Assa Doron e Alex Broom, que trabalham na Índia há cerca de duas décadas, compartilharam suas opiniões de que a crise dos antibióticos no país está enraizada em problemas de desigualdade, e não apenas no uso incorreto de medicamentos.
Origens da Pesquisa
Doron relatou que sua pesquisa inicial em Hyderabad, perto do rio Musi, revelou contaminação por empresas farmacêuticas. Ele descobriu que havia uma grande quantidade de bactérias resistentes a antibióticos no próprio rio. Conversas com moradores locais mostraram problemas de doenças de pele e odores desagradáveis, o que o levou a ligar o problema de resíduos à resistência a antibióticos. Ele decidiu unir forças com Alex Broom, que estudava esse tema há mais de dez anos.
Coleta de Dados e Contexto Global
Broom observou que seu envolvimento foi parcialmente pessoal, pois testemunhou a tensão entre a necessidade de comprar antibióticos e a consciência de que este é um recurso valioso. Doron enfatizou que, apesar da existência de dados científicos sobre o aumento da resistência antimicrobiana em locais contaminados, como o Ganges ou o Musi, o objetivo deles era contar uma história. A Índia chama a atenção para um problema global, pois é um dos maiores consumidores de antibióticos e um grande produtor de genéricos, onde os antibióticos circulam em hospitais, farmácias, fazendas e lares com alta intensidade.
Necessidade de uma Abordagem Abrangente
Broom afirmou que, para entender o problema, são necessários dados diversos que vão além dos resultados biológicos. Ele sugeriu olhar para os fatores que impulsionam o uso de recursos, como as condições de trabalho. Doron concordou, afirmando que não se pode culpar as pessoas, pois a crise dos antibióticos é, antes de tudo, uma crise de desigualdade, manifestada através de linhas sociais, como classe, gênero ou condições de moradia. Ele citou o exemplo de mulheres que sofrem de infecções do trato urinário ou reprodutivo, cujo estado é adiado porque é percebido como menos urgente.
O Papel do Crescimento e Problemas Sistêmicos
Broom ligou o aumento da resistência aos desafios do desenvolvimento econômico, seja na produção de alimentos ou na criação de novos mercados. Ele observou que não é possível garantir o uso racional de antibióticos se todo o sistema for orientado para o crescimento. Embora o crescimento possa melhorar a vida, o crescimento insustentável leva a efeitos mutagênicos, o que é um problema global, e não específico da Índia.
Chamado à Ação e Iniciativas Locais
Doron alertou que a humanidade está à beira de uma situação em que os antibióticos deixarão de funcionar mesmo contra as doenças mais simples. Ele refutou a visão simplista do problema como 'abuso', apontando que tais decisões são tomadas em contextos, por exemplo, de um hospital superlotado com acesso limitado a diagnósticos, ou quando um paciente pobre pode pagar apenas alguns comprimidos. Em resposta à crise na Índia, existem iniciativas como a 'Operation AMRITH' em Kerala, voltada para proibir a venda de antibióticos sem receita, bem como programas de conscientização entre os trabalhadores ASHA.
