Um novo estudo reanalisa fósseis brasileiros e propõe uma reinterpretação significativa sobre a evolução da vida na Terra. Anteriormente, acreditava-se que os registros de atividade de pequenos animais microscópicos no fundo do mar haviam ocorrido há cerca de 540 milhões de anos.
Contexto da Evolução Terrestre
As maiores transformações planetárias ocorreram aproximadamente 580 milhões de anos atrás, num período de 35 milhões de anos, momento em que os animais começaram a surgir e os organismos globais desenvolveram formas e hábitos mais elaborados. Paralelamente, houve mudanças químicas e um aumento na oxigenação das águas oceânicas, fatos que auxiliam os cientistas a traçar a história do planeta.
Um marco importante nesse processo foi o início da ocupação do fundo marinho por organismos microscópicos parecidos com minhocas. Esses vestígios estão preservados em rochas encontradas mundialmente, incluindo locais como Namíbia, China, Espanha, Paraguai, Bolívia e Brasil. No Brasil, os principais exemplos deste período estão localizados em duas áreas: uma ligada ao Grupo Bambuí, que abrange Minas Gerais e parte da Bahia, e outra próxima a Corumbá, no Mato Grosso do Sul.
Nova Análise dos Fósseis Brasileiros
Pesquisadores liderados por Bruno Becker-Kerber, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e com a participação do pesquisador da Unesp, Lucas Warren, realizaram novas análises do material brasileiro. Eles identificaram que o que antes era considerado prova de organismos complexos, na verdade consistia em aglomerados de bactérias e macroalgas, seres muito mais simples que já habitavam essas áreas há milhões de anos.
Para chegar a essa conclusão, o grupo utilizou novas técnicas e tecnologias analíticas, muitas delas relacionadas ao acelerador de partículas Sirius. Os achados foram divulgados no artigo 'Proposed Ediacaran meiofaunal burrows from Brazil are pyritized algal/ microbial consortia' na revista científica Gondwana Research.
Implicações Científicas da Descoberta
Esta revisão pode alterar a compreensão sobre a evolução biológica. O povoamento dos mares é um divisor de águas entre os períodos geológicos Pré-Cambriano e Cambriano. Segundo Warren, entender o momento dessa colonização é crucial para definir essa transição.
Os paleontólogos enfrentam a dificuldade da falta de material genético preservado, forçando-os a depender primariamente da morfologia, ou seja, da análise da forma e estrutura dos fósseis. Tradicionalmente, esse trabalho era feito manualmente, comparando características anatômicas com auxílio de microscópios e lupas.
Revisão de Interpretações Anteriores
Ao comparar amostras de fósseis inicialmente descritos em 2017, que sugeriam a presença dos primeiros animais no fundo marinho, o grupo notou inconsistências. As rochas sedimentares de Corumbá exibiam trajetos ondulados, interpretados na época como sinais de trilhas de invertebrados, um fenômeno chamado bioturbação. Contudo, a equipe percebeu que certas características não condiziam com animais. Diferenças notáveis incluíam a preservação de estruturas celulares, grandes variações no diâmetro dos filamentos e a ausência de marcas típicas de escavação.
Essas evidências levaram à conclusão de que os fósseis não eram túneis de animais, mas sim os próprios corpos de organismos filamentosos. Baseado na espessura dos filamentos e na ausência de estruturas animais complexas, os pesquisadores determinaram que se tratava de uma comunidade de microrganismos filamentosos, composta majoritariamente por cianobactérias e algas. Warren ressaltou que a presença de cianobactérias no oceano não é nova, pois elas habitavam o oceano há 3,5 bilhões de anos.
Apoio de Tecnologia Avançada
O avanço desta pesquisa foi viabilizado pelo uso de tecnologias modernas, como microtomografia, que permite a reconstrução 3D sem destruir a amostra; lâminas petrográficas, para análise microscópica da composição; e microscopia eletrônica de varredura, que oferece imagens de alta resolução da superfície. As técnicas de microtomografia foram executadas na linha de luz Mogno do Sirius, acelerador de partículas no CNPEM, em Campinas (SP).
Este equipamento gera luz síncrotron, um feixe de radiação de altíssima precisão, permitindo a visualização interna dos fósseis e a identificação de paredes celulares, confirmando que eram corpos de microrganismos e não túneis. A análise também usou zoom tomography para aumentar a resolução em áreas específicas.
Datação e Conclusão Científica
Outro ponto chave foi a datação das rochas sedimentares. Warren informou que o material foi datado em um nível de cinza vulcânica, indicando que, quando as rochas se formavam há 550 milhões de anos, um vulcão depositou minerais datáveis. Essa datação apontou para 544 milhões de anos, um período onde microrganismos simples já colonizavam o fundo marinho, mas ainda não havia a presença de animais complexos.
Warren finalizou explicando que o trabalho ilustra o método científico: hipóteses são testadas com evidências, e novas tecnologias permitem revisar interpretações consolidadas, eliminando ambiguidades e fornecendo novos critérios para futuras investigações.


