As recentes manifestações na África do Sul refletem um profundo descontentamento social relacionado aos problemas de desemprego e qualidade dos serviços públicos, refutando a ideia de que o país é violento. O artigo analisa as dificuldades econômicas subjacentes e enfatiza a necessidade urgente de adoção de medidas.
Causas dos protestos e situação econômica
Durante uma semana, a África do Sul atraiu a atenção da comunidade global e local devido às marchas realizadas na terça-feira. Embora algumas imagens retratem o país como agressivo com estrangeiros, isso não é verdade. É crucial considerar as profundas frustrações e a raiva da população. A sociedade está exausta pela economia, que cresce muito lentamente para acompanhar o crescimento populacional, sem mencionar a absorção de centenas de milhares de jovens que entram no mercado de trabalho anualmente. O país enfrenta uma das taxas de desemprego mais altas do mundo — 43,7%, o que leva ao enraizamento da pobreza e da desigualdade.
Apesar de inúmeros problemas, a África do Sul permanece um centro econômico da região da África Austral e de grande parte do continente. Não se pode continuar sendo um oásis relativamente isolado de prosperidade em meio a um oceano de miséria. As marchas ocorreram e foram, em grande parte, pacíficas, pelo que se deve agradecer aos trabalhadores da polícia. No entanto, os pedidos sinceros dos manifestantes e da sociedade, especialmente da classe trabalhadora, não podem ser ignorados; esses problemas exigem solução urgente.
Crise de emprego e desenvolvimento econômico
O primeiro problema é a crise do desemprego. Nenhuma sociedade pode se orgulhar ou sentir-se segura se quatro em cada dez cidadãos não conseguirem encontrar trabalho, muito menos um digno e permanente. Mais de 62% dos jovens estão em risco de desemprego. A solução para o desemprego deve ser a principal prioridade para o governo, empresas, sindicatos e toda a sociedade. Assim que as pessoas tiverem empregos, muitos crises socioeconômicas agudas começarão a diminuir.
Para criar empregos, é necessário tirar a economia do estado de estagnação que dura mais de dez anos e elevá-la para o crescimento necessário de 3%. Isso implica ajudar a Eskom e os municípios a garantir o acesso à eletricidade para famílias da classe trabalhadora, empresas e indústria. Também é necessária a aceleração dos investimentos em transporte ferroviário, portos, estradas, abastecimento de água, aeroportos e outra infraestrutura econômica vital.
Além disso, é preciso simplificar o processo de abertura de negócios e tornar o financiamento acessível e viável para as PMEs, especialmente em áreas rurais e assentamentos. O setor privado deve participar ativamente na criação de empregos, incluindo a discussão de alternativas à redução de pessoal com trabalhadores e sindicatos. Os empregadores são obrigados a pagar aos trabalhadores o salário mínimo. Isso é fundamental para garantir a saúde e a produtividade dos trabalhadores, bem como seu senso de valor e motivação. Para o crescimento econômico, também é vital que os trabalhadores recebam salários decentes e se tornem acionistas, permitindo-lhes adquirir bens necessários aos negócios.
Serviços sociais e migração
Os empregadores devem dar prioridade à contratação de jovens sul-africanos. Frequentemente, observou-se que os empregadores exploram o desespero da mão de obra ilegal, violando seus direitos trabalhistas e leis de imigração. Se isso não for resolvido, será um gatilho para futuros conflitos. Parte da raiva dos manifestantes está ligada ao estado dos serviços públicos e municipais. Quando as comunidades enfrentam a deterioração da infraestrutura de abastecimento de água e saneamento, como vazamentos de esgoto nas estradas nos assentamentos, por que deveriam se surpreender com os protestos? Quando os trabalhadores passam dias em filas no Departamento de Assuntos Internos ou hospitais por serviços mais elementares, por que deveriam ser reprimidos?
Reconhecendo tudo pelo qual se pode estar zangado, é preciso também notar o progresso alcançado pela sociedade desde 1994 sob as administrações sucessivas do Congresso Nacional Africano. Essas administrações implementaram serviços públicos para a classe trabalhadora com o objetivo de reduzir a pobreza e a desigualdade, e nos últimos anos foi possível superar os apagões que prejudicaram a economia, restaurar outras empresas estatais e iniciar o desmantelamento de redes de roubo de recursos estatais. É preciso reconhecer honestamente o nível inaceitável de criminalidade e definir passos para eliminá-lo.
Assim como em outros aspectos do Estado, é necessário garantir uma liderança competente das forças policiais, preencher vagas na linha de frente e atrair habilidades críticas, além de fornecer pessoal e instituições com os recursos necessários para vencer nesta luta. Os protestos ocorreram porque a sociedade perde a fé na capacidade do Estado de garantir o Estado de Direito, o que é uma situação extremamente perigosa para qualquer sociedade.
Política e questões de imigração
É imperativo rejeitar categoricamente quaisquer formas de xenofobia, racismo ou discriminação, pois o país conhece bem o significado desses fenômenos, tendo vivido o apartheid. Nós não somos assim e nunca devemos ser. Ao mesmo tempo, é preciso exigir que todos os residentes da África do Sul, cidadãos ou não, cumpram todas as leis. A migração deve ser gerenciada, e não um processo caótico. A África do Sul não pode carregar o fardo de prover empregos para toda a região ou continente; em primeiro lugar, somos obrigados à nossa lealdade aos cidadãos sul-africanos.
A migração faz parte da história, incluindo a história do país, visto que a mineração foi construída por gerações de trabalhadores de Cofimvaba a Cabo Delgado. Existe um compromisso histórico de ajudar a desenvolver a região à qual o país deve tanto. A região e o continente devem prosperar. Isso exige que outros governos africanos assumam responsabilidade perante seus cidadãos, resolvendo os motivos pelos quais são forçados a deixar seus lares devido a violações maciças dos direitos humanos, mudanças climáticas ou total ausência de oportunidades de trabalho e econômicas.
O governo deve reforçar a segurança das fronteiras e fornecer ao Departamento de Assuntos Internos, à Autoridade de Controle de Fronteiras, bem como à SAPS e à SANDF, os recursos necessários para garantir continuamente o Estado de Direito. Apesar de muitos problemas, eles devem ser resolvidos. A migração é uma parte inerente da natureza humana e deve ser gerenciada de forma humana e sustentável. Estas marchas foram um sinal de alerta que não pode ser ignorado.