Após décadas de debate entre geógrafos e geólogos, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estabeleceu uma nova definição para o que constitui uma montanha no Brasil, confirmando cientificamente a presença desse tipo de relevo no território nacional.
Histórico do debate sobre relevo
Antigamente, a classificação do relevo brasileiro era objeto de controvérsia. O livro O Homem e a Serra (1963), escrito pelo engenheiro e geógrafo Alberto Ribeiro Lamego, já abordava a influência do terreno na ocupação do país, citando a diferença entre a colonização no Rio de Janeiro e em São Paulo. Lamego observou que o terreno ditou os caminhos da ocupação, notando que, em áreas costeiras restritas, os colonos escalavam a cordilheira em busca de terras.
Embora Lamego utilizasse o termo “montanhas”, a classificação permaneceu em disputa por muitos anos. Muitas pessoas aprendiam que o Brasil carecia de montanhas, associando-as apenas a elevações extremas como o Himalaia ou os Andes. Contudo, estudos geográficos evoluíram significativamente desde os trabalhos iniciais de Lamego, culminando em um consenso científico em 2026 de que o Brasil possui montanhas.
Origem do conceito de montanha
O conceito moderno de montanha foi inicialmente importado do Reino Unido no século XIX. Cartógrafos britânicos definiram montanha como uma elevação com, no mínimo, 1.000 pés (304,8 metros) acima do relevo circundante, exigindo também pelo menos três encostas íngremes. Essa definição foi adotada por profissionais em outros países e consta no Dicionário Geológico Geomorfológico brasileiro.
Profissionais como Lamego, Aroldo de Azevedo, Aziz Ab’Saber e Francis Ruellan contribuíram para os estudos brasileiros. Inicialmente, alguns geólogos ligavam a formação de montanhas à orogenia, o movimento das placas tectônicas, como ocorre nos Andes e no Himalaia. No entanto, como o Brasil não apresenta tectonismo ativo, essa teoria não se aplicava localmente.
A nova metodologia do IBGE
Em 2019, Rosangela Botelho, geógrafa do IBGE, propôs um sistema de classificação de relevo similar aos usados para solo e seres vivos, visando acabar com as divergências terminológicas. O IBGE, em parceria com o Serviço Geológico do Brasil (SGB), a União da Geomorfologia Brasileira (UGB) e universidades, formou uma comissão composta por cerca de 70 especialistas. Este trabalho resultou no consenso de que existem montanhas no Brasil.
Lucas Krein Rademann, geógrafo da UFSM, explica que o que mudou foi o entendimento oficial do que é uma montanha, pois antes apenas formações ligadas a dobramentos modernos eram consideradas. Ele aponta que o Brasil possui grandes cordilheiras antigas que foram desgastadas pela erosão.
A hipótese mais aceita sugere que as montanhas brasileiras surgiram não do movimento das placas, mas do soerguimento da litosfera. Há 480 milhões de anos, o território possuía picos comparáveis ao Himalaia, embora o desgaste temporal tenha reduzido sua altitude. Além disso, uma movimentação vertical de blocos formou o relevo da Serra do Mar há 70 milhões de anos.
Implicações da redefinição
Segundo a nova classificação, 14 estados brasileiros possuem montanhas, sendo Minas Gerais o que mais registra, seguido por Roraima. A comissão do IBGE também substituiu o termo “depressão” por “superfície rebaixada”, por considerá-lo impreciso, sendo esta mudança crucial, visto que as depressões cobrem 60% do país.
A padronização do entendimento científico traz relevância para políticas públicas, como a gestão de riscos e o turismo. Rademann afirma que haverá mudanças no ensino de geografia, permitindo que áreas classificadas como montanhas integrem políticas de combate a deslizamentos. Faria destaca que a correta topografia influencia o planejamento de infraestrutura e a conscientização sobre áreas de risco, além de valorizar destinos turísticos.
Com as novas definições, locais antes classificados como planaltos, como a Região Serrana do Rio e a área do Planalto das Guianas, passam a ser considerados regiões montanhosas. No entanto, Faria esclarece que o Monte Roraima, apesar de estar no Planalto das Guianas, deve ser visto como um grande platô devido à sua ampla extensão.