Cientistas da Austrália e da China descobriram que as abelhas terrestres demonstram uma reação de extensão da língua após consumir alimentos que foram percebidos como agradáveis. Foi estabelecido que essa reação não é causada pela dopamina, mas sua intensidade aumenta com a ação dos endocanabinoides.
Ligação com a avaliação hedônica
Um mecanismo semelhante de reação é observado em mamíferos, permitindo aos pesquisadores ligar esse fenômeno à avaliação afetiva do valor hedônico dos alimentos, ou seja, ao sinal que indica que o alimento proporciona prazer.
Experimentos em abelhas-das-flores
A equipe de pesquisadores, liderada por Quinn Solvy da Universidade Médica do Sul em Guangzhou, realizou experimentos com abelhas terrestres (Bombus). Diferentemente da visão comum na literatura sobre abelhas, vespas e Drosophila, onde a extensão reflexa do probóscide é considerada um indicador de motivação, os cientistas tentaram pela primeira vez medir o prazer obtido ao comer.
As abelhas-das-flores foram oferecidas vários solventes aquosos: puro, salgado, amargo, doce (20% de sacarose) e muito doce (60% de sacarose). As abelhas rejeitaram a água amarga, salgada e pura. Ao consumir os solventes doces, elas bebiam-nos com movimentos lamelares da língua e depois estendiam-na repetidamente ao beber cada gota. O número desses movimentos foi maior em resposta a concentrações de açúcar mais altas. As soluções de sal ou quinino causaram tremores de cabeça e esfregamento do probóscide com as patas nos insetos.
Separação entre motivação e prazer
Para verificar se a reação estava relacionada ao prazer e não apenas ao sabor doce, os insetos foram colocados em uma câmara a 40 graus Celsius e induzidos à desidratação. Depois disso, todas as abelhas-das-flores beberam água pura e salgada, e então estenderam suas línguas, sendo que o número de casos de tremores de cabeça diminuiu significativamente. Isso mostrou que a extensão da glossa não dependia exclusivamente do sabor doce, mas variava de acordo com o estado fisiológico das abelhas-das-flores.
Em seguida, os pesquisadores estudaram a possibilidade de separar a extensão da língua da motivação e do consumo de alimentos. Quando às abelhas-das-flores foi oferecido um estímulo misto (20% de açúcar e 5% de sal), elas beberam, mas não estenderam as línguas depois, apenas sacudiram levemente a cabeça. Abelhas-das-flores saciadas, que receberam solução açucarada (o que equivalia à manutenção da motivação), também quase não estenderam a glossa. Além disso, a frequência de extensão da língua diminuía se as abelhas-das-flores fossem primeiro oferecidas com solução de 60% de açúcar e depois com 20%. Os autores concluíram que esses dois processos — consumo e extensão da língua — são separados, sugerindo que a extensão da língua reflete a avaliação afetiva do estímulo, ou seja, a ausência de prazer nos casos descritos.
Influência de neurotransmissores
Após isso, os cientistas administraram dopamina, octopamina (outro neurotransmissor que afeta a motivação) ou anandamida (endocanabinoide) às abelhas-das-flores e mediram a reatividade e a extensão da língua. Todos os três neurotransmissores aumentaram a reação dos insetos ao açúcar: as abelhas-das-flores começaram a estender o probóscide mesmo com soluções de açúcar de 0,1–0,3%, enquanto os grupos de controle reagiram apenas a concentrações de 1–3% ou mais. No entanto, a extensão da língua após a alimentação não mudou sob a ação da dopamina e da octopamina, mas aumentou aproximadamente o dobro com a ação da anandamida.
Conclusão do estudo
Os autores concluíram que a extensão da língua após a alimentação nas abelhas-das-flores é um processo não relacionado à reatividade reflexa, que tradicionalmente é considerada uma medida de motivação. Na opinião deles, as abelhas-das-flores estendem a língua como sinal de prazer, assim como os mamíferos. No entanto, os mecanismos de tais reações em abelhas-das-flores ainda não foram estudados, ao contrário dos mamíferos, onde o aumento das reações miméticas ocorre em certas áreas do cérebro com a administração de opioides ou endocanabinoides.
Apesar da confiança dos autores na comprovação da avaliação afetiva, eles admitiram não ter discutido interpretações alternativas. Eles observam que a extensão da glossa pode estar relacionada não apenas à avaliação hedônica, mas também ao desejo de repetir a refeição ou procurar por ela. O texto também menciona uma contradição entre o comportamento de ratos saciados e abelhas-das-flores, o que pode indicar diferenças no funcionamento desses processos em insetos e mamíferos.