desapareceu do léxico político. Em vez de reconstrução, fala-se em consolidação fiscal; em vez de redistribuição, fala-se em confiança dos investidores; em vez de bens públicos, fala-se em ressarcimento de custos. É este deslocamento ideológico que está na base da crise atual.
Conquistas e Fracassos da Democracia
É preciso reconhecer que a democracia realmente mudou a África do Sul: o sistema do apartheid foi derrotado, o direito ao voto universal foi conquistado, uma Constituição progressista foi adotada e os direitos dos trabalhadores foram garantidos por lei. Milhões tiveram acesso a moradia, eletricidade, água e benefícios sociais. Essas conquistas são reais e foram conquistadas pela luta, não concedidas.
No entanto, não se pode esconder a verdade: o acesso à água e eletricidade sem capacidade de pagamento não significa o fim da libertação. Uma constituição que garante direitos, mas não pode alimentar uma criança faminta, não liberta essa criança.
Escala do Desemprego e da Fome
Mais de treze milhões de sul-africanos estão desempregados segundo a definição ampliada, o que constitui um desastre nacional. É uma situação em que os jovens não sabem para onde ir pela manhã, os pais não conseguem alimentar os filhos, os aposentados sustentam famílias inteiras, e os trabalhadores aceitam qualquer salário porque o desemprego se tornou uma ferramenta de pressão.
A maior traição à democracia sul-africana foi a normalização do desemprego em massa. Fala-se disso como se fosse um fenômeno climático que simplesmente aconteceu. Na verdade, é resultado de uma escolha consciente: o abandono de uma estratégia industrial resoluta, a liberalização prematura, a permissão à desindustrialização, a tolerância à mediação nas relações de trabalho e ao emprego temporário, e a disciplina dos gastos públicos em vez da mobilização do Estado para criar empregos.
Talvez nada revele o fracasso de forma mais dolorosa do que a fome. A África do Sul é capaz de alimentar sua população, mas milhões sofrem com a escassez de alimentos, crianças sofrem de subnutrição e atraso no crescimento, e trabalhadores, mesmo tendo emprego, cada vez mais não podem pagar por alimentos nutritivos. Os trabalhadores lutaram pela liberdade política não para ficar em filas por cestas básicas. A fome não é caridade; é economia política ligada ao salário, ao trabalho, à terra, aos preços dos alimentos, aos custos de transporte, à concentração corporativa no sistema alimentar e à incapacidade do Estado democrático agir com determinação para que nenhuma criança vá dormir com fome.
Questão da Terra e Vida Urbana
A questão da terra permanece aberta, mas não pode ser reduzida apenas à agricultura comercial. A terra também é um problema urbano. Milhões de pessoas migraram dos antigos Bantustões e reservas do apartheid para cidades criadas para excluí-las. Elas se estabelecem em assentamentos de favelas, pois a terra e a moradia são inacessíveis ou muito caras, vivem longe dos locais de trabalho e gastam horas e uma parte significativa de sua renda com transporte. Quando a Carta da Liberdade afirma que a terra deve ser dividida entre aqueles que a cultivam, isso é uma exigência tanto rural quanto urbana. Não se trata apenas de fazendas, mas de moradia, transporte e a capacidade dos trabalhadores de viver perto das oportunidades. É por isso que o movimento sindical sempre insistiu que o transporte público é uma questão de classe.
O colapso dos transportes ferroviários suburbanos foi um dos ataques mais sérios ao nível de vida dos trabalhadores na era democrática, forçando milhões a gastar mais em transporte. Cada rand adicional gasto em transporte é um rand tirado da comida, e cada hora extra de viagem é uma hora roubada da vida familiar. A restauração do sistema ferroviário é bem-vinda, mas o transporte público não deve estar sujeito à lógica do lucro.
Desigualdade de Classe no Sistema de Justiça
A classe trabalhadora também interage com o Estado através da polícia, tribunais, Departamento de Assuntos Internos, municípios, clínicas e escolas, e um Estado fraco prejudica principalmente os pobres. Os ricos podem pagar por segurança privada, saúde privada, educação privada e conselheiros sêniores; os pobres não podem. E quando a detecção, investigação e processamento falham, são os pobres quem sofre.
A justiça torna-se cada vez mais estratificada por classe. A Carta da Liberdade prometeu justiça igualitária, e a justiça igualitária exige mais do que belas formulações constitucionais. Exige um sistema de justiça criminal funcional que proteja mulheres, crianças e trabalhadores nos townships e assentamentos informais. O crime não é apenas uma questão de segurança; é uma questão de classe.
