Apesar de a China ter contribuído com cerca de 30% do crescimento econômico mundial anualmente nos últimos cinco anos, servindo como pilar das cadeias globais de suprimentos e reduzindo os custos de tecnologias de energia limpa, um debate sobre o 'China Shock 2.0' ressurgiu na Europa. Alguns argumentam que o rápido progresso da China em veículos elétricos (VE), baterias de lítio e sistemas fotovoltaicos solares (FV) — os chamados 'Três Novos' — é impulsionado por capacidades excedentes e apoio estatal, o que ameaça o futuro industrial da Europa.
O problema está na demanda, não na China
No entanto, os autores do artigo consideram que essa acusação diagnostica mal o problema. O maior desafio para a Europa não é a competitividade da China, mas sim o enfraquecimento da demanda interna, a desaceleração da inovação e as restrições estruturais nas economias de alguns países europeus. Embora o protecionismo possa ter apelo político, ele não é capaz de restaurar a competitividade.
Como observou Tu Xincuan, decano do Instituto Chinês de Pesquisa da OMC na Universidade Internacional de Negócios e Economia, o choque suposto é apenas uma consequência da concorrência normal de mercado. Os dados refutam a retórica política: segundo a Bloomberg, as fábricas de automóveis europeias operam com uma taxa média de utilização de capacidade de apenas 55%, e apenas a Stellantis possui cerca de 3,5 milhões de unidades de capacidade de produção ociosa.
Análise de Mercado e Competitividade
Martin Sandbo, comentarista econômico europeu que escreveu para o Financial Times, afirmou que a Europa enfrenta uma 'ameaça fantasma chinesa', enfatizando que o verdadeiro problema reside na fraca demanda interna, e não no excesso de produtos chineses. Ele também observou que, embora as importações de carros chineses tenham aumentado, o volume total de importações para a UE permaneceu relativamente estável, pois as marcas chinesas principalmente substituíram importações de outros mercados, enquanto o mercado automotivo próprio da Europa continua a diminuir. Por exemplo, em comparação com 2019, a Alemanha vendeu cerca de 750.000 carros a menos em 2025, e as vendas na UE caíram em cerca de 1,5 milhão de unidades.
Jiang Junbo, vice-diretor do Centro de Estudos Europeus da Universidade de Fudan, notou que, em uma economia de mercado, apenas produtos não competitivos sofrem com a capacidade excedente. Além disso, a competitividade da China não surgiu de repente: entre 2012 e 2025, os gastos da China em pesquisa e desenvolvimento quase quadruplicaram, atingindo 3,93 trilhões de yuans (cerca de 565 bilhões de dólares), e o país entrou no top 10 do Índice Global de Inovação em 2025. Mais de 6.000 empresas de inteligência artificial operam na China, e o país mantém a maior força de trabalho em P&D do mundo por 13 anos consecutivos, o que é a base da competitividade, e não subsídios ilimitados.
Riscos do Protecionismo e Oportunidades da China
As barreiras comerciais podem proteger temporariamente setores menos competitivos, mas também aumentam os custos e minam a competitividade a longo prazo. De acordo com a Allianz Trade, cerca de 77% dos custos alfandegários adicionais recaem, em última análise, sobre importadores e consumidores através da redução de lucros ou aumento de preços. A decisão da UE de revogar os benefícios tarifários para pacotes de baixo valor já gerou alertas de grupos de consumidores na Alemanha de que taxas alfandegárias e administrativas ocultas podem aumentar significativamente os preços dos bens de consumo diário.
Mesmo dentro da Europa, crescem as preocupações. Stefan Scholl, editor de tecnologia do Handelsblatt, afirma que tarifas punitivas sobre veículos elétricos chineses protegem capacidade de produção obsoleta, e não indústrias futuras. Ele acredita que a concorrência justa impulsionaria as empresas europeias a acelerar a inovação, ao mesmo tempo que garantiria o acesso a tecnologias verdes acessíveis necessárias para atingir os objetivos climáticos do continente.
Enquanto os políticos debatem novas barreiras, os negócios globais seguem as realidades do mercado. De janeiro a maio, a China criou mais de 25.000 novas empresas com investimento estrangeiro, um aumento de 5,3% em comparação com o ano anterior. Quase 4.000 empresas estrangeiras expandiram suas operações na China, mudando sua estratégia de 'comprar na China' para 'inovar na China'. Ralph Brandstetter, chefe do departamento de China do Volkswagen Group, relatou que a experiência adquirida na China ajudou a reduzir o ciclo de desenvolvimento de veículos da empresa na Europa de 48 meses para 30-36 meses, fortalecendo a competitividade global da Volkswagen.
Do Choque às Oportunidades
O desenvolvimento da China está se transformando cada vez mais de 'China Shock 2.0' para 'China Opportunity 2.0'. Buscando uma abertura de alto padrão, a China torna as tecnologias avançadas mais acessíveis e permite que um número maior de países participe dos dividendos da inovação e do desenvolvimento. Segundo o Ember, um centro de análise energética britânico, os investimentos da China contribuíram para a redução dos custos mundiais de energia solar, eólica, armazenamento de energia em baterias e veículos elétricos. Modelos de IA chineses de código aberto ultrapassaram 10 bilhões de downloads acumulados em todo o mundo, e grandes instalações científicas, desde pesquisas quânticas até a estação espacial Tiangong, estão se tornando cada vez mais abertas à cooperação internacional. O analista indiano S. L. Kantan descreveu precisamente esta tendência não como 'China Shock 2.0', mas como 'China Gift 2.0'.
Se o desenvolvimento da China é visto como um 'choque' ou uma 'oportunidade', isso reflete, em última análise, duas visões concorrentes da globalização: uma vê o sucesso de outro país como uma ameaça a ser contida, e outra reconhece que a abertura, a inovação e a cooperação criam prosperidade mútua. Enquanto o crescimento global permanece frágil, a maior ameaça para a economia mundial não é o desenvolvimento da China, mas sim o crescente afastamento da abertura e a ascensão do protecionismo.
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