Pesquisadores estudaram a comunidade de organismos vivos que colonizou uma tampa de garrafa plástica. Este objeto foi trazido pela correnteza das Filipinas para a costa do Japão. Como resultado do estudo, foram contados 309 indivíduos e colônias pertencentes a nove táxons diferentes.
Composição e características da colônia
Entre os passageiros encontrados na tampa estavam vários tipos, incluindo ascídias, crustáceos, vermes achatados, vermes poliquetas e foraminíferos. Na tampa, coexistiram espécies costeiras locais e organismos característicos do lixo oceânico à deriva. De acordo com uma publicação na revista Marine Pollution Bulletin, os dados do estudo indicam que até mesmo partículas de plástico insignificantes são capazes de transportar seres vivos por longas distâncias, levando-os para fora de seu habitat habitual e contribuindo para a disseminação de espécies invasoras.
Dispersão através do lixo plástico
Pequenos habitantes marinhos que vivem perto da costa frequentemente colonizam fragmentos de lixo plástico que flutuam na superfície da água. Esses organismos se dispersam passivamente longe de seu local de origem. Graças a esse mecanismo, invertebrados costeiros conseguiram chegar a áreas do oceano aberto, incluindo a Grande Mancha de Lixo do Pacífico. Às vezes, organismos que viajam no plástico chegam a outros continentes.
Um exemplo é o de 2011, quando um tsunami que atingiu o Japão arrastou milhões de objetos para o Oceano Pacífico, entre os quais havia plásticos. Parte desses objetos acabou chegando à América do Norte, trazendo consigo cerca de 300 espécies de invertebrados costeiros da Ásia. Assim, a poluição dos oceanos com plástico cria um risco de transporte de organismos vivos entre diferentes regiões, o que pode prejudicar os ecossistemas locais. Segundo os cientistas, casos semelhantes foram registrados pelo menos com 17 espécies.
Comparação com objetos naturais
Os cientistas observam que os organismos marinhos se dispersavam em objetos à deriva muito antes do surgimento do ser humano, como troncos de árvores. No entanto, tais objetos naturais se decompunham rapidamente na água e não conseguiam percorrer grandes distâncias. Ao contrário deles, os fragmentos de plástico possuem maior durabilidade, permitindo que flutuem no oceano por anos e transportem seus passageiros por grandes distâncias.
Detalhes do estudo na tampa
A equipe de biólogos liderada por Naoto Jimi da Universidade de Nagoya demonstrou que até mesmo um pequeno fragmento de plástico pode se tornar um habitat para muitos seres vivos. Entre 2022 e 2023, os pesquisadores usaram uma rede neural para coletar objetos que flutuavam na superfície do Oceano Pacífico perto da costa do sul do Japão. Entre os objetos coletados estava uma tampa de garrafa plástica com 3,5 centímetros de diâmetro. Em suas faces interna e, em menor grau, externa, havia muitos organismos vivos aderidos.
Após a remoção da tampa para análise em laboratório, os pesquisadores examinaram os passageiros sob microscópio e realizaram testes genéticos. O número total de indivíduos e colônias contabilizados foi de 309, pertencentes a nove táxons. O representante mais proeminente foi o verme poliqueta Eunice bipapillata, que atingia nove centímetros. Ele criou um tubo mucoso na tampa que cobria quase toda a superfície interna, transformando o plástico liso em um ambiente tridimensional complexo para outros organismos.
Espécies de organismos na tampa
Dentro do tubo mucoso de E. bipapillata, foram encontrados dois vermes poliquetas menores da espécie Platynereis sp., da família Nereididae, que presumivelmente usaram essa estrutura como abrigo. Além disso, 235 pequenos vermes poliquetas sésseis Spirorbis spp., da família Serpulidae, estabeleceram-se na superfície do tubo e da própria tampa, cujas conchas espirais formaram um depósito branco denso em alguns pontos. Também foram encontrados dentro do tubo dois vermes achatados da espécie Acotylea sp., da ordem Polycladida; esses seres são predadores e detritívoros, geralmente vivendo no fundo do mar.
Além dos vermes, Jimi e seus coautores registraram 23 pequenas colônias de ascídias da família Electridae, localizadas tanto externamente quanto no tubo de E. bipapillata. Na parte externa da tampa também estavam 19 patinhas marinhas Lepas anatifera — crustáceos com estilo de vida fixo. Tanto as ascídias Electridae quanto as patinhas marinhas L. anatifera são classificadas como incrustantes de objetos flutuantes no oceano. Finalmente, foram encontrados foraminíferos na tampa — eucariotos unicelulares com esqueleto mineral. Entre eles, havia 22 exemplares vivos de Rosalina globularis, que normalmente vive em águas rasas costeiras, aderindo a corais e rochas, duas foraminíferos bentônicos vivos da classe Monothalamea, e duas foraminíferos planctônicos mortos Globorotalia crassaformis e Globigerina bulloides, além de um fragmento de concha de uma espécie planctônica não identificada.
Conclusões sobre a viagem da tampa
Os pesquisadores concluíram que a tampa funcionou como um recife miniatura, onde incrustantes típicos de objetos à deriva coexistiram com espécies costeiras, tanto livres quanto sésseis. Supõe-se que inicialmente os incrustantes colonizaram o objeto, e depois as espécies costeiras se juntaram. Após a limpeza da tampa dos incrustantes, foi encontrado o nome gravado de uma empresa filipina de bebidas, o que confirma a versão de sua jornada das Filipinas ou regiões vizinhas para o Japão. A presença do verme poliqueta E. bipapillata, cujo alcance inclui águas tropicais no oeste do Pacífico, mas não havia sido relatado anteriormente no Japão, também apoia essa suposição. A análise das taxas de crescimento da concha de R. globularis, bem como dos isótopos de oxigênio e carbono, permitiu aos autores concluir que durante sua vida ela esteve em água com temperatura entre 22,3 e 29,9 graus Celsius, o que confirma sua chegada das Filipinas. Modelagens adicionais mostraram que a viagem da tampa levou pelo menos 70 dias, e a maior parte desse tempo ela esteve sob a influência da Corrente de Kuroshio. Os resultados destacam a capacidade de pequenos fragmentos de lixo plástico atuarem como transportadores de organismos marinhos por enormes distâncias.

