As crianças estão se tornando vítimas de longos processos nos tribunais de família sul-africanos, que enfrentam sérios atrasos. Os principais afetados nas disputas de guarda não são os pais, mas sim as crianças, forçadas a esperar por uma decisão sobre seu futuro enquanto adultos e o sistema judicial tomam suas decisões.
Apelos para investigar o sistema de justiça
Um recente apelo do movimento African Transformation Movement (ATM) ao Parlamento para investigar o acesso dos pais aos filhos reacendeu o debate sobre o sistema de justiça familiar na África do Sul. No entanto, além dos aspectos políticos, milhares de pais estão envolvidos em disputas prolongadas sobre pensão alimentícia, guarda e direito de visita.
Tasha Reddy, uma mãe de Durban, enfatiza que o problema não é o acesso dos pais, mas a incapacidade do sistema de justiça de responsabilizar os pais. Ela observa que as mulheres frequentemente carregam o fardo principal, pois os pais não cumprem sua parte das obrigações. Reddy está disposta a conceder acesso aos pais, mas está desapontada com o fato de que os procedimentos judiciais e os atrasos tornam quase impossível uma criação conjunta plena.
Avaliações especializadas dos problemas
Danny van Loggerenberg, fundador da Linha Direta de Proteção Infantil, apoia o apelo do ATM ao Parlamento. Ele acredita que as crianças frequentemente se tornam o centro dos conflitos entre os pais e alerta que prolongar o conflito pode prejudicar irreversivelmente o relacionamento da criança com os pais, já que as vozes das crianças são frequentemente usadas por uma das partes para vencer o caso.
Uma pesquisa realizada pela advogada e pesquisadora Karen Botha em 2024 mostrou que disputas de custódia e pensão nos tribunais de família sul-africanos frequentemente duram meses, e muitas vezes anos. O relatório estabeleceu que mais de 46,6% dos casos de pensão alimentícia são adiados por mais de um ano, deixando as crianças em estado de incerteza em períodos críticos de desenvolvimento.
Proteção legal e suas limitações
A pesquisadora da Universidade do Cabo, Dra. Sharna-Lee Clark, observou que a base legal da África do Sul protege fortemente os melhores interesses das crianças, mas não garante diretamente às crianças o direito de serem ouvidas nas decisões que afetam suas vidas. Segundo ela, quando os tribunais tomam decisões sobre crianças sem ouvi-las, os resultados podem parecer impostos, e não justos.
A advogada de direito de família Sanelise 'Sanei' Mbatata relata um aumento notável nas disputas de custódia contestadas na última década, especialmente entre pais solteiros, famílias mistas e casais passando por divórcios altamente conflituosos. Ela atribui a maior parte dos conflitos a questões não resolvidas de cuidado, contato e pensão, bem como ao fato de que as redes sociais expõem as crianças ao conflito parental em vez de promover soluções construtivas.
Pressão sobre instituições de proteção infantil
Apesar da sólida base legal da África do Sul, Mbatata aponta que as instituições responsáveis pela proteção infantil estão sob forte pressão. Ela enfatiza que o Gabinete do Advogado de Família desempenha um papel vital, mas enfrenta limitações significativas em suas capacidades, o que leva a longas esperas por investigações e relatórios. Esses atrasos significam que as crianças continuam vivendo em um ambiente de conflito muito antes que o caso chegue a uma decisão final, o que frequentemente altera os relacionamentos entre pais e filhos antes mesmo da sentença judicial.
Impacto emocional do conflito
As consequências desse conflito vão muito além da sala de tribunal. Mari Payne, vice-diretora geral e diretora sênior de educação e programas no Sesame Workshop International South Africa, afirma que as crianças absorvem muito mais do conflito parental do que muitos adultos percebem. Quando o conflito se torna constante ou intenso, pode perturbar o senso de segurança e estabilidade emocional da criança, levando à ansiedade, tristeza, confusão, retraimento ou dificuldades de concentração.
Ela pediu enfaticamente aos pais que protejam as crianças de discussões adultas, ressaltando que nunca se deve esperar que elas transmitam mensagens, guardem segredos ou escolham um lado dos pais.
Riscos de usar disputas como arma
A veterana em direito de família, Susan Abro, concorda que as crianças são frequentemente vítimas invisíveis de litígios. Ela explica que a proteção infantil inclui não apenas a proteção contra violência física ou sexual, mas também contra danos emocionais, psicológicos e financeiros que surgem em disputas familiares prolongadas e hostis ou quando são usadas como ferramenta de controle ou punição de outro pai. Em um evento da Semana de Proteção Infantil, Abro alertou os pais contra o uso de disputas de pensão ou acordos de contato como arma, observando que tentativas de alienação parental podem ter consequências de longo prazo.
Apoio de organizações da sociedade civil
O apelo do ATM também recebeu apoio da Sonke Gender Justice, que apoiou a audiência parlamentar sobre o sistema de justiça familiar, insistindo que os melhores interesses das crianças devem permanecer primordiais. Bafana Humalo, cofundador e diretor executivo da Sonke Gender Justice, declarou que as crianças devem manter relacionamentos significativos com todos os seus pais, a menos que haja risco real de dano. Ele confirmou o apoio ao apelo por audiências parlamentares, afirmando que, em todas as circunstâncias, os interesses da criança devem ser sagrados. Humalo também observou que as pesquisas da Sonke sobre paternidade destacam constantemente as dificuldades enfrentadas por muitos pais ao manterem relacionamentos com os filhos após o divórcio, mas acrescentou que a criação dos filhos deve permanecer uma responsabilidade compartilhada.
