O projeto que se dedica à conservação da natureza é implementado pelo Fundo Cuerama. Este fundo leva o nome da aldeia Kuanza Sul, onde está localizado, a cerca de 350 quilômetros de Luanda. O fundo concentra-se no desenvolvimento da comunidade local através de educação, formação profissional, empreendedorismo social e saúde.
Consciência sobre a ameaça aos pangolins
Segundo Sara Carvalho, diretora de impacto da instituição, a atenção do fundo ao pangolim surgiu durante aulas de educação ambiental com as crianças da aldeia. A população local consome a carne deste animal, mas ele é tristemente conhecido como a espécie mais ativamente comercializada do mundo.
A escama e as garras do animal são vendidas em mercados asiáticos para fins médicos ou usadas em rituais e práticas de bruxaria. Confrontados com essas ameaças, o fundo iniciou o projeto 'Guardiões da Floresta' para aumentar a conscientização dos caçadores da aldeia e incentivá-los a abandonar a caça a este animal.
Mecanismos de engajamento na proteção
Sara Carvalho disse à Lusa que os ex-caçadores transformaram-se em defensores da espécie para a preservação da população, educação da comunidade e prevenção da caça ilegal. Quando lhe perguntaram como convencer um caçador que obtém benefícios financeiros com a venda do animal a tornar-se um defensor, ela explicou que o fundo realiza reuniões com autoridades tradicionais conhecidas como 'sobas', que apoiaram a conservação dos pangolins e agora atuam como embaixadores dessa ideia na aldeia.
Além disso, eles discutem com os caçadores a importância da conservação da biodiversidade, enfatizando que o pangolim é um 'recurso natural' que 'merece proteção, cuidado e vida'. Atualmente, 13 guardiões participam do projeto, incluindo mulheres que não são ex-caçadoras, que se juntaram por vontade própria, inspiradas pelo trabalho dos guardiões.
Resultados e planos futuros do projeto
Desde 2024, mais de 50 pangolins foram resgatados, encontrados em armadilhas e em arbustos. Os guardiões também realizam trabalhos de sensibilização em outras áreas ao redor de Cuerama. O trabalho de identificação de rotas de contrabando ainda está em estágio inicial, mas o fundo mapeia as zonas de detecção de pangolins e locais de comércio, colaborando com as administrações locais para tomar medidas preventivas.
Em Angola, coexistem duas espécies de pangolins — o pangolim terrestre Temminck e o pangolim de barriga branca. Ambos são classificados como vulneráveis na Lista Vermelha de Espécies de Angola, e Cuerama é reconhecida como um local importante para a sua proteção.
Cooperação internacional e proteção
No âmbito deste projeto, o Fundo Cuerama colabora com o Instituto Nacional de Biodiversidade e Áreas de Conservação (INBAC) e o Fundo Internacional para Pesquisa e Conservação de Pangolins (PCRF). O PCRF fornece 'ferramentas técnicas e pedagógicas' para aumentar a conscientização da comunidade, adaptadas às realidades dos caçadores e da aldeia.
No mês passado, o INBAC e o Fundo Cuerama assinaram um memorando de entendimento para implementar o projeto 'Guardiões dos Pangolins', fortalecendo assim a base de cooperação para a proteção e conservação da espécie em Angola.
Para além do treinamento de guardiões comunitários, o projeto prevê a recuperação de áreas degradadas, a sensibilização da juventude sobre a biodiversidade, o monitoramento do habitat dos pangolins e o aumento da conscientização da comunidade sobre o combate ao comércio ilegal de animais selvagens.
Os pangolins são mamíferos noturnos silenciosos, alimentando-se de formigas e cupins; podem consumir mais de 70 milhões de insetos por ano, ajudando a controlar pragas e a melhorar a fertilidade do solo, o que é crucial para a agricultura e ecossistemas de Angola. A palavra 'pangolim' deriva do malaio 'pengguling', que significa 'aquele que se enrola', em homenagem à forma esférica que o animal assume quando sente uma ameaça.
De acordo com o relatório da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES), publicado em agosto de 2025, oito espécies conhecidas de pangolins permanecem sob alto risco de extinção devido à exploração excessiva e perda de habitat. Entre 2016 e 2024, mais de meio milhão de animais relacionados com o comércio foram confiscados em 75 países e por 178 rotas comerciais, sendo que as escamas constituíram 99% das partes apreendidas, segundo o mesmo documento, que observa que os registos apenas registam uma pequena parte do comércio total.
Em Angola, as autoridades locais também relatam confiscos de escamas de pangolim nos últimos anos. Destaca-se uma operação em 2018, na qual foi confiscada uma tonelada deste material, e em 2019, um grupo ligado à caça furtiva e ao comércio de marfim e escamas foi detido.
O Fundo Cuerama é um projeto de responsabilidade social e desenvolvimento local, focado no meio rural. Surgiu após a reativação de uma quinta com o mesmo nome, construída em 1968, em 2012.
