Na remota aldeia de Rongmei, no estado de Manipur, um grupo de crianças pratica a medição de sombras sob a sombra de uma árvore alta. Em vez de usar pranchas ou paredes de sala de aula, os alunos usam a terra, a luz e sua própria curiosidade como base para o aprendizado.
Conceito do Centro Educacional
Essas aulas são supervisionadas por dois educadores: Ananya Mukherji e Kabitu Rongmei. O centro educacional Khaangchu transforma a própria aldeia em um espaço de aprendizado, permitindo que as crianças adquiram conhecimento sem renunciar à sua língua, identidade ou experiência de vida.
Kabitu Rongmei enfatiza a importância dessa abordagem, afirmando: «Quando as crianças não conseguem ver seu mundo no que estão aprendendo, a educação lentamente perde o sentido para elas». Khaangchu foi criado para restaurar esse sentido.
O Caminho de Kabitu Rongmei para a Mudança
Para Kabitu Rongmei, nascido na comunidade tribal Rongmei, a educação nunca foi algo garantido. Ele cresceu naquela mesma aldeia onde hoje está o Khaangchu, mas seus primeiros anos foram marcados pela instabilidade na educação escolar. Professores governamentais frequentemente estavam ausentes, e os resultados de aprendizagem permaneciam extremamente baixos.
Por decisão dos pais, aos seis anos, Kabitu deixou sua aldeia. Sua infância passou em constantes mudanças — ele morou com parentes, em dormitórios, em diferentes distritos e estados, buscando acesso à educação que sua aldeia natal não podia fornecer. A situação era complicada pela instabilidade política em Manipur, com greves frequentes e paralisações levando ao fechamento prolongado das escolas.
Após concluir o ensino médio superior, dificuldades financeiras o forçaram a pausar os estudos. Ele começou a trabalhar, procurar oportunidades e acabou ingressando em uma universidade em Guwahati através de um programa subsidiado. Foi lá, graças à experiência e às conversas, que surgiu a pergunta: se a mudança é possível, onde ela deve começar? Para Kabitu, a resposta era clara — na área da educação.
O Encontro de Dois Caminhos
Ao mesmo tempo, Ananya Mukherji fazia perguntas semelhantes, mas a partir de um ponto de partida completamente diferente. Tendo crescido em Jamshedpur e estudado em Delhi, ela passou dois anos como estagiária do Teach For India, trabalhando em salas de aula urbanas. No entanto, mesmo nas cidades, ela observava uma profunda desigualdade na educação.
Ananya observava: «Se é tão difícil em lugares como Delhi ou Hyderabad, como deve ser em regiões onde quase não há recursos?» Durante seu estágio, ela conheceu Kabitu em 2021 e decidiram manter contato. Quando Kabitu a contatou de sua aldeia, convidando-a para lecionar, Ananya decidiu aceitar o convite.
Em abril de 2023, ela chegou à aldeia e encontrou crianças que estudavam em salas de aula sem entender o idioma de instrução. Os livros didáticos continham referências a realidades distantes e desconhecidas. O sistema exigia memorização, mas não oferecia nada relacionado à vida das crianças. Pouco depois, um conflito irrompeu em Manipur, as linhas de comunicação foram interrompidas e a internet caiu. Ananya lembra que «as salas de aula continuaram funcionando como antes»; as crianças continuaram decorando ensaios sobre festivais, enquanto mudanças ocorriam ao seu redor. Esse contraste entre a vida real e o que era ensinado mostrou que a educação ali não estava apenas quebrada, estava desconectada da realidade.
Revisão do Processo de Aprendizagem
Os primeiros passos para criar o Khaangchu foram modestos. Kabitu começou a trabalhar com adolescentes na aldeia, muitos dos quais tinham dificuldades com leitura e escrita básicas, usando um prédio abandonado de escola pública para desenvolver a alfabetização. No entanto, rapidamente ficou claro que o problema era mais profundo do que apenas habilidades; tratava-se de significado e pertencimento.
Junto com Ananya, eles começaram a apresentar algo diferente — não apenas uma escola, mas um espaço onde a educação estaria enraizada na vida das crianças atendidas. Em 2022, começaram discussões comunitárias, que eram diálogos informais para descobrir as necessidades das pessoas e o que significa educação para elas.
Em 2023, foi lançado um pequeno projeto piloto de atividades extracurriculares. Em janeiro de 2024, o Khaangchu abriu oficialmente seu espaço de aprendizado, que foi construído com fundos arrecadados online e fisicamente erguido pelos próprios moradores da aldeia. Kabitu observa: «Os moradores se reuniram por uma semana inteira para construí-lo; este é o nosso nível de participação».
