A proposta de aquisição de uma participação significativa na exploração de petróleo e gás marinhos ao largo da costa sudoeste da África do Sul pela empresa energética israelense Navitas Petroleum revelou uma contradição inaceitável, observa Iqbal Jassat.
Conflito de Princípios e Prática
A África do Sul recebeu reconhecimento internacional por apresentar um caso contra Israel no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) por acusações de genocídio em Gaza. O país posiciona-se constantemente como defensor do direito internacional, da responsabilização e dos direitos humanos. No entanto, esses princípios tornam-se cada vez mais difíceis de conciliar com a possibilidade de oferecer oportunidades comerciais estratégicas a corporações israelenses que operam em setores de importância nacional.
Questões de Consistência Política
Uma parte significativa do debate ignora a questão mais ampla da consistência política. Se a África do Sul considera que o comportamento de Israel exige um escrutínio legal no tribunal mundial superior, qual mecanismo regula a interação comercial com empresas israelenses que reivindicam acesso aos recursos naturais da África do Sul? O silêncio sobre essa questão reflete uma desconfortável lacuna entre as declarações diplomáticas e a prática econômica.
Significado Estratégico dos Setores
Este problema vai além de uma única licença de energia. Áreas estratégicas, como a energia, nunca são puramente comerciais; elas têm significado geopolítico, afetam a segurança nacional e moldam laços econômicos de longo prazo. Consequentemente, as decisões relativas a esses setores devem estar sujeitas aos mesmos padrões éticos e legais que definem a política externa da África do Sul.
Exigências de Transparência
A organização The Green Connection exigiu corretamente maior transparência. Seu pedido não se refere apenas a uma empresa ou bloco de exploração; ele exige clareza sobre se a África do Sul desenvolveu uma política unificada que regule as relações comerciais com estruturas israelenses enquanto processa o Estado israelense. Tal política deveria existir se os princípios da política externa tivessem que ter sentido prático.
Aspectos Ambientais e Sociais
Esta disputa também ocorre no contexto do compromisso da África do Sul com a 'Transição Energética Justa'. A expansão da exploração de combustíveis fósseis no mar levanta questões que vão muito além da geopolítica. Comunidades costeiras, ecossistemas marinhos e sustentabilidade ambiental de longo prazo merecem atenção juntamente com as oportunidades comerciais. Essas preocupações não podem ser separadas dos aspectos políticos do acordo.
Responsabilidade para com a Sociedade
Os beneficiários da ambiguidade raramente são os cidadãos. Os interesses corporativos, os investidores internacionais e os políticos lucram quando as decisões estratégicas são tomadas sem controle público transparente. A responsabilidade democrática exige que as aprovações relativas a ativos nacionais críticos sejam acompanhadas de explicações claras dos princípios que guiam essas decisões.
Teste de Adesão à Lei
A África do Sul sempre afirmou que o direito internacional deve ser aplicado a todos os Estados de forma igual. Este princípio implica obrigações tanto dentro quanto fora do país. A confiança na política externa depende não apenas dos discursos proferidos em tribunais internacionais, mas também de se as decisões internas refletem o mesmo compromisso com a justiça e a coerência. Assim, o acordo proposto com a Navitas representa mais do que apenas uma decisão de investimento; é um teste de se o compromisso da África do Sul com o direito internacional é um princípio orientador ou apenas uma posição diplomática.
Se não forem tomadas medidas para pará-lo, a contradição óbvia indicará uma inconsistência questionável da África do Sul, agravando a preocupante questão do fornecimento de carvão.