Escolha em Condições Neoliberais
Olhar honestamente para a situação historicamente: até 1994, o bloco soviético desmoronou, o capital se tornou móvel, os sindicatos enfraqueceram em todo o mundo, e a privatização, a desregulamentação e a austeridade tornaram-se a linguagem da era. A África do Sul entrou na democracia no auge do neoliberalismo. Este é um fato objetivo.
No entanto, as condições objetivas não anulam a escolha política, e os movimentos de libertação são avaliados pela escolha que fazem dentro dessas restrições. O programa GEAR marcou uma ruptura decisiva com o RDP, deslocando o foco da reconstrução e redistribuição para a disciplina fiscal e a confiança do mercado. O movimento sindical alertou que isso não garantiria os empregos prometidos, enfraqueceria a industrialização e aprofundaria a desigualdade.
A crise de 2008 ofereceu uma escolha. Os EUA recusaram o dogma do livre mercado para salvar seu sistema com poder estatal, enquanto a África do Sul seguiu o caminho da austeridade, e o aumento do IVA para 15% tornou-se um símbolo do fardo imposto aos trabalhadores e aos pobres. Os defensores defendiam um desenvolvimento guiado pelo Estado, política industrial, criação de infraestrutura e empregos, mas não foram ouvidos. A prova disso está agora na vida dos trabalhadores.
Novo Rosto da Classe Trabalhadora
A classe trabalhadora moderna difere daquela que derrubou o apartheid. Fábricas fecharam, o trabalho permanente diminuiu, e a mediação nas relações de trabalho, o outsourcing, o emprego temporário e o trabalho de plataforma cresceram. Esta classe agora inclui trabalhadores em condições instáveis, trabalhadores informais, trabalhadores domésticos, agricultores, profissionais de saúde pública, graduados desempregados e aposentados que sustentam lares. Se os sindicatos organizarem apenas aqueles com emprego permanente, eles se tornarão representantes de uma minoria em declínio. O futuro do movimento sindical depende da organização de toda a classe trabalhadora.
Consequências Políticas da Crise Material
A crise material gera consequências políticas. Quando as pessoas perdem a esperança e as organizações progressistas enfraquecem, os reacionários oferecem respostas, levando ao xenofobia, à afrofobia, ao chauvinismo étnico e ao culto à personalidade. O movimento de libertação outrora unia as pessoas independentemente de etnia, língua ou raça; os trabalhadores iam às fábricas como Zulu, Xhosa, Sotho, Venda, coloridos, indianos e brancos, e se tornavam camaradas. Essa unidade não surgiu espontaneamente; foi construída através da organização e da educação política, e como essas instituições enfraqueceram, antigas identidades arcaicas retornaram. Vemos imigrantes sendo culpados pelo desemprego que eles não criaram. Nossos heróis caídos deveriam virar-se em seus túmulos. Eles não morreram para que os pobres atacassem os pobres enquanto o capital permanecia intocável. Aqui, Fanon e Biko são indispensáveis. O colonialismo ocupa não apenas a terra; ele ocupa a mente, e quando africanos se opõem a outros africanos, a revolução permanece incompleta.
O movimento que outrora celebrava o sacrifício, a humildade e o serviço, agora demonstra com muita frequência materialismo grosseiro e abuso de poder. Muitos líderes não vivem mais onde os trabalhadores vivem, e a posição social molda a consciência. Lideranças que vivem longe dos trabalhadores podem começar a falar de valores de esquerda, vivendo ao mesmo tempo de forma conservadora.
Necessidade de Renovação da Revolução Nacional
A Revolução Democrática Nacional deve ser renovada, caso contrário, se tornará um slogan histórico. A renovação não deve significar nostalgia. Deve significar um retorno ao juramento fundamental da libertação. A NDR renovada deve restaurar um estado desenvolvimentista, abandonar a austeridade, realizar uma reindustrialização, taxar a riqueza, interromper fluxos financeiros ilegais, controlar o capital e tratar a água, eletricidade, saúde, educação e transporte como bens públicos. Deve tratar a fome como uma emergência nacional, organizar desempregados e trabalhadores em condições instáveis, proteger migrantes, exigindo gestão migratória legal e humana, e buscar a integração regional, pois nenhuma parede pode vencer a pobreza.
A Carta da Liberdade foi nosso sonho durante o pesadelo do apartheid. Durante o sonho da democracia, milhões vivenciaram um novo pesadelo de desemprego, fome e desespero. Este paradoxo é com o qual devemos confrontar. A geração que derrotou o apartheid cumpriu sua missão. Nossa tarefa é concluir as tarefas inacabadas da libertação: reconstruir, organizar, educar, unir e lutar, até que a promessa da Carta da Liberdade se torne não uma lembrança de um sonho, mas a vida real de todos que chamam a África do Sul de lar.