Trinta anos após seu surgimento, o Congresso Mundial de Arquitetos da UIA retornou a Barcelona, coincidindo com o centenário do falecimento de Antoni Gaudí. Essa conjunção de história e presente confere um significado especial a esta edição do congresso.
Tema e Escopo do Evento Global
Organizado pela União Internacional de Arquitetos (UIA) a cada três anos, o evento deste ano abordou o tema «Becoming: Architectures for a Planet in Transition». Ele reuniu arquitetos, acadêmicos e representantes de mais de 130 países e regiões para discutir questões cruciais em escala global, incluindo a crise climática, moradia, circularidade de materiais, espaço público e avanços tecnológicos. A maneira como a arquitetura responde às mudanças ecológicas, sociais, culturais e tecnológicas tornou-se o ponto focal do encontro.
Pavilhão da China e Curadoria
Neste cenário internacional, o Pavilhão da China, apresentado na Exposição das Seções Membros da UIA 2026, teve sua curadoria geral conduzida pelo Instituto de Design e Pesquisa Arquitetônica da Universidade de Tsinghua (THAD). Após três anos de preparação, e sob o título «DVCA — Panorama Dinâmico da Arquitetura Chinesa Contemporânea», a curadoria envolveu um comitê de mais de 130 especialistas de várias áreas. O pavilhão exibiu mais de 350 trabalhos arquitetônicos em um espaço restrito, utilizando exposições variadas, como interatividade digital própria, experiências com inteligência artificial e uma galeria virtual em nuvem, apresentando assim ao mundo a evolução contínua da arquitetura chinesa contemporânea e seu engajamento nos debates globais.
Questões Centrais da Arquitetura Chinesa
O cerne do «panorama dinâmico» reside em como estruturar uma metodologia curatorial que equilibre uma visão internacional com a representação precisa do estado atual da arquitetura chinesa, dada a sua complexidade e volume. Questiona-se também as profundas transformações ocorrendo enquanto a construção civil do país migra de um crescimento acelerado para um desenvolvimento focado em alta qualidade, priorizando agora temas cotidianos como comunidade, saúde, educação e renovação urbana. Além disso, discute-se como o papel do arquiteto e a integração de novas tecnologias, como a inteligência artificial, moldarão a profissão no futuro.
Entrevista com Liu Yulong
Para explorar essas preocupações, o ArchDaily visitou o Pavilhão da China no DHUB (Museu do Design de Barcelona) para entrevistar Liu Yulong, curador-geral do pavilhão, presidente e arquiteto-chefe do Instituto de Design e Pesquisa Arquitetônica da Universidade de Tsinghua (THAD). A conversa abordou desde a concepção do tema até a lógica de seleção das obras, passando pela estrutura analítica baseada em sete palavras-chave, os caminhos para o diálogo da arquitetura chinesa com o exterior e a evolução do papel profissional frente às mudanças industriais causadas pela IA, buscando entender uma arquitetura em constante construção e transição.
Definição do Tema DVCA
Liu Yulong explicou que a definição do tema foi resultado de um processo contínuo de reflexão e aprofundamento ao longo de três anos. Diferentemente do formato curatorial tradicional, que parte de um conceito estrito, a participação no pavilhão nacional da UIA permite apresentar produções de diferentes regiões e tipologias de toda a China, formando um panorama global. Ele buscou um tema que capturasse o estágio atual e a dinâmica de transição da arquitetura chinesa, consolidando o conceito «DVCA — Panorama Dinâmico da Arquitetura Chinesa Contemporânea» no último ano antes da abertura.
O Significado do Termo «Dinâmico»
O adjetivo «dinâmico» foi adicionado posteriormente, baseado em três reflexões. Primeiramente, ele dialoga com o tema geral do congresso, «Becoming» (Tornar-se), que reflete o deslocamento filosófico ocidental do foco no «Being» (Ser) para o «Becoming» (Devir), postulando que tudo está em constante gênese e transformação. Segundo, ele faz paralelos com a arte e a literatura, citando a obra de Vermeer, onde a aparente quietude da pintura esconde a transição histórica, e o romance de Kazuo Ishiguro, cuja narrativa fragmentada converge para um todo coeso. Terceiro, observa-se uma evolução nos meios de comunicação: a cognição moderna depende de um fluxo contínuo de dados fragmentados, impulsionado pela era digital e pela inteligência artificial, substituindo o panorama estático por uma imagem composta por infinitos fragmentos móveis. Assim, o «Dynamic View» serve como método de observação e marca da contemporaneidade.
Seleção dos Projetos Expostos
A seleção dos mais de 350 projetos foi uma inovação metodológica. Diante da complexidade da arquitetura chinesa contemporânea, o comitê decidiu que múltiplos olhares eram necessários. Foi formado um colegiado curatorial com cerca de 130 especialistas nacionais e internacionais, incluindo acadêmicos, projetistas renomados, arquitetos-chefes de grandes institutos, professores e profissionais globais como Wolf D. Prix (Coop Himmelb(l)au) e Patrik Schumacher (ZHA). A avaliação utilizou uma matriz de 11 categorias, e os dados foram tabulados por algoritmos para ponderar critérios, garantindo que a exposição fosse um exercício de diálogo e decisão compartilhada.

