Os modelos de receita no setor hídrico devem considerar simultaneamente três requisitos chave: a confiança dos investidores, a acessibilidade dos serviços para os municípios e o direito público ao abastecimento de água confiável. A África do Sul enfrenta uma pressão crescente sobre os recursos hídricos, exigindo soluções tanto técnicas quanto sociais.
Problemas de abastecimento de água na África do Sul
Em áreas de Joanesburgo, como Coronationville e Westbury, os residentes enfrentam regularmente interrupções prolongadas no fornecimento de água, o que sublinha a necessidade de sistemas mais resilientes. Em Gqeberha e na Baía de Nelson Mandela, observou-se instabilidade no fornecimento entre racionamento e restauração, enquanto Durban e Tshwane trabalham para acompanhar o rápido crescimento urbano através da modernização da infraestrutura.
Em nível nacional, as perdas de água permanecem significativas: mais de dois em cada cinco litros de água tratada nunca chegam aos consumidores pagantes devido a fugas, roubos e ineficiência na medição. Este problema afeta negativamente a capacidade financeira dos municípios e a fiabilidade do serviço, mas também aponta para áreas onde medidas direcionadas podem trazer maior benefício.
Reforma e ambiente de investimento
A infraestrutura hídrica é fundamental, pois o seu funcionamento sustenta a saúde, a atividade económica e a estabilidade social. Resolver estes problemas agora abre a oportunidade de fortalecer a resiliência, restaurar a confiança pública e estimular o crescimento sustentável. A boa notícia é que a arquitetura necessária está a ser formada graças às reformas, que estão a mudar o perfil de risco na direção certa.
Primeiro, a Agência Nacional de Infraestrutura de Recursos Hídricos (National Water Resources Infrastructure Agency) está a ser criada de acordo com a Lei da Agência. Ela será responsável pelo desenvolvimento, operação e financiamento da infraestrutura hídrica nacional, atraindo financiamento comercial e de investimento independentemente de garantias governamentais, dando ao Estado uma base mais forte para atrair capital privado para projetos estratégicos.
Em segundo lugar, a Lei de Alterações aos Serviços de Água clarifica os papéis das Autoridades de Serviço de Água e dos Fornecedores de Água, permitindo que empresas municipais privadas ou regionais qualificadas operem dentro de modelos de serviço e contratos claros com os municípios.
Em terceiro lugar, os recentes passos do Ministério dos Recursos Hídricos e Saneamento e do Tesouro Nacional para alocar receitas municipais de água para um fundo específico e restaurar auditorias de qualidade de água Blue Drop, Green Drop e No Drop indicam a formação de uma estrutura mais favorável ao investimento, onde as responsabilidades são claras e os resultados são visíveis.
Novos mecanismos de apoio a projetos
Outro elemento é o recém-criado Gabinete de Parcerias de Recursos Hídricos (Water Partnerships Office) no Desenvolvimento Bank of South Africa. Ele foi estabelecido para ajudar os municípios a preparar, estruturar e adquirir projetos elegíveis para financiamento em áreas como dessalinização, reutilização de água e redução de perdas não comerciais, desenvolvendo documentos padronizados e gestão de programas para criar soluções escaláveis.
Prioridades de desenvolvimento do setor
Uma das prioridades urgentes é eliminar as perdas não comerciais, que representam 40% do volume nacional. Contratos baseados em desempenho entre municípios e fornecedores de água que incentivam a manutenção técnica podem transformar fugas e perdas em volume faturável e serviço mais estável.
Um segundo aspeto crítico é a reutilização de águas residuais. A reutilização municipal e industrial aumenta a resiliência às alterações climáticas sem a necessidade de nova captação de água, e quando integrada a nível de programa, apoia a distribuição padronizada de riscos e uma melhor precificação. Ambas as categorias trazem benefícios claros para o interesse público.