Características do Aprendizado no Khaangchu
No Khaangchu, o dia letivo não começa com o sinal. As crianças começam a chegar cedo, por volta das 8h, embora as aulas comecem oficialmente às 9h. Elas vêm brincar, passar o tempo, simplesmente ser elas mesmas. Ananya acrescenta que isso demonstra o desejo das crianças de estar lá.
O dia começa com um círculo matinal dedicado a contar histórias, música e conversas, grande parte delas em Rongmei — a língua materna das crianças. Isso é feito intencionalmente, pois tradicionalmente a educação exigia que as crianças deixassem sua língua e, consequentemente, parte de sua identidade fora da sala de aula. No Khaangchu, essa barreira não existe.
Em seguida, segue-se o aprendizado estruturado, mas flexível. As aulas não são limitadas pelas paredes da sala de aula. Por exemplo, o conceito matemático de altura e distância é estudado sob as árvores através das sombras, e as aulas de ciências ocorrem em campos abertos. O aprendizado torna-se uma experiência, e não apenas memorização.
Três vezes por semana, os alunos participam de um «imersão na comunidade», estudando diretamente o ambiente circundante. Eles estudam os clãs Rongmei, práticas tradicionais, histórias orais e conhecimentos culturais, sendo que anciãos e pais também atuam como professores. Ananya explica: «Qualquer um que queira ensinar aqui é um professor».
Resultados e Impacto do Programa
Em um curto período, o Khaangchu demonstrou um impacto palpável. Até 2025, 49 crianças estavam matriculadas no programa com uma frequência superior a 95%. Cerca de 85% dos alunos atingem ou superam o nível de desempenho em inglês e matemática, e 42 crianças já alcançaram um nível de leitura compatível com a idade. O que é particularmente importante é que mais de 90% das crianças que sofreram traumas demonstram maior estabilidade emocional e alegria visível no aprendizado diário. Hoje, a escola aceitou 120 crianças de 2,5 a 12 anos de idade.
Transformação de Alunos e Professores
Para os professores locais, como Naitona Taimei, Kachiamtuiliu Gangmei e Kungtailiu Gangmei, a transformação das crianças tornou-se um fenômeno profundamente pessoal. Eles ensinam essas crianças desde os primeiros dias do Khaangchu, trabalhando com estudantes de 5 a 11 anos. Eles lembram que, no início, as crianças tinham medo e falavam pouco, mas mudanças começaram a ocorrer em poucas semanas. «Eles começaram a se abrir. Agora eles compartilham pensamentos livremente, fazem perguntas, expressam-se», dizem eles.
A língua desempenha um papel fundamental: «Quando lhes é permitido falar Rongmei, eles se sentem confortáveis. Sua confiança cresce», explica Naitona. A conexão com o ambiente também é importante: «Se ensinamos sobre árvores, não apenas mostramos imagens — saímos para fora, observamos, coletamos e discutimos para que isso se torne real para eles», diz Kungtailiu. Os próprios professores notam que essa experiência os transforma: «Nós não apenas ensinamos — nós também aprendemos com eles todos os dias».
Retorno aos Valores Comunitários
Para a comunidade Rongmei, o Khaangchu é mais do que apenas uma escola; é uma espécie de restauração. Gululung Rongmei, pastor local, diz que na infância, o aprendizado parecia distante, resumindo-se à memorização daquilo que não encontrava eco. O Khaangchu se distingue por lembrar como o aprendizado acontecia antigamente — através de histórias, observação e comunidade — mas traz novidades.
Os pais concordam. Shanti Gangmei observa que, por muito tempo, a educação significava afastar-se da identidade, enquanto agora «sente-se que nossa identidade é respeitada». Essas mudanças levaram as crianças a serem mais confiantes, fazerem perguntas e participarem ativamente da vida da comunidade. Os pais Daffidil Rongmei e Shanti Gangmei observam que a curiosidade ultrapassou os limites da sala de aula, abrangendo histórias, agricultura e tradições.
Visão de Futuro da Educação
Para o Khaangchu, o sucesso é determinado não apenas por notas, mas pela formação de uma geração que está firme em seus pés e capaz de moldar seu próprio futuro. Kabitu apresenta um futuro em que as crianças Rongmei não se sentirão desconectadas da educação, e o aprendizado refletirá suas vidas, sua terra e seu povo. É um futuro onde eles se tornarão líderes capazes de resolver problemas locais, usando tanto o conhecimento local quanto habilidades modernas.
É importante que o Khaangchu seja concebido como pertencente à comunidade, e não aos seus fundadores. O objetivo é que o modelo seja sustentado por meio da tomada de decisões conjunta e da participação da liderança local. Professores, como Kachiamtuiliu, sonham que seus alunos tenham sucesso em qualquer empreendimento escolhido, seja estudo ou agricultura, mas com compreensão e confiança.
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