Satya Nadella, presidente-executivo da Microsoft, alertou recentemente que corporações que empregam modelos de inteligência artificial desenvolvidos por grandes laboratórios podem inadvertidamente ceder informações estratégicas. Essa declaração reavivou o debate sobre o controle de dados empresariais no contexto do avanço da IA.
Informações internas como ativo valioso
Em uma postagem realizada em seu blog no domingo (12), Nadella argumentou que as empresas não estão apenas pagando pelo uso das ferramentas de IA, mas também fornecendo dados internos que são utilizados para aprimorar esses sistemas. Ele ressaltou que esse conhecimento pode constituir um ativo de grande valor para a concorrência.
Riscos dos modelos proprietários
Essa preocupação surge em um momento de crescente adoção empresarial de modelos proprietários criados por companhias como OpenAI e Anthropic. O aviso aponta para uma potencial dependência tecnológica e sublinha a necessidade de estabelecer estruturas que garantam que a propriedade dos dados permaneça nas mãos das próprias organizações.
Como os dados são expostos
Segundo Nadella, o modo de operação de muitos sistemas de IA atuais estabelece uma dinâmica onde as empresas oferecem elementos cruciais de suas atividades enquanto buscam respostas mais eficazes das ferramentas. O executivo especificou que os comandos (prompts), os ajustes realizados pelos usuários e as correções feitas durante o uso podem vazar detalhes sobre práticas de negócio e processos internos.
Ele classificou essas interações como um tipo de aprendizado institucional acumulado. Na visão dele, esse saber poderia ser adquirido por rivais com grande dificuldade, mas acaba sendo compartilhado naturalmente durante o uso diário dos modelos.
Dupla cobrança pela inteligência
Satya Nadella declarou em sua publicação sobre o uso corporativo de IA que «você essencialmente paga pela inteligência duas vezes, uma vez com dinheiro e novamente com algo ainda mais valioso: o conhecimento proprietário que precisa revelar para tornar essa inteligência útil». A discussão foca majoritariamente nos modelos de IA fechados, onde as empresas dependem da infraestrutura e das regras definidas pelos próprios provedores.
O temor levantado por críticos desse modelo é que os laboratórios desenvolvedores possam coletar informações dos clientes e, futuramente, competir em setores onde esses mesmos clientes operam.
Destilação e adaptação de tecnologias
Nadella também questionou a disparidade no tratamento entre o treinamento de modelos de IA e as limitações impostas ao uso desses sistemas por terceiros. Ele sugeriu que, se empresas de IA usam vastos volumes de dados públicos para criar seus produtos, deveria haver condições análogas para que organizações pudessem estudar ou adaptar tais tecnologias.
Este processo, denominado «destilação», envolve o emprego das respostas geradas por um modelo para desenvolver outro sistema, tipicamente mais simples ou econômico. O assunto ganhou destaque após a Anthropic acusar modelos chineses de código aberto de enviar milhões de requisições ao Claude para obter dados que melhorassem seus próprios sistemas.
Alternativas propostas e tendências de mercado
O executivo defendeu que as companhias devem manter a posse de seus dados, incluindo os registros de interações, os comandos enviados e as avaliações feitas pelos usuários. Como solução alternativa, ele propôs a criação de ambientes de aprendizado próprios e estruturas capazes de integrar diversos modelos de inteligência artificial.
Essa sugestão reforça a tendência de migração para modelos abertos instalados internamente nas empresas. Idit Levine, fundadora e presidente-executiva da Solo.io, comentou em entrevista ao TechCrunch que empresas que inicialmente testaram soluções proprietárias começaram a avaliar modelos de código aberto rodando internamente devido ao maior controle e aos custos reduzidos.
Levine observou esse movimento entre clientes corporativos, citando organizações como T-Mobile, ADP e SAP. A Solo.io, que fornece tecnologia para o projeto Agentgateway da Linux Foundation, atua no gerenciamento de segurança e redes para sistemas de IA.
Crescimento de modelos abertos no setor
Outras empresas do setor também notaram o aumento no uso de modelos abertos. A Vercel, plataforma para criação e hospedagem de sites, começou a oferecer recursos de alternância entre modelos de IA, assim como o OpenRouter, um serviço de roteamento entre diferentes sistemas de IA, registrou alta demanda por essas opções.
Os dados mostram que modelos abertos representaram 29% de todo o tráfego direcionado pelo gateway da Vercel no mês anterior à publicação. Esse movimento corrobora a expectativa de que essa abordagem se expandirá entre organizações que buscam diminuir a dependência de fornecedores específicos.
Posicionamento da Microsoft
A postura de Nadella é relevante visto que a Microsoft investe em empresas de IA como OpenAI e Anthropic. Apesar dessa parceria, o executivo insistiu que os usuários corporativos devem preservar a titularidade do conhecimento gerado durante o uso dessas ferramentas. Ele concluiu: «Ao consumir inteligência, você está criando inteligência. E aquilo que você cria deve pertencer a você».

