Apesar da opinião comum entre os habitantes da África do Sul sobre a degradação do sistema de saúde pública, dados recentes indicam um quadro mais complexo: há uma melhoria na capacidade médica, embora os problemas permaneçam sem solução.
Contraste entre percepção e estatísticas
Muitos cidadãos enfrentam longas filas, instalações superlotadas, pessoal sobrecarregado e distribuição desigual de serviços, o que os convence de um declínio constante no estado do sistema. No entanto, os dados empíricos pintam um quadro diferente e mais multifacetado.
Melhorias nos indicadores médicos
De acordo com o relatório 'Health in South Africa' do Inclusive Society Institute, os principais indicadores de capacidade médica realmente aumentaram. O número de pessoas atendidas por profissionais de saúde do setor público diminuiu de 4.143 em 2002 para 2.795 em 2023. De forma semelhante, o indicador de pessoas por enfermeira melhorou de 496 para 446 no mesmo período. A capacidade farmacêutica também cresceu significativamente: o número de pacientes por farmacêutico do setor público diminuiu de 40.263 em 2000 para 10.436 em 2023. Além disso, os serviços de emergência se expandiram, aumentando de 713 prestadores de serviços de emergência em 2019 para 834 em 2024.
Razões para a sensação de sobrecarga
À primeira vista, essas melhorias são difíceis de conciliar com a experiência de muitos pacientes. Se a proporção de profissionais de saúde por habitante aumentou, por que o sistema continua parecendo sobrecarregado? Parte da resposta reside no aumento significativo da população sul-africana. Desde 1994, a população do país aumentou mais de 50%, e hoje cada clínica, hospital, serviço de emergência e profissional de saúde atende a uma população muito maior do que no início do período democrático.
Limitações e expectativas dos cidadãos
É importante entender que apenas o cumprimento da capacidade ao crescimento populacional não é suficiente. Embora a disponibilidade de pessoal médico tenha melhorado, o país ainda enfrenta sérias limitações. Entre elas, há uma enorme pressão sobre os médicos do setor público, escassez e distribuição desigual de enfermeiros, bem como problemas de acesso a serviços em várias comunidades. Em comparação com muitos países de renda média-alta, a África do Sul ainda está longe de resolver os problemas da força de trabalho na saúde.
Isso explica a divergência entre as estatísticas oficiais e a opinião pública. Os pacientes avaliam o sistema não pelos indicadores nacionais médios, mas pela qualidade do atendimento em uma clínica ou hospital específico. O sistema pode ter mais médicos do que vinte anos atrás, mas ainda forçar os pacientes a esperar horas, e a melhoria na disponibilidade de enfermeiros pode vir acompanhada de problemas de gestão e escassez de pessoal em certas áreas.
Novo foco para a agenda política
As conclusões do relatório apontam exatamente para essa realidade: as limitações de capacidade foram amenizadas em vários aspectos, mas não desapareceram completamente. Houve progresso, mas a lacuna entre a situação atual e as expectativas razoáveis dos cidadãos permanece significativa. Essa diferença é crucial, pois muda a direção dos debates políticos. Se o sistema estivesse colapsando, a prioridade seria apenas parar o declínio. Mas como o sistema se expandiu, permanecendo sob pressão, a tarefa se torna mais complexa: os políticos devem continuar a aumentar a capacidade, ao mesmo tempo que aprimoram a gestão, a eficiência, a distribuição e a qualidade do atendimento ao paciente.
Os habitantes da África do Sul têm todo o direito de exigir melhores cuidados de saúde e devem continuar a fazê-lo. No entanto, essas exigências devem ser baseadas em uma avaliação honesta da situação atual no país. Os dados não confirmam o discurso de um sistema 'desgastado'; eles apontam para um sistema que expandiu elementos importantes de sua capacidade em condições difíceis, mas que ainda está significativamente aquém das expectativas dos cidadãos para um país desse nível de desenvolvimento. O problema não é que a África do Sul não conseguiu construir um grande sistema de saúde, mas sim que precisa construir um melhor.

