A maior parte da população da Península Coreana até o final do século XIX não era alfabetizada, portanto, muitos mitos existiam exclusivamente em forma oral. Ao coletar e registrar esses contos, alguns foram perdidos, enquanto outros sofreram alterações, incluindo a influência de novas crenças religiosas.
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Estudo do folclore coreano
No livro 'Mitos Coreanos. De Tangun e Hwarans a Gumiho e a Venda de Sonhos', publicado pela editora Mann, Иванов e Ferber, a coreóloga Natalia Chesnokova aborda o folclore relacionado à criação do mundo, aos governantes coreanos, bem como aos espíritos e monstros. O livro apresenta um fragmento sobre os protetores dos oprimidos, que, no entanto, podem representar uma ameaça para todos.
O Monstro Pulgasari
Pulgasari é um dos personagens menos conhecidos fora da Coreia, mas ao mesmo tempo marcantes do folclore local. Este monstro tem a peculiaridade de devorar metais, incluindo ferro, armaduras e qualquer produto de ferreiros. Quanto mais metal ele absorve, maior ele se torna, transformando-se de uma pequena criatura em uma figura gigantesca capaz de enfrentar um exército inteiro.
Existem várias versões sobre a origem de Pulgasari. O motivo geral é que ele nasce do sofrimento humano ou como resultado de uma fé proibida. Em uma das versões populares, conta-se sobre um monge budista da era Goryeo que se escondia de perseguições quando o budismo estava sob ataque. Ele fabrica uma pequena figura de grãos de arroz e depois começa a alimentá-la com agulhas de ferro. Essa figura ganha vida e começa a crescer rapidamente, absorvendo todo o metal circundante. Outras narrativas ligam o surgimento de Pulgasari a sucata metálica que permaneceu enterrada por muito tempo ou a uma mistura de arroz e sangue, simbolizando vestígios materiais da vida humana e da violência.
Aparência e Significado Metafórico
A descrição da aparência de Pulgasari varia dependendo da fonte. Às vezes, é comparado a um dragão ou a uma serpente gigante, e outras vezes é representado como um híbrido de vários animais: o corpo lembra um urso, possui um tromba de elefante e chifres de rinoceronte, além de garras de tigre. Em todos os casos, este ser possui um corpo poderoso, quase inquebrável, e pele de pedra, tornando-o invulnerável a armas comuns, pois se alimenta de metal. Em algumas lendas, a única vulnerabilidade de Pulgasari é o fogo ou um calor intenso, capaz de destruí-lo. Consequentemente, nas lendas populares, frequentemente é retratado um final em que as pessoas queimam o monstro ou o atraem por engano para um calor destrutivo.
Do ponto de vista do significado, Pulgasari atua não apenas como um monstro comedor de metal, mas como a personificação de uma energia destrutiva incontrolável. Ele cresce com base nos medos humanos, conflitos militares e no ferro usado na produção de armas, e, por fim, começa a ameaçar aqueles que criaram essas armas. Em algumas variações, ele é inicialmente invocado ou criado para proteger contra a pressão das autoridades, mas com o tempo, o monstro torna-se excessivamente perigoso para todos.
Pulgasari no Cinema
No século XX, Pulgasari ganhou popularidade no cinema. Na década de 1980, foi lançado na RPDC o filme 'Pulgasari'. De acordo com o enredo, camponeses se revoltam contra um governante cruel, e são ajudados por um enorme monstro comedor de ferro criado por um ferreiro falecido. Inicialmente, o filme foi concebido como material propagandístico, mas com o tempo tornou-se um clássico e ganhou reconhecimento fora do país, transformando Pulgasari em um ícone da cultura pop — o 'monstro de conto' coreano, onde se entrelaçam temas de medo da guerra, memória das perseguições e fantasia de poder capaz de mudar o mundo. No entanto, ao comparar as representações de Pulgasari em crônicas medievais e no filme, nota-se que no cinema ele tem alguma semelhança com Godzilla, e a narrativa folclórica geral sofreu mudanças significativas na versão norte-coreana.
Comparação entre Mitos e Filme
No folclore tradicional, Pulgasari é geralmente criado por um monge budista que evita a perseguição durante os períodos de proibição do budismo. O monge molda uma figura de arroz, a alimenta com agulhas, e ela ganha vida. O motivo principal aqui é o sofrimento dos perseguidos e o mal abstrato do poder, sem uma descrição específica de uma revolta popular. No entanto, no filme, essa figura é criada por um ferreiro rural que é morto pelo regime por simpatizar com os camponeses, e o monstro é originalmente concebido como uma ferramenta para a revolta contra um rei feudal desonesto.
No mito, Pulgasari frequentemente atua como uma força natural: ele consome ferro, aumenta de tamanho, absorve equipamento militar e pode sair do controle, ameaçando a todos. Seu poder destrutivo é ambíguo: ele pode ser um herói que pune o mal ou uma calamidade gerada pela dor humana. No cinema, o monstro é apresentado como um aliado dos camponeses. Ele os ajuda a destruir os exércitos do governante corrupto, protege os fracos, e sua 'dieta de ferro' enfraquece o adversário. Mais tarde no enredo, surge um aspecto mais complexo: o monstro começa a devorar ferramentas agrícolas dos camponeses, sugerindo que qualquer força criada para fins revolucionários pode se tornar um problema para seus próprios criadores.
Diferenças no Final e Moral
No folclore, o desfecho da história permanece indefinido. Às vezes, Pulgasari é destruído pelo fogo ou com a ajuda de monges; às vezes, ele simplesmente desaparece ou 'pode viver até hoje'. O importante é o motivo: o ser é extremamente difícil de destruir, é quase invulnerável, o que gera medo. No filme, o destino de Pulgasari está ligado à filha do ferreiro: ele ganha vida graças ao seu sangue e, finalmente, morre quando ela se sacrifica para parar o monstro que prejudica as pessoas comuns.
Assim, no folclore coreano, Pulgasari serve como punidor de governantes injustos, absorvendo suas armas, mas não forma uma narrativa coesa sobre a revolução. É mais uma moral sobre retribuição direcionada àqueles que abusam do poder. A versão cinematográfica, por outro lado, transforma a trama em uma alegoria clara da luta de classes: o rei priva os camponeses de ferro para criar armas contra eles, e os camponeses criam um monstro que ajuda a derrubar os opressores.
De todo o conjunto de mitos coreanos, Pulgasari se tornou famoso como um protetor constante dos desamparados, intimamente ligado à tradição coreana nacional. Embora possa não ser tão sofisticado quanto os afrescos nas paredes dos túmulos de Goguryeo, ele demonstra alta eficácia, tornando seu terror bastante palpável.