À medida que surgem sinais de um acordo iminente que encerrará a guerra entre os EUA e o Irã, torna-se relevante estudar as economias que foram efetivamente paralisadas pelas consequências do conflito este ano.
Choques Energéticos no Sul da Ásia
Em março de 2026, quando a tensão e a troca de ameaças e mísseis se intensificaram no Estreito de Ormuz, as consequências deste evento atingiram países como Daca, Islamabad e Colombo antes mesmo de afetarem Washington ou Bruxelas. Este momento revelou-se menos uma crise geopolítica e mais filas intermináveis por combustível no Sul da Ásia, levando ao fechamento de restaurantes e ao mergulho dos domicílios na escuridão devido a constantes interrupções de energia.
Bangladesh, Paquistão e Sri Lanka — três nações que praticamente não possuem reservas próprias de petróleo e não têm influência significativa nos preços globais das commodities — absorveram choques energéticos devido à guerra que não provocaram. Isso reflete a natureza da dependência de combustíveis fósseis no Sul da Ásia, e esse fenômeno não é novo, lembrando a bolha de preços do petróleo em 2008 e o aumento dos preços após a guerra Rússia-Ucrânia em 2022, quando a Rússia restringiu os fornecimentos e causou choques nos preços do gás.
No entanto, o que distingue 2026 é o surgimento de alternativas acessíveis que alguns desses países já começaram a implementar. A questão principal é se eles desenvolverão ativamente essa base antes do próximo colapso ou reagirão novamente aos danos posteriormente. Paquistão, Bangladesh e Sri Lanka devem desenvolver um roteiro setorial — energia, transporte e agricultura — com base no que já foi comprovado como alcançável e escalar esses sucessos.
Superando a Armadilha dos Hidrocarbonetos
A vulnerabilidade principal nessas três nações reside na estrutura de mercado que garante que qualquer aumento nos preços globais de gás ou petróleo seja repassado aos consumidores de eletricidade, independentemente do volume de geração renovável na rede. Em Bangladesh, onde 42% da capacidade instalada é gás, o país satisfazia 65% de suas necessidades de eletricidade por importação no ano fiscal de 2024-2025. No Sri Lanka, a Ceylon Electricity Board ainda utiliza uma quantidade significativa de capacidade movida a óleo diesel e carvão, e os combustíveis fósseis permanecem uma das maiores categorias de importação de bens.
No Paquistão, no ano fiscal de 2024-2025, os fornos e as empresas que utilizavam carvão importado estavam principalmente inativos, apresentando fatores de utilização médios de apenas 2% e 23%, respectivamente. No entanto, todas as usinas de energia, independentemente do tipo de combustível, continuam a receber pagamentos fixos, aumentando o fardo anual de pagamentos de capacidade do Paquistão para 1,8 trilhão de rupias paquistanesas (US$ 6,58 bilhões), representando cerca de 61% dos custos totais de aquisição de energia.
A saída dessa situação é clara. Para reduzir a dependência do petróleo importado e fortalecer a segurança energética, o setor de energia dessas três nações deve fazer uma transição decisiva para fontes de energia renovável. A expansão solar no Paquistão, impulsionada pela instalação de pequenos sistemas por cidadãos, é o exemplo mais claro de potencial benefício: uma pesquisa recente do centro analítico Renewables First, onde o autor trabalha, avalia que mais de 38 gigawatts (GW) de capacidade distribuída foram adicionados ao país até 2024-2025. Desde 2020, esse aumento ajudou a reduzir a importação de combustível em cerca de US$ 12 bilhões, fornecendo um amortecedor crítico durante a crise no Sul da Ásia.
O Sri Lanka também demonstrou progresso, relatando ter gerado 72% de sua eletricidade a partir de fontes renováveis em junho de 2025, graças à energia hidrelétrica, painéis solares em telhados e energia eólica, estabelecendo uma meta em 2024 de criar 5,8 GW de nova capacidade renovável até 2030. Bangladesh, no entanto, está atrasado: em 2025, a participação de fontes renováveis foi de apenas 3,6% da capacidade instalada, apesar do potencial técnico de até 156 GW de energia solar em escala de serviços públicos e 150 GW de energia eólica. A política de energia renovável de Bangladesh para 2025 visava garantir 20% da geração de eletricidade a partir de fontes renováveis até 2030, mas isso requer uma aceleração urgente.
