A atual crise geopolítica agrava as dificuldades econômicas já existentes na África do Sul, causadas pela dependência do país de um sistema energético vulnerável a choques globais e interrupções nas cadeias de suprimentos provocadas por conflitos, como a guerra entre EUA, Israel e Irã.
Crise climática e desafios financeiros
Em meio a este conflito, existe uma crise climática existencial e crescente, que exige não apenas inovações tecnológicas, mas também uma revisão fundamental das arquiteturas de governança e finanças para impulsionar o desenvolvimento e o crescimento. De acordo com o relatório 'Climate Finance Landscape Report, 2025' da Comissão Climática Presidencial, a África do Sul, sendo a economia mais industrializada do continente, atrai cerca de 60% de seu financiamento climático internamente, o que indica um forte setor financeiro.
No entanto, o déficit anual de investimento para atingir as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e a meta de neutralidade de carbono é de impressionantes 203 a 404 bilhões de rand sul-africanos. Os fluxos de fundos existentes estão fortemente inclinados para a energia, especialmente eletricidade renovável, que representa 74,1% do financiamento rastreado, enquanto a adaptação permanece em apenas 11,3%. Mais revelador ainda é que 78,2% dos instrumentos financeiros consistem em financiamento de dívida a taxas de mercado (45%) e capital acionário (33,2%).
Limitações da abordagem de mercado
Essa dependência de dívida comercial impõe o fardo da transição para os balanços, um modelo inadequado para iniciativas comunitárias que não possuem garantias, histórico de crédito ou fontes de renda estáveis em estágios iniciais. O financiamento explicitamente rotulado como 'transição justa' permanece modesto — em média apenas 16,8 bilhões de rand anualmente, e provém principalmente de governos e instituições de desenvolvimento (DFI). O mercado por si só não garante a justiça.
A transição justa é vista não como uma questão secundária, mas como um fundamento normativo focado em trabalho decente, integração social, erradicação da pobreza e participação na tomada de decisões. Ela pressupõe sistemas de energia renovável descentralizados e de propriedade diversificada e acesso equitativo aos recursos. No entanto, quando o financiamento climático é dominado por atores comerciais que buscam retorno com risco, as comunidades mais afetadas, como nas regiões de carvão de Mpumalanga, acabam sendo meras observadoras ou, na melhor das hipóteses, receptoras de programas simbólicos.
Apelo à agência comunitária
Como a experiência real do impacto climático — aumento da temperatura, intensificação de tempestades, inundações e problemas de recursos hídricos — é ignorada pelos fluxos financeiros agregados, é necessária uma ecossistema de financiamento direcionado que coloque a agência comunitária em primeiro plano. Uma apresentação sobre o financiamento de iniciativas verdes em nível comunitário na África, baseada na experiência sul-africana, revela um paradoxo crítico: apesar do aumento do financiamento climático, ele diverge profundamente dos princípios da transição justa.
Se o objetivo é capacitar grupos vulneráveis — pobres, mulheres e jovens —, os mecanismos predominantes geridos pelo mercado são não apenas insuficientes, mas estruturalmente excludentes. Os dados da África do Sul exigem uma mudança decisiva de curso: de investimentos baseados em dívida e impostos de cima para baixo, para resiliência baseada na comunidade e de baixo para cima. O caso de Mpumalanga serve de exemplo: como província enfrentando graves perturbações climáticas e o gradual abandono do carvão, sua diversificação econômica não deve depender de forças de mercado abstratas.
O verdadeiro potencial reside na criação de cadeias de valor específicas para a região: processamento de minerais críticos, produção verde, cadeias de suprimentos de veículos elétricos, hidrogênio verde, fertilizantes de baixo carbono e outros. Esses setores prometem milhões de novos empregos, proteção de empregos existentes, redução da pobreza e prevenção de milhares de mortes prematuras. No entanto, esse potencial permanecerá inexplorado sem um sistema de financiamento bem pensado que priorize a agência comunitária.
Redefinindo riscos e aceitabilidade bancária
A energia renovável de propriedade social oferece uma alternativa convincente à estrutura de propriedade atual no setor de geração de energia. Isso requer estruturas de governança adequadas, participação na escolha de locais e, crucialmente, um nó financeiro que vá além da aceitabilidade bancária tradicional, engajando ativamente comunidades ou trabalhadores na economia local, aprofundando assim a democracia econômica.
A tese central deste artigo é que 'a aceitabilidade bancária deve ser redefinida'. Para iniciativas verdes lideradas por comunidades, o mecanismo de financiamento do projeto não deve começar com empréstimos comerciais. Ele deve começar com financiamento de subvenção para desenvolver casos de negócios, estudos de viabilidade preliminares, análise abrangente de viabilidade e preparação para a aceitabilidade bancária. Somente depois disso devem ser incluídos empréstimos concessionais, financiamento misto e, finalmente, dívida comercial.
Essa abordagem sequencial de mitigação de riscos reconhece que as iniciativas comunitárias não são empreendimentos comerciais fracassados, mas bens públicos com retornos sociais, econômicos e ambientais de longo prazo. O financiamento climático existente, obcecado por retorno imediato com risco, subestima sistematicamente esses benefícios colaterais. Além disso, o financiamento de adaptação — a criança esquecida dos fluxos climáticos — deve ser radicalmente aumentado e redirecionado para ações em nível comunitário. A adaptação é inerentemente local: sistemas de alerta precoce, agricultura resiliente à seca, infraestrutura resistente a inundações e conservação de água não podem ser desenvolvidos remotamente. No entanto, com apenas 11,3% do financiamento rastreado, a adaptação permanece uma questão secundária, forçando as comunidades a absorver choques que poderiam ser mitigados por investimentos estratégicos.
Conclusão: Mudança de paradigma
Alcançar a transição justa na África exige mais do que apenas aumentar os volumes de financiamento climático; exige uma mudança de paradigma sobre quem toma as decisões, quem se beneficia e quem assume os riscos. Os dados da África do Sul servem como um sinal de alerta: a lógica puramente comercial consolida a desigualdade. Políticos, instituições de desenvolvimento e filantropos devem dar prioridade à assistência técnica baseada em subsídios, estabelecer condições de transição justa e criar fundos especiais para energia renovável e adaptação de propriedade comunitária. Sem tais medidas, a transição não será nem justa nem sustentável. Como lembra o slide final da apresentação, a agência comunitária não é um complemento caritativo, mas o motor ausente das mudanças transformadoras. A questão agora não é se as iniciativas verdes devem ser financiadas, mas como financiá-las de forma justa.