A cenógrafa Lu Grecco detalha os bastidores da criação dos cenários icônicos e explica como o arquiteto catalão Antoni Gaudí serviu de inspiração para a estética do Castelo Rá-Tim-Bum.
Concepção do Cenário
Na década de 1990, uma equipe de cenógrafos da TV Cultura recebeu a missão de desenvolver um cenário para um programa que apresentasse um feiticeiro de três mil anos. Inicialmente, não havia definições claras sobre a aparência do castelo; ele não poderia ser medieval, nem seguir o padrão Disney, nem estar localizado em uma montanha.
O cenário precisava ser dinâmico para agradar crianças de diferentes faixas etárias, sem ser excessivamente infantil ou austero. Além disso, ele deveria refletir o personagem principal, que era tanto um feiticeiro quanto um inventor, e não deveria ostentar luxos exagerados para não incomodar crianças de classes sociais mais modestas. Um requisito crucial era que o castelo fosse urbano, visto que o antagonista planejava comprá-lo para transformá-lo em um arranha-céu de cem andares.
A Inspiração em Gaudí
Lu Grecco, que participou de todo o processo de cenografia, revelou que a pesquisa histórica e artística levou à descoberta de Antoni Gaudí como um suporte ideal para atender a todas essas exigências. Ela apontou que Gaudí se inspira nas formas da natureza, gerando movimento, o que é essencial para o público infantil. Seu trabalho combinava texturas, cores e formas de maneira harmoniosa e rica esteticamente.
Inicialmente, houve consideração pelo estilo da arquitetura antropofísica alemã, também inspirada na natureza, mas este foi descartado por ser considerado visualmente pesado e duro, enquanto a equipe buscava algo mais alegre. O estilo de Gaudí foi escolhido por ser engenhoso e versátil, comportando diversos elementos necessários ao cenário, como a acomodação dos atores e dos fantoches, e permitindo alterações futuras, como ocorreu no episódio 40.
Adicionalmente, o estilo de Gaudí possuía forte presença urbanística em Barcelona e arredores, o que ajudou na visualização de edifícios com sua linguagem integrada ao ambiente urbano.
Detalhes e Execução Prática
Grecco enfatizou que nada no cenário foi uma reprodução exata de um edifício ou parque, mas sim uma releitura estilística. Um elemento mais referenciado foi uma escultura de cavalo marinho, feita no local da bica para as crianças lavarem as mãos, que remetia a elementos do Parque Güell.
Ela ressaltou que o castelo é inteiramente sinuoso, sem linhas retas, o que confere movimento e amplitude ao vídeo. Sobre a execução, Grecco acredita que Gaudí teve um trabalho intenso com pedreiros, mas o projeto complexo do castelo foi viabilizado por uma equipe de funcionários altamente qualificada, incluindo marceneiros, cenotécnicos e aderecistas.
Apesar de não haver profissionais de serralheria artística no departamento de cenografia, dois serralheiros do setor de manutenção foram cedidos. Eles realizaram peças como um corrimão, moldando o ferro à mão, o que resultou em um produto maravilhoso e divertido para eles.
Sucesso Inesperado do Programa
Apesar de não terem tido ideia do sucesso que o Castelo Rá-Tim-Bum alcançaria, a equipe apostou e desfrutou do processo criativo. O programa representava um formato novo, e a TV Cultura tinha baixa audiência, tornando o êxito inesperado.
Grecco compartilhou que o impacto do programa perdura, com ex-alunos mencionando o Castelo como inspiração para cursar arquitetura ou jornalismo. Ela concluiu que a reverberação cultural do Castelo, agora um clássico, provavelmente nunca terminará.
Metodologia Criativa
Para criar elementos de cenário, Grecco adota a perspectiva do público, colocando-se no lugar de uma criança. Ao projetar a cozinha, por exemplo, ela se pergunta como uma criança de cinco ou sete anos imaginaria aquele espaço e o que os personagens fariam nele.
Para manter o lado lúdico, ela sugere que quem não possui essa facilidade deve se alimentar de referências, pois o ato de pesquisar estimula o cérebro, mesmo que os elementos pesquisados não sejam utilizados diretamente na obra final.