Cedo pela manhã, por volta das 05h00, quando as motocicletas começam a circular pelas principais avenidas de Beira, as mulheres ocupam lugares nas paragens em bairros como Matacuane, Macurungo e Nangau. Elas combinam o transporte de passageiros e mercadorias com a responsabilidade de sustentar suas famílias.
Histórias de Sucesso de Motoristas Mulheres
Um exemplo é Augusta Mungela, de 48 anos, que se tornou uma figura notável no corredor de Matacuane. Viúva e mãe de cinco filhos, ela dirige um mototáxi há sete anos. Esta atividade começou depois que perdeu seu negócio no mercado Goto.
Um ponto de viragem foi a passagem do ciclone Idai em 2019, que destruiu doze de seus quiosques comerciais. Mais cedo, em 2008, ela perdeu o marido. Augusta recorda: «Tudo se ligou para mim. Perdi meu marido, depois perdi meu negócio. Fiquei sem nada».
Na ausência de outras fontes de renda, ela decidiu trabalhar com motocicleta. Inicialmente, ela aceitava apenas mulheres como passageiras, pensando que seria mais seguro e evitaria conflitos. No entanto, percebeu que estava perdendo dinheiro e teve que superar seus próprios preconceitos quando dois homens precisaram de carona.
O Impacto da Pandemia e a Educação
Segundo Augusta, a pandemia de COVID-19 reforçou sua decisão, pois a renda dos pequenos negócios diminuiu e seus filhos ingressaram no ensino superior. Ela relatou: «Eu não tinha dinheiro para estudar. Eu levei o trabalho de mototaxi muito a sério, porque era necessário. Eu valorizei essa atividade no momento em que eu mais precisava de fundos».
Atualmente, ela usa a renda da motocicleta para financiar os estudos de seus filhos na Universidade Likungo e na Universidade Zambeze, incluindo uma filha que estuda medicina. Ela afirma: «O que parecia impossível para uma mãe sem educação me deu uma motocicleta».
Apesar dos sucessos, Augusta reconhece que o trabalho envolve dificuldades e riscos. Ela compartilha: «Primeiro, é determinação e esforço. Além disso, a fé é tudo. Quando saio de casa, ninguém sabe o que vai acontecer».
Discriminação e Apoio
Além das dificuldades diárias de dirigir, ela enfrenta comentários discriminatórios, como «Mulher não sabe dirigir». No entanto, ela observa que quando chega primeiro, ninguém diz nada.
Ela apela a outras mulheres que desejam iniciar esta atividade: «Que elas sejam muito fortes e me usem como exemplo. Hoje me sinto uma mulher poderosa. Nós não somos mulheres fracas. Nós caímos, mas nos levantamos, sem reclamar e sem ir de porta em porta. Tenham moral, coragem e não tenham vergonha, porque a vergonha não nos levará a lugar nenhum. Façam o seu trabalho».
Outros Exemplos e Autonomia Econômica
Em Beira, há também Balbina Silvio, de 47 anos, que combina ensino com um pequeno negócio apoiado pelo uso de motocicleta há mais de dez anos. Ela explica: «Não se pode viver apenas de salário. O custo de vida é alto, e eu tenho cinco filhos para criar, além de outros membros da família. Pensei em fazer outras coisas para ajudar em casa».
A motocicleta, adquirida pela família, tornou-se uma ferramenta de trabalho para transportar mercadorias e abastecer seu próprio negócio. Balbina declara: «A vida é cara. Não tínhamos transporte em casa, só tínhamos a motocicleta. Comecei a fazer este trabalho e continuo fazendo com prazer até hoje».
Esta atividade permitiu-lhe expandir gradualmente seu negócio, passando da venda de bebidas para outras iniciativas comerciais. Ela compartilha: «Estou prosperando gradualmente. Acho que não comecei assim, mas já atingi um alto nível».
A professora também defende a independência econômica das mulheres: «Eu gostaria que todas as mulheres pensassem assim. Em vez de estarmos procurando prejuízos ou procurando outros homens, devemos abraçar o negócio para sobreviver».
Apesar dos progressos alcançados, ela espera expandir seu negócio e pede ajuda daqueles que estão dispostos a apoiar seu empreendimento de forma honesta, para que possa adquirir mais mercadorias e avançar mais.
Comentários de Autoridades e Associações
Para Jacinto dos Remedios, presidente da Assembleia Municipal de Beira, o aumento do número de mulheres no setor de transporte motorizado reflete a crescente procura por oportunidades econômicas. Ela afirma: «É uma honra para mim ver as mulheres lutarem para superar os problemas socioeconômicos do país. Ocupar este espaço é um passo concreto para a realização da paridade».
A autora considera que esta atividade é simultaneamente uma forma de empreendedorismo e uma resposta à falta de empregos. «As mulheres fazem isso porque em Moçambique não há empregos. Há mulheres com nível acadêmico aceitável, mas como não há trabalho, esta atividade funciona como empreendedorismo», afirma ela.
No entanto, Jacinto dos Remedios alertou para a necessidade de fortalecer a formação e a segurança nas estradas para os trabalhadores do setor. «É importante que estas mulheres sejam qualificadas, licenciadas. Elas devem conhecer as regras de trânsito, porque sem isso é um risco», insiste ela.
Ela também apela a mais atividades de formação: «É necessário que o Conselho Municipal ou as instituições legais treinem mulheres, bem como homens, para evitar muitos acidentes e danos que podem ocorrer».
O presidente da Associação de Mototaxistas de Beira, Jacob Pereira, vê a chegada de mais mulheres a este setor como um sinal positivo para o setor. «É um sinal de crescimento. É um incentivo para outras moças, outras proprietárias, para que possam fazer a mesma coisa e se sustentar sozinhas. Isso ajuda a estimular a atividade econômica».
Segundo o líder, a associação colabora com o Instituto Nacional de Transportes Terrestres (INATRO) e escolas de condução para realizar atividades de formação e reciclagem. «O objetivo é garantir que todos conheçam as regras de trânsito e a técnica de condução defensiva. Um acidente não tem relação com cargos. Até eu, sendo presidente, não recusei a formação. Aprendi coisas que não me vinham à mente».
Jacob Pereira acrescenta que apenas os especialistas que concluírem a formação receberão um certificado de aptidão. «Quem não tiver certificado será punido por exercer esta atividade sem a qualificação adequada», adverte ele.
Mototaxistas inquiridos pela Lusa, alguns dos quais temem falar abertamente, relatam turnos de trabalho que podem exceder 12 horas por dia, exposição a acidentes de trânsito, assaltos e casos de assédio por parte de alguns passageiros, especialmente à noite.
No setor, que durante décadas esteve associado a homens, a presença crescente de mulheres nas paragens de mototáxi em Beira demonstra mudanças graduais no mercado de trabalho, marcado pela informalidade, onde muitos encontram uma fonte de renda para manter suas famílias e garantir a continuidade da educação de seus filhos.


