De acordo com dados divulgados na terça-feira à noite pelo Ministério da Saúde da República Democrática do Congo (RDCongo), mais de dois mil casos de Ebola foram confirmados, resultando em um total de 754 óbitos. Atualmente, 753 indivíduos permanecem sob isolamento ou em hospitais, enquanto 366 já conseguiram se recuperar.
Desafios no Rastreio e Propagação
O monitoramento de contatos no país, que possui mais de cem milhões de habitantes, segue sendo um grande obstáculo, com a cobertura das pessoas expostas atingindo apenas 67%. A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) relatou em um comunicado emitido no dia que o Ebola está se espalhando na RDCongo em um ritmo considerado «sem precedentes».
Trish Newport, coordenadora de emergências da MSF, enfatizou que o número de infectados cresce, levando mais famílias à perda de entes queridos, o que dificulta o controle da epidemia. Ela ressaltou a necessidade de «uma ação internacional mais firme e coordenada para agir com maior rapidez e melhorar o acesso tanto aos cuidados médicos para o Ebola como a outros serviços de saúde essenciais».
Contexto da Epidemia
A RDCongo, localizada na África central, tem enfrentado a epidemia causada pelo vírus Bundibugyo desde maio. Dois meses após o início, a disseminação continua mais acelerada do que as autoridades de saúde conseguem acompanhar, mesmo diante de uma resposta ampliada.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou na terça-feira que pelo menos 80% dos novos casos surgem de cadeias de transmissão desconhecidas. Além disso, a OMS alertou que a real dimensão da epidemia de Ebola na RDCongo pode ser «duas a quatro vezes» maior do que as estimativas oficiais.
Obstáculos Operacionais e Impacto Humano
Um dos maiores problemas reside no fato de as autoridades de saúde ainda não terem identificado o «paciente zero» da epidemia. Adicionalmente, os deslocamentos causados por conflitos armados e os movimentos ligados à mineração complicam o rastreamento de milhares de pessoas que tiveram contato com indivíduos infectados.
Chikwe Ihekweazu, responsável pelas emergências sanitárias da OMS, relatou na terça-feira, após retornar de Bunia, em Ituri — a província mais afetada —, que muitas das mortes recentes ocorreram em pessoas que jamais acessaram um centro de saúde ou receberam assistência médica.
Os profissionais de saúde em diversas áreas de Ituri estão em greve, alegando não terem recebido pagamentos desde o início do trabalho na epidemia. Os esforços de contenção também são prejudicados pela ausência de vacinas ou tratamentos aprovados para o vírus Bundibugyo.
Evolução e Alcance Geográfico
Em apenas dois meses, este surto de Ebola, que evoluiu para epidemia, tornou-se o 17º a atingir a RDCongo, configurando-se como o terceiro maior e o de crescimento mais rápido entre todos os registrados até o momento.
Declarada oficialmente em maio em Ituri, uma província fronteiriça com Uganda e Sudão do Sul, a epidemia se expandiu para Uganda. Neste último país, foram confirmados 20 casos, sendo 15 deles trazidos da RDCongo, incluindo duas fatalidades.
Características do Vírus e Alerta Global
A epidemia está ligada à cepa Bundibugyo, que apresenta uma taxa de letalidade variando entre 30% e 50%, e para a qual não há vacina autorizada nem tratamento específico, conforme a OMS. A organização classifica o risco de propagação do surto na África subsaariana como «elevado», mas em escala global como «baixo». A OMS estima que o vírus começou a circular em Ituri cerca de dois meses antes da declaração do surto e classificou a epidemia como uma «emergência de saúde pública de importância internacional» em 17 de maio.
O vírus é transmitido pelo contato direto com fluidos corporais de pessoas ou animais infectados e causa febre hemorrágica grave, vômitos, diarreia e hemorragias internas.