A Basílica de Sagrada Família é um projeto grandioso, cuja construção dura quase 150 anos e engloba elementos de arte, matemática, política e drama.
O destino trágico de Antoni Gaudí
Em 7 de junho de 1926, em Barcelona, um homem idoso com longos cabelos e barba foi atropelado por um bonde. Ele foi confundido com um sem-abrigo. Após horas de busca e reconhecimento, ele faleceu no hospital três dias depois, aos 73 anos. Era Antoni Gaudí, o arquiteto que projetou uma das obras mundiais mais famosas e ambiciosas.
No momento do acidente, Gaudí estava a caminho de um serviço normal após o trabalho, estando a apenas oito quarteirões de sua obra-prima inacabada — a Sagrada Família, à qual dedicou as últimas quatro décadas. Anteriormente, na década de 1880, ele visitava seus projetos diariamente, viajando em uma elegante carruagem. No entanto, após 34 anos divididos entre vários projetos, ele se concentrou exclusivamente na Sagrada Família. Ele mudou: parou de cuidar da aparência, tornou-se mais reservado e começou a viver diretamente no canteiro de obras.
Funerais e eventos comemorativos
Os funerais de Gaudí atraíram as ruas de Barcelona. Ele foi sepultado na cripta da Capela de Nossa Senhora do Carmo — a única parte do edifício que estava pronta para funcionar como templo. Exatamente cem anos depois, em 2026, 120 mil pessoas reuniram-se para uma missa comemorativa presidida pelo Papa Leo XIV. Este evento marcou não apenas o centenário da morte de Gaudí, mas também a inauguração da Torre de Jesus Cristo. Após 144 anos de início dos trabalhos, a Basílica de Sagrada Família atingiu sua altura máxima (172,5 metros) e se tornou a igreja mais alta do mundo.
Início da construção e visão de Gaudí
Quando a Associação dos Fiéis de São José decidiu construir uma igreja em homenagem à família de Jesus em Barcelona, eles não possuíam inovações arquitetônicas. A Associação não estava oficialmente ligada à Igreja Católica e mantinha visões conservadoras: o projeto deveria ser uma resposta ao crescente liberalismo e anticlericalismo na recém-industrializada região da Catalunha. Inicialmente, o edifício foi concebido como um templo expiatório, financiado por doações individuais para a redenção dos pecados dos doadores.
O arquiteto original foi Francesc de Paula Villar, que projetou uma igreja neogótica semelhante a outros exemplos europeus da época — muito alta e pontiaguda. A construção começou em 1882, mas no ano seguinte, Villar renunciou devido a desentendimentos com a Associação. O projeto foi assumido pelo jovem arquiteto Antoni Gaudí, um de seus assistentes, que até então tinha pouca experiência em projetos civis para clientes ricos.
Gaudí não se intimidou com a escala da tarefa; pelo contrário, aumentou as apostas e reformulou completamente o projeto em apenas algumas semanas. Sua igreja deveria ser ainda mais alta, ter mais torres e incluir inovações para aproximar os fiéis. Um pátio em forma de estrela de quatro pontas era planejado ao redor da igreja, com cada ponto a uma distância que ele considerava ideal para a vista da igreja. Gaudí se inspirou na natureza, incluindo elementos da fauna e flora da Catalunha em seu conceito. Mais tarde, ele foi reconhecido como um representante do movimento Renascimento, que buscava restaurar a identidade catalã, o que era extremamente importante, pois a região havia sido forçadamente incorporada à Espanha desde 1714, e falar e escrever em catalão era proibido.
Filosofia de design e destruição do projeto
O estilo de Gaudí foi moldado através do método de tentativa e erro. Por isso, ele preferia criar modelos tridimensionais detalhados em vez de plantas tradicionais. Alguns de seus maquetes atingiam cinco metros de altura. Ele entendia que não conseguiria terminar o trabalho em vida e ficou famoso pela frase de que seu 'cliente' (Deus) não tem pressa. O atraso deve-se não apenas à dependência do templo de doações, mas também ao nível de detalhe e inovação. Gaudí deixou aos seus sucessores conceitos simbólicos gerais, bem como padrões de medidas, formas e proporções que deveriam ser seguidos.
Na época de sua morte, cerca de 10 a 15% da construção estava concluída, mas uma das três fachadas principais — a Fachada do Nascimento — já estava finalizada. Gaudí decidiu priorizar esta, para dar aos trabalhadores um objetivo comum e tornar o trabalho 'demasiado significativo para ser abandonado mais tarde'. Isso funcionou. Os construtores subsequentes tiveram liberdade criativa na escolha de detalhes e estilos para outras partes da igreja, sempre seguindo os princípios orientadores de Gaudí.
Crise política e vandalismo
Essa abordagem mostrou-se crucial quando, dez anos após a morte do arquiteto, em 1936, todos os modelos e projetos foram destruídos por vândalos. Esse ato ocorreu no contexto de uma crise surgida após décadas de tensão entre nacionalistas (militares, católicos conservadores e monarquistas) e republicanos (socialistas, anarquistas, defensores da independência da Catalunha). Em 1936, militares sob o comando do General Franco deram um golpe contra a república espanhola, proclamada cinco anos antes. Em Barcelona, grupos republicanos tomaram o controle de parte da cidade e atacaram instituições consideradas aliadas dos nacionalistas, e as igrejas ficaram na zona de perigo.
Assim, na noite de 20 de julho, anarquistas incendiaram a oficina de Gaudí na Sagrada Família, destruíram seus modelos e mataram o capelão (assistente religioso) da igreja. Este foi um dos primeiros de centenas de conflitos que marcaram os três anos de guerra civil até a vitória que garantiu o poder de Franco por 36 anos.
