O Nível Zero, localizado abaixo da Cidade Branca, apresentava um cenário drasticamente diferente do ambiente civilizado. Enquanto o elevador industrial descia, o concreto polido e as superfícies autolimpantes deram lugar a uma estética brutalista, marcada por vigas de aço expostas, umidade intensa e o ruído constante dos geradores de subestação. O ar nesse nível não era filtrado adequadamente, carregando o odor de ozônio, poeira industrial e resíduos alcalinos provenientes de baterias de lítio descartadas.
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Encontro com Valeria Vance
O Agente percorreu passarelas metálicas suspensas sobre tanques de decantação até localizar o setor designado. O Setor de Descarte configurava-se como um complexo de tubulações, onde Valeria Vance aguardava, iluminada por uma lâmpada antiga de sódio. Ela não aparentava estar presa, mas sim como uma soberana em seu domínio de sucata, vestindo um macacão cinza da Fabricante manchado de graxa, enquanto examinava placas de circuito danificadas.
Ao se aproximar, Valeria não demonstrou surpresa com a chegada do Agente, comentando sarcasticamente sobre a pontualidade de seu pai. O Agente negou ser seu pai e afirmou que não estava ali para entregar relatórios. Valeria então o confrontou, revelando que conhecia sua identidade, suas atividades no deserto e o fato de sua viatura ter tentado absorver o script Quimera na noite anterior.
A lógica da Fabricante
Questionado sobre o Quimera e as práticas da Fabricante, Valeria explicou que os algoritmos de direção autônoma necessitam de imprevisibilidade para progredir. Segundo ela, a Fabricante mantém grupos como o bando do Charlie vivos como um laboratório de estresse mecânico, servindo como grupo de controle. Ela acusou o Agente de ser um agente pago para assegurar que essas 'ovelhas negras' permanecessem confinadas, pois cada manobra manual realizada por ele alimentava a base de dados central do Sistema, que usava sua pilotagem para se proteger.
Valeria alertou que a situação estava prestes a mudar devido à nova diretoria, que buscava eficiência máxima e planejava uma atualização global na frota de patrulha, eliminando a necessidade do controle humano e automatizando tudo, inclusive o emprego do Agente. Ao perguntar sobre a destruição dos veículos, ela respondeu que tanto os carros quanto as pessoas seriam atingidos pelo trator, a menos que ele agisse primeiro.
A missão analógica
Para cumprir a missão, o Agente precisava de algo puramente analógico, sem rastreadores ou nuvem, pois a viatura da Divisão estava programada para deixá-lo para trás. Valeria removeu uma lona pesada, revelando um Fiat Coupé vermelho sólido. O Agente questionou a escolha do modelo, sugerindo um Delta Integrale, mas Valeria rebateu, explicando que um carro com três diferenciais e um túnel de transmissão seria detectado rapidamente pelos sensores da Fabricante. O Coupé, segundo ela, era um exemplo de engenharia mecânica eficiente.
Ao abrir o capô, o Agente observou o motor, um monumento de densidade industrial, com o cabeçote marcado como '2000 16V TURBO ELECTRONIC INJECTION'. Valeria detalhou que o motor era um Twin Cam de quatro cilindros em ferro fundido, projetado por Aurelio Lampredi, com modificações próprias: pistões forjados, bielas em H e injeção programável isolada, operando com turbo de 1,5 kg de pressão estática, gerando 320 cavalos de potência direcionados às rodas dianteiras.
Preocupado com a estabilidade do carro em tração dianteira no cascalho, o Agente expressou dúvidas sobre o controle. Valeria garantiu que o sistema Viscodrive, um acoplamento viscoso mecânico, travaria o diferencial automaticamente caso uma roda perdesse tração na poeira, garantindo a operação puramente mecânica. Dentro do veículo, o Agente encontrou um interior nostálgico, com painel vermelho e bancos concha, e assumiu o controle, notando a ausência de telas e assistência de faixa.
Valeria advertiu que o carro exigia pilotagem analógica, forçando-o a aprender a aliviar o acelerador para transferir peso e induzir a rotação traseira. O Agente, percebendo que não poderia simplesmente desaparecer, decidiu subir, ganhar tempo e, posteriormente, descobrir o cronograma exato da atualização da frota, pedindo que o carro estivesse pronto ao seu retorno.
Mudanças no Quartel-General
Após três dias, a atmosfera no QG da Patrulha havia mudado. O silêncio dos monitores holográficos foi substituído pelo som de servidores extras sendo instalados, enquanto técnicos da diretoria executiva da Fabricante moviam unidades de armazenamento quântico, sinalizando o início da migração de dados para a nova infraestrutura autônoma.
O Agente foi convocado à Sala de Diretrizes Primárias. Lá, o Comissário, um indivíduo com aparência quimicamente tratada, observava o mapa holográfico do deserto. O Comissário ordenou que o Agente se sentasse, mas este recusou-se, alegando ter passado doze horas no banco da viatura no dia anterior. O Comissário então apontou para o holograma, informando que três noites antes, a viatura do Agente registrou uma perda total de dados de posicionamento global por quatro minutos e doze segundos, logo após um encontro com um veículo irregular de propulsão a combustão.