Um padrão climático poderoso de El Niño está se desenvolvendo no Oceano Pacífico, o qual, segundo previsões, afetará o clima na África do Sul nos próximos meses. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) relata uma probabilidade superior a 90% de que este fenômeno persista até pelo menos novembro, elevando o risco de calor extremo, seca e incêndios florestais nas regiões da África do Sul onde ocorre a estação chuvosa no verão.
Impacto do El Niño no Clima
O padrão climático El Niño, localizado a milhares de quilômetros de distância, é capaz de influenciar uma ampla gama de fenômenos — desde o aumento das temperaturas e a diminuição dos estoques de água até a ameaça de incêndios florestais destrutivos. A OMM confirmou o rápido início de um forte evento de El Niño. As previsões indicam um aumento da temperatura da superfície do mar em mais de 2°C acima da média, o que contribui para o estabelecimento de recordes globais de temperatura e aumenta a probabilidade de eventos climáticos extremos, incluindo ondas de calor intensas, secas severas e chuvas abundantes em todo o mundo.
Os meteorologistas enfatizam que a compreensão deste fenômeno ajuda as comunidades a se prepararem para as mudanças futuras, mesmo que a maioria dos habitantes da África do Sul só tome conhecimento dele durante os alertas de seca. Lelo Kleinbuys, do SA Weather Service (Saws), explicou que o El Niño faz parte de um ciclo climático natural — a Oscilação Sul do El Niño (ENSO), que ocorre quando a temperatura da superfície do mar na porção equatorial do Oceano Pacífico excede a média.
Consequências Regionais para a África do Sul
Embora o El Niño se origine no Pacífico tropical, suas consequências são sentidas em vários continentes, incluindo a África do Sul. Na África do Sul, isso geralmente leva a condições mais quentes e secas nas áreas de chuvas de verão, como Free State, Noroeste, Gauteng, Mpumalanga, Limpopo, KwaZulu-Natal e as províncias orientais do Cabo Oriental. Nas áreas de inverno, incluindo partes do Cabo Ocidental e Cabo Oriental, o impacto varia significativamente.
Segundo Kleinbuys, durante este período da fase climática, os sistemas de chuva não conseguem dominar o tempo do país. Isso é frequentemente acompanhado por menor nebulosidade e temperaturas diurnas mais altas por longos períodos, o que intensifica a frequência de ondas de calor, a probabilidade de ultrapassar 40°C e o risco de incêndios incontroláveis. Além disso, o calor e a secura prolongados afetam negativamente a segurança hídrica e a agricultura, pois o aumento da evaporação eleva a probabilidade de seca.
Agricultura e Otimismo
Apesar das preocupações sobre o impacto do fenômeno climático na agricultura e nos preços dos alimentos em 2027, Vandile Sichlobo, economista chefe da Associação de Negócios Agrícolas da África do Sul (Agbiz), acredita que uma série de fatores pode mitigar o impacto deste sério fenômeno no setor agrícola. Ele discorda do debate público focado na possível redução da produtividade devido à seca e no aumento da inflação alimentar, afirmando que a África do Sul inicia uma nova temporada de culturas de verão em uma posição mais forte do que durante as secas anteriores.
Na opinião de Sichlobo, os anos de chuvas favoráveis do La Niña deixaram aos agricultores uma vantagem significativa antes da temporada de plantio de 2026/27. As temporadas de chuva prolongadas melhoraram a umidade do solo e o nível das águas subterrâneas em muitas partes do país, criando condições para o cultivo de culturas mesmo com níveis médios de precipitação durante o El Niño. Ele observou que, ao iniciar as atividades de plantio em outubro de 2026, os agricultores começarão a temporada com maior umidade do solo do que o habitual.
Sichlobo também apontou o volume recorde de produção de grãos na África do Sul como outra razão para otimismo cauteloso. As últimas estimativas do Comitê de Avaliação de Colheitas mostram uma colheita recorde de grãos e oleaginosas em 2025/26 no valor de 21,49 milhões de toneladas, impulsionada pela expansão das áreas de plantio e altos rendimentos. A produção de milho, por si só, é esperada em 17,25 milhões de toneladas, superando significativamente o consumo interno anual de cerca de 12 milhões de toneladas.
O economista reconheceu que as condições de seca associadas ao El Niño criarão problemas e aumentarão os custos de produção para os agricultores, mas a situação atual difere substancialmente dos ciclos de seca anteriores devido à melhor condição inicial do país. Ele acrescentou que as previsões de aumento da inflação dos preços dos alimentos podem negligenciar aspectos fundamentais da estação, como a melhoria da umidade do solo e a existência de reservas de grãos.
Alertas da OMM e Chamado à Ação
A OMM alertou que as condições de El Niño estão se desenvolvendo sob a influência de águas incomumente quentes no Pacífico tropical. A agência da ONU para o clima declarou que este padrão climático afetará as temperaturas e precipitações globais nos próximos meses, aumentando o risco de eventos climáticos extremos. Foi notada uma probabilidade superior a 90% de manutenção das condições de El Niño até novembro.
A OMM informou que o El Niño geralmente eleva as temperaturas globais e contribui para condições climáticas mais extremas e mudanças nos regimes de precipitação. As previsões também sugerem temperaturas acima da média na maioria das regiões do mundo entre junho e agosto. A agência da ONU pediu que governos e setores sensíveis ao clima, como agricultura, saúde, gestão de recursos hídricos e energia, tomem decisões oportunas e se preparem, utilizando as últimas recomendações científicas.
O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, apelou veementemente para que os países ajam antes que as consequências do El Niño se manifestem completamente, declarando: 'A ciência é clara: o El Niño está chegando às nossas portas nos próximos meses com 90% de certeza.'

