As escolas devem servir como locais de aprendizado, desenvolvimento e segurança para as crianças. No entanto, um novo e alarmante relatório mostrou que a violência sexual está profundamente enraizada nas escolas sul-africanas, expondo falhas sistêmicas na proteção dos alunos, apesar da existência de leis, políticas de segurança e repetidos avisos.
A escala da crise na educação
A Comissão de Direitos Humanos da África do Sul (SAHRC) determinou que a violência sexual em instituições de ensino é generalizada e profundamente enraizada. Presume-se que a violência seja perpetrada por professores, outros alunos, pessoal escolar, prestadores de serviços e estranhos. Embora o relatório tenha sido iniciado por acusações de violência sexual envolvendo professores no College St. John em Mtata, East Cape, a comissão indicou que as evidências apontam para uma crise nacional muito mais ampla, afetando escolas em todo o país.
Estatísticas e lacunas no sistema
O relatório, intitulado 'Violência Sexual em Escolas: Crise de Fragmentação, Atraso na Integração, Preenchimento Incompleto de Registros e Aplicação Desigual', aponta que, no ano fiscal de 2024/25, foram registrados 26.855 casos de maus-tratos infantis, incluindo 9.857 casos de violência sexual. No mesmo período, a Polícia da África do Sul (SAPS) registrou 2.826 acusações relacionadas a crimes sexuais contra crianças.
O Conselho de Professores da África do Sul recebeu 826 denúncias de má conduta sexual entre 2021 e 2025. No entanto, a Comissão descobriu que apenas uma pequena fração dos casos relatados resultou em condenação, suspensão de professores ou inclusão em registros de proteção. Além disso, o relatório identificou um atraso de 10.748 infratores condenados que ainda não foram incluídos no Registro Nacional de Pessoas que Cometeram Crimes Sexuais, destacando discrepâncias significativas entre sentenças criminais e medidas de proteção.
Deficiências sistêmicas e resposta
A Comissão afirmou que as acusações na escola do East Cape, juntamente com relatórios subsequentes na mídia e denúncias adicionais, demonstraram que não se trata de um caso isolado, mas sim de um reflexo de falhas sistêmicas na proteção das crianças no ambiente educacional. A SAHRC observou em seu relatório: 'Os dados estatísticos apresentados pela Polícia da África do Sul (SAPS), departamentos governamentais e órgãos reguladores mostram que a violência sexual contra crianças não é episódica ou anedótica, mas sim sistêmica e enraizada.'
Reconhecendo que as falhas vão além de escolas individuais, a comissão reuniu departamentos governamentais, órgãos reguladores, associações escolares independentes e organizações comunitárias para identificar lacunas na legislação, mecanismos de relatórios e implementação, bem como para estudar uma resposta nacional coordenada.
Opiniões de especialistas e organizações
Mara Glennie, fundadora da TEARS Foundation, declarou que o relatório confirma preocupações antigas de que as escolas se tornaram um reflexo de uma crise mais ampla de violência de gênero no país, e não um espaço isolado dela. Ela enfatizou que o relatório da SAHRC corrobora o que as organizações que trabalham no terreno sabiam: 'As escolas não estão separadas da crise de violência de gênero na África do Sul. Elas são um reflexo dela.'
Glennie acrescentou que os casos de violência contra crianças em escolas indicam que os sistemas de proteção do país falharam muito antes de os casos chegarem à polícia ou aos tribunais. Ela acredita que as escolas devem ser a primeira linha de defesa, e não um ambiente onde a violência permanece despercebida ou não relatada. 'Cada professor deve saber como responder ao relato e ativar os sistemas de apoio apropriados. As escolas devem ser lugares de proteção, e não lugares onde a violência é ignorada.'
Shahida Omar, da Teddy Bear Foundation, concordou que o relatório reflete as observações de especialistas em proteção infantil ao longo de décadas. Ela argumentou que o relatório expôs fraquezas sistêmicas na proteção infantil nas escolas, insistindo que a verificação de professores nunca deve ser vista como um evento administrativo único, mas sim como um dever contínuo de segurança. Omar também expressou preocupação com as culturas institucionais que impedem as crianças de falar sobre o ocorrido, pois muitas temem não serem acreditadas ou que o relato de violência resulte em retaliação.
A Associação Profissional Nacional de Professores da África do Sul (NAPTOSA) expressou profunda preocupação com as conclusões, embora elas correspondessem às preocupações que os educadores haviam levantado por anos. Uma representante, Lovica Matthews, disse que, embora a grande maioria das escolas permaneça ambientes de aprendizado seguros, até uma única criança vítima de violência é inadmissível. Ela concordou que o relatório definiu corretamente a violência sexual nas escolas como um problema sistêmico, e não um conjunto de incidentes isolados, observando que uma vítima é demais.
Matthews também apontou um dos principais problemas: a falta de confiança nos mecanismos de relatórios e no sistema judicial. Adeshini Naiker, diretora da Childline KwaZulu-Natal, informou que muitas crianças continuam sofrendo em silêncio. Ela pediu que os adultos prestassem atenção a cada relato e agissem rapidamente para proteger as crianças, enfatizando que a proteção infantil é uma responsabilidade coletiva.
Resposta das estruturas governamentais
O Ministério da Educação Básica saudou o relatório da SAHRC, classificando suas recomendações como uma oportunidade para fortalecer a cooperação entre o governo e melhorar os sistemas destinados à proteção dos alunos. Um representante do Ministério, Terence Hala, afirmou que garantir a segurança das crianças exige uma resposta coordenada, envolvendo órgãos educacionais, forças policiais, sistema judiciário, desenvolvimento social, famílias e comunidades. Ele reafirmou o compromisso do Ministério em fortalecer os mecanismos de prevenção, relatórios e apoio, bem como responsabilizar os culpados, mencionando medidas existentes, como o Protocolo de Prevenção e Gestão da Violência Sexual e Assédio em Escolas Públicas, e a parceria com a SAPS.

