A Anduhyaun, organização responsável pela operação do único abrigo em Toronto dedicado a mulheres indígenas vítimas de violência, firmou uma colaboração com a LGA Architectural Partners. O objetivo deste projeto conjunto é conceber um novo abrigo que contará com 18 quartos, visando oferecer suporte às mulheres e aos seus filhos durante suas jornadas de recuperação.
Esta parceria culminou na criação de um ambiente singular que presta homenagem às tradições indígenas, focando nos princípios de transformação e revitalização. Tais conceitos são expressos através de escolhas formais e materiais que remetem a elementos cruciais para a cura e o sustento: a água, a terra e o céu. O resultado arquitetônico apresenta um conjunto de espaços orgânicos e fluidos, que se distinguem das estruturas convencionais por suas formas retilíneas e hierarquias espaciais rígidas.
Desde a cobertura da entrada externa, o piso térreo desenha um fluxo que lembra uma correnteza, revelando novas perspectivas, linhas de visão e texturas em uma progressão calma e natural. Ao percorrer o centro, as usuárias encontram salas de aconselhamento, triagem, para idosos e funcionários, todas discretamente inseridas atrás de paredes curvas. Para manter o tema do movimento natural, o acesso a cada sala não utiliza portas tradicionais voltadas para o corredor, mas sim entradas recuadas exclusivas.
Ao longo do corredor, azulejos em tom azul luminoso refletem a luz solar sobre a água. Posteriormente, as paredes azulejadas dão lugar a painéis de cedro natural, que exalam um aroma relaxante e estão dispostos em um padrão espiralado suave, lembrando ondas em constante mudança. No final do corredor, o espaço se abre para uma cozinha e uma área de jantar compartilhadas, inundadas por luz natural e conectadas a um jardim particular. Este é um espaço comunitário dinâmico, permitindo que as residentes cozinhem individualmente ou em grupo, promovendo a integração com a comunidade do abrigo.
No nível principal, o piso de madeira segue um desenho radial que converge em direção à Nookomis (que significa Avó em ojíbua). Esta sala circular possui um forte poder evocativo, simbolizando o ciclo da vida, a espiritualidade e a renovação. Ela foi planejada para sediar cerimônias, meditações e encontros diversos. Um sistema de ventilação oculto no teto possibilita a realização de rituais sagrados de defumação. Além disso, a Nookomis funciona como um local de descanso tranquilo para residentes e colaboradores. O revestimento desta sala é feito de cedro, e uma seção da parede pode ser deslizável para integrá-la à cozinha e à área de jantar. Seu interior é pintado em um tom profundo e acolhedor de vermelho-sumagre, e uma claraboia circular projeta a luz do sol e da lua no chão, marcando a passagem das estações e dos dias.
As áreas destinadas às residentes incluem espaços comuns, salas de silêncio e locais de lazer infantis, onde elas podem conviver, compartilhar refeições e descansar em ambientes mais íntimos. Os dormitórios foram concebidos priorizando o conforto e a privacidade. Diferentemente da maioria dos abrigos que utilizam banheiros coletivos, as plantas foram otimizadas para garantir que cada suíte possua um banheiro completo com três peças. Cada suíte também está equipada com janela funcional, cama, escrivaninha, armário e iluminação ajustável. Para atender famílias, as suítes vizinhas podem ser interligadas.
As transições entre paredes e tetos são suaves e curvas, reforçando os temas de interdependência e continuidade, ao mesmo tempo que direcionam a luz de maneira elegante. O abrigo, repleto de um espírito de transformação e crescimento, concretiza as tradições indígenas e o acolhimento humano que a Anduhyaun oferece há décadas, provendo um local de cura e conexão cultural.