Na entrada do Hospital Infantil da Cruz Vermelha de Memória Militar em Cidade do Cabo, há uma estátua de bronze de Peter Pan tocando uma flauta. Muitos visitantes, incluindo centenas de crianças e famílias diariamente, passam por esta estátua, considerando-a apenas um elemento decorativo ou uma referência a um livro infantil famoso.
História da criação do memorial
No entanto, poucos sabem que a instalação da estátua está ligada a um menino de quatro anos chamado Peter Watson, que faleceu de difteria em 1923, antes mesmo de um hospital pediátrico especializado ter surgido na África do Sul.
Os pais de Peter Watson, Vivian e Gwen Watson, lamentaram profundamente a perda do filho por muito tempo. Essa perda ganhou um novo significado após a Segunda Guerra Mundial, quando veteranos sul-africanos decidiram criar um 'memorial vivo' em memória dos camaradas caídos. Ao verem a oportunidade de homenagear a memória de seu filho, os Watson participaram da concretização dessa ideia.
O papel da família Watson
Vivian Watson, veterano da Primeira Guerra Mundial, tornou-se presidente do Comitê de Construção do Hospital da Cruz Vermelha em Cape Town na década de 1950. A família Watson não foi apenas patrocinadora; eles foram a força motriz principal do projeto nos planos administrativo e de angariação de fundos. Vivian liderou campanhas de arrecadação de fundos que garantiram o capital necessário e supervisionou pessoalmente o local de construção. Quando o hospital foi inaugurado em junho de 1956, tornou-se um monumento ao sacrifício coletivo durante a guerra e ao amor duradouro de um pai.
A ligação com Londres
A conexão com Peter Pan se aprofundou alguns anos depois, quando Vivian visitou o Great Ormond Street Hospital (GOSH) em Londres. Lá, ele descobriu que o dramaturgo escocês J. M. Barrie havia cedido os direitos e futuros royalties de Peter Pan a este hospital em 1929, garantindo financiamento permanente para cuidados pediátricos.
Passeando pelo GOSH, Watson viu as criações de Barrie por toda parte: Peter Pan e Tinker Bell de bronze recebiam famílias na entrada, o departamento cirúrgico especializado levava o nome do personagem, e a área de descanso externa oferecia aos pacientes uma distração mágica da doença.
Dedicatória à memória do filho
Profundamente tocado pelo que viu em Londres, Watson retornou a Cidade do Cabo e encomendou ao escultor local Ivan Mitford-Barberton a fundição da estátua de bronze de Peter Pan em memória de seu filho. A estátua foi oficialmente apresentada ao hospital em Cidade do Cabo em 1959.
Por mais de sessenta anos, a figura de Peter Pan observa os pacientes que chegam. Ela também eterniza o Dia da Memória anual do hospital, em 11 de novembro, quando veteranos, funcionários e famílias se reúnem na base da estátua para depositar coroas em homenagem aos soldados da Segunda Guerra Mundial e a líderes como Watson, que construiu a instituição. A ligação da família Watson com o hospital continuou através da filha de Vivian, Clemmy Honey-Robertson. Ela cresceu visitando o local de construção, trabalhou voluntariamente por muitos anos nos departamentos e permaneceu como grande doadora até sua morte aos 80 anos. Quando o Fundo Hospitalar Infantil estabeleceu o Jardim da Memória para doadores que deixaram um legado, ele foi nomeado em homenagem a Vivian.
No Hospital Infantil da Cruz Vermelha de Memória Militar, a silenciosa figura de Peter Pan representa algo mais do que um conto de fadas. Ela permanece uma promessa inabalável de que cada criança merece a chance de sonhar, curar e crescer.