A ampliação da produção de energia solar e eólica exige a aceleração da obtenção de licenças, a realização de leilões competitivos e a assinatura de contratos de longo prazo que garantam aos investidores estabilidade de receita e reduzam os custos de capital iniciais. É necessário revogar todos os impostos e tarifas de importação sobre tecnologias solares, eólicas e de armazenamento para acelerar a implementação em níveis residencial, comercial e de serviços públicos. De acordo com um relatório do centro analítico internacional Energy Transitions Commission, 70-90% dos custos em sistemas de energia limpa são o capital inicial.
Simultaneamente, deve-se interromper a construção de nova infraestrutura para combustíveis fósseis para evitar a criação de capacidade excessiva, ativos ilíquidos e danos ambientais, redirecionando fundos para aumentar a participação de fontes renováveis no balanço energético. De acordo com o relatório, a transição global para a energia limpa exige investimentos anuais de US$ 3,5 trilhões para criar sistemas de fornecimento de energia e transporte, cujo custo operacional seja igual ou inferior ao de sistemas de combustíveis fósseis. É importante desenvolver planos de desativação antecipada de instalações obsoletas de combustíveis fósseis, bem como revisar contratos onerosos e readequar usinas a carvão usando tecnologias como armazenamento térmico de energia.
Metas Nacionais e Sua Implementação
De acordo com seus planos de ação climática, conhecidos como Contribuições Nacionalmente Determinadas, todos os três países demonstram algum progresso. Bangladesh estabeleceu metas quantitativas para substituir 95% das usinas de pico a combustível líquido por alternativas mais limpas até 2035. O Sri Lanka introduziu um moratório na nova capacidade a carvão juntamente com suas metas de neutralidade de carbono até 2050, e o Paquistão documentou uma redução de 41% nas importações de carvão entre 2021 e 2025, planejando a redução gradual da capacidade entre 2025 e 2035.
No entanto, todos os três países precisam fazer mais para transformar esses sinais em cronogramas complexos e juridicamente vinculativos de desativação, que indiquem datas de encerramento de instalações individuais, e não apenas metas nacionais agregadas. Há uma necessidade premente de revisar os contratos de compra de energia, desativar planos de base e readequar usinas a carvão existentes — e tudo isso deve ocorrer dentro de prazos rigorosos e com um caminho mais claro.
O requisito mais crítico é a flexibilidade do sistema de energia, alcançada através da integração de sistemas de armazenamento em nível de estação e de serviço público, gerenciamento de demanda, digitalização de redes inteligentes e modernização das interconexões de linhas de transmissão para reduzir perdas. O planejamento energético também deve ir além dos critérios de menor custo, considerando o impacto climático e o grau em que os recursos principais são locais, e não importados.
Redução da Demanda por Petróleo
No Paquistão, Bangladesh e Sri Lanka, o transporte continua sendo a maior fonte de demanda por petróleo, onde motocicletas de duas e três rodas dominam, constituindo 84%, 78% e 72% das frotas nacionais, respectivamente. A eletrificação deste segmento oferece o caminho mais rápido para a redução das importações, pois o custo das baterias caiu mais de 90% desde 2010, e os veículos de duas e três rodas elétricos já são competitivos em preço. A Agência Internacional de Energia prevê que os veículos elétricos podem reduzir a demanda mundial de petróleo em cerca de 5 milhões de barris por dia até 2030, o que equivale a cerca de 5% da demanda mundial. O centro analítico Ember estima que a substituição total do petróleo importado no transporte rodoviário por veículos elétricos pode reduzir as contas dos países importadores de combustível em mais de US$ 600 bilhões anualmente. Para o Sul da Ásia, a eletrificação do transporte rodoviário é uma das maiores alavancas para reduzir a vulnerabilidade a choques externos.
