Na África do Sul, observam-se protestos contra imigrantes, desencadeados pelo descontentamento com os níveis de desemprego, criminalidade e um longo período de baixo crescimento econômico. No entanto, economistas alertam que a saída de milhares de trabalhadores estrangeiros pode prejudicar as próprias empresas e mercados de trabalho defendidos pelos apoiadores das atitudes anti-imigração.
Impacto na economia e no mercado de trabalho
As atitudes anti-imigração se intensificaram nos últimos meses, culminando em uma marcha nacional em 30 de junho. Embora os protestos tenham sido predominantemente pacíficos, os temores de violência levaram milhares de migrantes africanos a deixar a África do Sul. Sua partida pode resultar em escassez de mão de obra em setores que dependiam há muito de trabalhadores estrangeiros, incluindo agricultura, construção, serviços de entrega e pequenas lojas, além de minar a vasta economia informal do país.
Mpho Lenoke, professor da Universidade Noroeste, observou que os migrantes geralmente encontram emprego em áreas onde é difícil preencher vagas, como varejo, hotelaria, transporte, construção e agricultura. De acordo com dados da ONU, cerca de 2,6 milhões de migrantes consideravam a África do Sul seu lar em 2024, representando aproximadamente 5% da população. Embora os dados recentes sobre sua contribuição econômica sejam limitados, estimativas do OCDE-OIT de 2018, baseadas em modelagem de 2010, indicavam uma contribuição dos migrantes para o PIB de 9%.
Lenoke também enfatizou que muitos cidadãos estrangeiros abrem empresas que contratam cidadãos sul-africanos e criam concorrência, o que beneficia os consumidores. Ele acrescentou que a experiência internacional mostra que restrições à força de trabalho migrante frequentemente têm consequências econômicas imprevistas.
Consequências dos protestos e riscos financeiros
Os protestos já causaram interrupções em algumas partes do setor de varejo. As lojas informais 'spaza', que operam a partir de barracas temporárias, garagens ou contêineres, são uma parte importante da economia informal sul-africana, sustentando fornecedores atacadistas, locadores e funcionários locais. Por exemplo, a plataforma de entrega de alimentos Sixty60, pertencente ao maior varejista da África, Shoprite Group, enfrentou interrupções durante os protestos recentes, e dados da empresa mostraram que menos de um quarto de seus motoristas eram cidadãos sul-africanos.
A situação é agravada pelo baixo crescimento. O Banco Mundial reduziu sua previsão de crescimento da África do Sul para 2026 de 1,4% para 1,0% em junho, e o Statistics South Africa relatou que, no primeiro trimestre, a taxa de desemprego atingiu quase um terço, deixando 8,1 milhões de pessoas sem trabalho. Essas condições contribuíram para o aumento do descontentamento em relação aos imigrantes.
No entanto, um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) baseado em dados da pesquisa de força de trabalho mostrou que, à medida que a participação dos imigrantes na força de trabalho aumenta, as oportunidades de emprego para os cidadãos sul-africanos também aumentam. Susanna Dittlefsen, da ACLED, observou que os protestos podem perturbar a atividade econômica através de saques e fechamento de empresas, pois a escalada das tensões leva à interrupção das cadeias de suprimentos, perda de empregos e restrição ao acesso a bens e serviços.
Reação dos investidores e importância regional
Os investidores têm reagido calmamente até agora, mas consideram que os protestos adicionam um novo fator de risco. Kaan Nazli, gestor de portfólio de dívida de mercados emergentes na Neuberger Berman, afirmou que, embora seja um problema social significativo na África do Sul, os investidores ainda não viram um impacto real desse fenômeno. Agora, com esses protestos, isso está se tornando um risco.
A importância do problema vai além da África do Sul, pois o país é uma principal fonte de remessas na região e o maior centro de recepção de população economicamente ativa, de acordo com a OIT. Um relatório conjunto do FinMark Trust e do Banco de Reserva da África do Sul mostrou que o fluxo de remessas mais do que triplicou entre 2016 e 2024, atingindo mais de 19 bilhões de rand em 2024. Além disso, quase 90% das remessas para a África do Sul foram destinadas a Lesoto, Malawi, Moçambique e Zimbábue, com o Zimbábue recebendo mais de 60% do total.


