Uma bolsa que prometia revolucionar o mercado de couro, criada em laboratório utilizando colágeno de um fóssil de T. rex, não conseguiu ser vendida em leilão, apesar de sua promessa de inovação.
Uma bolsa que prometia revolucionar o mercado de couro, criada em laboratório utilizando colágeno de um fóssil de T. rex, não conseguiu ser vendida em leilão, apesar de sua promessa de inovação.
O T. rex, figura icônica dos filmes de Jurassic Park, está extinto há 66 milhões de anos. Em abril deste ano, o mercado de moda apresentou um item intrigante: uma bolsa denominada de “couro de tiranossauro”. Embora pudesse parecer uma falsificação ou uma imagem gerada por inteligência artificial, a notícia era verdadeira, sendo o material uma reconstrução celular da pele do dinossauro, e não um uso direto de fósseis.
A marca de techwear Efin Levé desenvolveu a peça através de um extenso processo científico. A equipe iniciou o trabalho com fragmentos de proteína colágeno preservados em um fóssil do fêmur de um T. rex, descoberto no estado de Montana, nos Estados Unidos. É importante notar que o processo não utilizou o DNA do dinossauro, pois essa molécula não sobrevive por dezenas de milhões de anos.
Os pesquisadores empregaram métodos de biologia computacional e modelagem por inteligência artificial para preencher as lacunas do colágeno, estabelecendo uma estimativa da sequência genética original da proteína. Para auxiliar nessa reconstrução, foram usadas como referência estruturas proteicas conhecidas de outros animais, notadamente as de galinhas, consideradas parentes mais próximas dos dinossauros.
Essa sequência reconstruída foi sintetizada em ambiente laboratorial e introduzida em células hospedeiras, que passaram a produzir o colágeno, resultando no material conhecido como “couro de T. rex”. Este produto é fabricado a partir dessas células, dispensando o uso de plástico (como no couro sintético) e eliminando a necessidade de abate animal, enquanto promete possuir durabilidade e composição similares ao couro tradicional.
Contudo, a principal controvérsia não reside na qualidade do material, mas sim nas incertezas científicas. Embora a bolsa tenha sido produzida com base em fragmentos de colágeno do fóssil, alguns especialistas questionam a certeza de que essas proteínas são genuinamente do dinossauro, dado que é altamente improvável que tenham sobrevivido por mais de 60 milhões de anos. Uma hipótese levantada sugere que as estruturas encontradas podem pertencer a organismos, como bactérias, que colonizaram os ossos ao longo do tempo.
Adicionalmente, outros cientistas argumentam que, devido ao pequeno porte do fragmento de colágeno conservado, grande parte do material denominado “couro de tiranossauro” deriva, na verdade, das proteínas de outros animais utilizadas para recriar a sequência genética.
Apesar das ressalvas científicas, a peça foi divulgada como o “primeiro produto do mundo feito de couro de T. rex” e classificada como uma “bolsa de luxo única”. A expectativa inicial era arrecadar centenas de milhares de dólares, com a bolsa avaliada entre US$ 350 mil e US$ 580 mil (aproximadamente R$ 1,8 milhão a R$ 3 milhões). Em junho, foi realizado um leilão em Paris especificamente para a venda do item. No entanto, a resposta dos compradores ficou muito aquém do previsto; o maior lance registrado foi de apenas US$ 170 mil, e a bolsa acabou sem encontrar comprador.