Para financiar a infraestrutura de carregamento, o crédito subsidiado e a conversão da frota, é necessário criar um fluxo de receita direcionado através da restrição de impostos e taxas sobre gasolina e combustíveis fósseis. As medidas imediatas necessárias incluem a redução das tarifas de veículos elétricos importados, a restrição do influxo de carros usados com motores de combustão interna (ICE) e a eletrificação obrigatória das frotas governamentais para criar uma demanda inicial visível. É igualmente importante reforçar os prazos de abandono gradual de veículos ICE, aprendendo com o mandato da UE para veículos zero emissões até 2035 (Regulamento UE 2019/631) e o banimento da Etiópia à importação de veículos de combustíveis fósseis em 2024.
A longo prazo, os governos devem consolidar a base industrial interna para veículos elétricos, componentes e infraestrutura de carregamento por meio de incentivos fiscais e industriais direcionados, garantindo que a transição crie empregos e economize moeda estrangeira, em vez de substituir uma dependência de importação por outra.
Apoio à Agricultura
A agricultura é uma área onde as apostas da insegurança energética são mais altas e menos discutidas. Este setor representa 24% do PIB do Paquistão, 11,2% do PIB de Bangladesh — com 38% da população empregada — e 7,5% do PIB do Sri Lanka, sustentando mais de um quarto da força de trabalho. Em todos os três países, os camponeses pobres dependentes da agricultura enfrentam rendimentos mínimos, baixo acesso a crédito e a exposição mais direta aos choques de preços do diesel e fertilizantes.
A intervenção mais urgente deve ser a instalação de sistemas de irrigação solar. No Paquistão, cerca de 60% da agricultura depende de águas subterrâneas bombeadas por bombas diesel ou poços conectados à rede. O programa 'Punjab Solar Tubewell Scheme' de 2025, que oferecia subsídios de até 1 milhão de rúpias indianas para sistemas de conversão de bombas diesel e elétricas existentes para energia solar, atraiu mais de 530.000 solicitantes para apenas 8.000 vagas. Este programa visava eliminar os custos recorrentes de diesel e eletricidade, que são uma das maiores despesas para os agricultores. A ampliação desta iniciativa provincial para um programa nacional com o apoio de uma janela federal de financiamento agrícola verde, oferecendo empréstimos de baixo juro e cofinanciamento governamental, representa a chance mais óbvia.
Bangladesh enfrenta um problema semelhante: a irrigação representa 43% dos custos totais de recursos agrícolas, e o Banco Asiático de Desenvolvimento destinou US$ 42,4 milhões para substituir bombas diesel por sistemas de irrigação solar para atender mais de um milhão de agricultores. No entanto, o ritmo de implementação desacelerou significativamente abaixo do pico de 2019, com a capacidade instalada total crescendo apenas alguns megawatts por ano — uma fração insignificante do ritmo estabelecido em 2019, de acordo com o banco de dados nacional SREDA. A desaceleração deve-se principalmente a problemas de financiamento e implementação, e não às tecnologias: os altos requisitos de capital próprio e as condições rigorosas de garantias bancárias limitam a adoção mesmo onde existem subsídios.
Isso mostra que as restrições limitantes são finanças e implementação de políticas, e não tecnologias. Atualmente, o Sri Lanka não possui um programa para substituição sistemática de bombas de irrigação a diesel por energia solar em grande escala. Todos os três países precisam considerar o acesso à energia solar para comunidades rurais não como uma medida ambiental, mas como uma prioridade de inclusão financeira e segurança alimentar. Isso exige mecanismos de financiamento estruturados, capazes de alcançar pequenos agricultores e cooperativas. Não é uma solução rápida, mas a base deve ser estabelecida agora, com o apoio do financiamento de bancos multilaterais de desenvolvimento, para que o próximo choque de preços encontre esses países melhor preparados do que foram da última vez.
O Estreito de Ormuz está aberto agora, embora não totalmente. Com o tempo, outro conflito geopolítico ou armado substituirá esta crise, porque, como se diz, a paz é apenas um interlúdio entre duas guerras. Portanto, a segurança energética deve ser construída internamente. O barril de petróleo mais barato é aquele que o país nunca foi forçado a comprar.