Restauração e métodos modernos
Após o ataque, os alunos de Gaudí restauraram os destroços e salvaram 8 mil fragmentos de maquetes, que são guardados em um fundo para pesquisadores que tentam reconstruir os planos ao longo de nove décadas. Materiais publicados em outros lugares e livros escritos por arquitetos que trabalharam com Gaudí também compõem este quebra-cabeça.
No entanto, as décadas seguintes à salvação dos modelos foram de progresso lento. Em 1977, embora a maior parte do edifício tenha avançado, a igreja ainda não tinha telhado e o chão era de terra. Arquitetos de todo o mundo questionavam se deveriam concluir o trabalho ou preservá-lo como relíquia do gênio.
Na década de 1990, os Jogos Olímpicos de Barcelona reacenderam o interesse turístico pela cidade e pela basílica. Graças às receitas dos bilhetes (que se tornaram a principal fonte de renda da igreja), a construção ganhou ritmo novamente. Hoje, o Conselho de Construção da Sagrada Família divide-se em grupos especializados que analisam cada pista deixada por Gaudí. Um grupo foca na forma das colunas, enquanto outro procura pedras de cor e resistência semelhantes às originais.
Princípios de curvas e geometria
Gaudí viveu com doenças reumáticas e passou a infância isolado no campo da Catalunha. Durante esse período, ele começou a desenvolver duas habilidades chave para a futura arquitetura: observação da natureza e modelagem tridimensional, que aprendeu na ferraria de seu pai. Na opinião de Gaudí, em suas obras, assim como na natureza, não há ângulos ou linhas retas. Para ele, as curvas de árvores e ossos representavam estruturas ideais para suportar peso. Ele afirmava: 'A linha reta pertence ao homem; e a linha curva pertence a Deus.'
Por isso, cada coluna da Sagrada Família está ligeiramente inclinada. Na parte superior, elas se ramificam em colunas mais finas e curvas. E isso não é apenas qualquer curva: Gaudí foi o primeiro a usar intencionalmente arcos catenários, que distribuem uniformemente o peso por toda a superfície e são frequentemente encontrados na natureza. Essa forma se manifesta quando fios pendurados se deformam sob seu próprio peso, como cordas em um varal vazio ou ao segurar um colar antes de vesti-lo.
Para calcular os arcos catenários de suas colunas, Gaudí criou um sistema engenhoso de modelos invertidos. Ele pendurava fios com pesos em diferentes pontos e, usando um espelho no chão, copiava as curvas criadas. Se o peso ou a posição do fio mudasse, toda a estrutura mudava com ele. Foram necessárias décadas para que os computadores compreendessem os cálculos feitos por ele no papel e nos modelos. Na década de 1990, o software de engenharia aeroespacial provou ser mais eficaz para calcular as curvas do que a engenharia civil tradicional.
Outra inovação reside nas bases: as colunas não são perfeitamente redondas. Elas começam como estrelas e gradualmente se transformam em polígonos com um número de lados tal que, no final, parecem um cilindro. Imagine uma pilha de moedas. Se forem redondas, a coluna será redonda. Mas se você usar moedas em forma de estrela de seis pontas, a pilha forma uma coluna estrelada. No entanto, se você girar ligeiramente cada moeda, deslocando os vértices das estrelas, à medida que a coluna sobe, a distância entre os vértices diminui. Tornam-se tantas faces que o resultado final não parece um polígono (com linhas retas), mas sim um círculo. É isso que Gaudí fez em grande escala.
A estrutura de polígonos e galhos forneceu equilíbrio na distribuição de peso e eliminou a necessidade de contrafortes — apoios externos para sustentar as paredes da igreja. Gaudí considerava os contrafortes comuns nas igrejas neogóticas como 'muletas' de construções frágeis. Em vez dessas estruturas, ele preencheu o espaço com janelas adicionais.
Formas geométricas e influência cultural
Gaudí também tinha um repertório favorito de formas geométricas — superfícies reguláveis. Elas têm nomes complexos, mas são familiares: hiperboloides (tubo de usina nuclear), elipsoides (bola achatada), paraboloide hiperbólico (batata chips Pringles) e elipsoides (espiral de vinho). Essas superfícies reguláveis estão presentes por toda a basílica, mas nem sempre da maneira como nos livros de geometria: Gaudí explorou interseções, sobreposições, cortes e composições que permitiam criar formas ainda mais incomuns.
Quando o autor entrou pela primeira vez na basílica, fascinado pelos tamanhos, curvas e cores, uma música pouco religiosa ecoava em sua mente. Não é à toa que o programa clássico do canal Cultura se inspirou na arquitetura de Gaudí para criar um castelo no meio de uma grande cidade que não parecia medieval e correspondia ao seu proprietário — um inventor-mago de 3000 anos. O diretor de arte Lu Greco, que participou do projeto do castelo, explica: 'O estilo de Gaudí tinha esse certo caos que permitia inserir qualquer extravagância necessária durante os episódios.'
Na foto apresentada, por exemplo, o teto estrelado é criado pela intersecção de vários hiperboloides (tubos atômicos). Abaixo, os 'nós' das colunas são formados por elipsoides (bolas achatadas), 'cortados' por outros elipsoides inclinados. Assim como as árvores, esses nós garantem a melhor distribuição de peso entre os diferentes galhos. Embora possa parecer complicado hoje, imagine um pedreiro recebendo instruções de Gaudí há 140 anos. Mas não é algo incrivelmente difícil: as curvas não são aleatórias, mas calculadas com base na interseção de retas no espaço, e na maioria dos casos, não é necessário esculpir cada curva individualmente.