A Parceria Público-Privada (PPP) é um modelo comprovado para mobilizar capital privado na infraestrutura hídrica, tanto na África do Sul como no mundo. Dentro destas estruturas, parceiros privados financiam, constroem e operam instalações de tratamento e distribuição em contratos de longo prazo, enquanto o governo retém a propriedade e a supervisão regulatória, permitindo a transferência de riscos operacionais e a melhoria da prestação de serviços.
Com o apoio de quadros legais claros, preparação de projetos elegíveis para financiamento e tarifas que reflitam os custos, as PPPs podem preencher a lacuna de financiamento a nível municipal e provincial, como demonstrado nas concessões de Silulumani e iLembe, que expandiram o acesso, modernizaram os sistemas e aumentaram a eficiência, superando questões complexas de acessibilidade, água básica gratuita e nível justo de serviço.
Ao aplicar as lições do programa de energia renovável sul-africano, a padronização dos acordos de PPP, a criação de escritórios de programas especializados e o uso da experiência de instituições como a Divisão de PPP do Tesouro Nacional e investidores experientes em dívidas de infraestrutura de longo prazo, podem reduzir os custos de transação e ajudar a escalar projetos de PPP para que mais comunidades tenham serviços de abastecimento de água confiáveis e sustentáveis.
Garantia de rentabilidade
Um requisito chave para atrair capital privado é a certeza de que as receitas obtidas pelo pagamento da água por agregados familiares e empresas são recolhidas e direcionadas ao fornecedor de água, e não misturadas para cobrir outras obrigações municipais.
As recentes reformas do Ministério dos Recursos Hídricos e Saneamento e do Tesouro Nacional visam diretamente este problema ao alocar receitas municipais de água para um fundo específico, separar as funções da Autoridade de Serviço de Água e do Fornecedor de Água com acordos contábeis e de serviço separados, e restaurar as auditorias Blue Drop, Green Drop e No Drop para rastrear a qualidade da água, as perdas e a eficácia da faturação.
Estas medidas em conjunto podem criar fluxos de receita mais transparentes e previsíveis, que sustentam a cobertura de custos e permitem a consideração de tarifas financeiramente viáveis dentro de contratos de PPP de longo prazo. Os modelos de receita também devem considerar medidas de mitigação de risco de pagamentos municipais diretamente. Mesmo com o reforço da disciplina na cobrança, o défice de receitas ainda pode manifestar-se como um risco de pagamento, pelo que o apoio creditício adicional de bancos de desenvolvimento e do Tesouro Nacional continua a ser uma parte importante da equação.
Existem exemplos de sucesso próximos de casa. As concessões iLembe – Siza na costa de Dolphin e Silulumani em Mbombela expandiram o acesso e profissionalizaram as operações dentro de contratos de longo prazo, demonstrando como a colaboração entre os setores público e privado pode estabilizar o serviço com a definição clara de papéis e a medição de resultados. Eles também identificaram armadilhas a serem evitadas: o subinvestimento herdado não pode ser corrigido de imediato, e a pressão pela acessibilidade exige medidas sociais explícitas, incluindo políticas para pessoas de baixos rendimentos, que devem ser financiadas e garantidas.
Desenvolvimento sustentável e futuro
Nada disto funcionará sem resultados mensuráveis. A sustentabilidade no abastecimento de água não é apenas um rótulo, mas sim a contabilização dos serviços prestados. Neste setor, a sustentabilidade vai além dos requisitos normativos e contribui ativamente para o progresso no alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente o ODS 6 sobre água potável e saneamento e o ODS 9 sobre infraestruturas industriais e inovação.
Indicadores importantes incluem agregados familiares servidos de forma fiável, utilização eficiente dos recursos hídricos e infraestrutura que apoia a sustentabilidade comunitária a longo prazo. Isto representa uma responsabilização pelos serviços de abastecimento de água fiáveis e a possibilidade de criar valor comum a longo prazo dentro das prioridades de desenvolvimento sustentável da África. Especialistas da Old Mutual Alternative Investments podem fornecer o financiamento de longo prazo e a experiência de estruturação necessários para apoiar as PPPs no abastecimento de água, considerando as finanças como uma estrutura de dívida prática e sustentável.
Graças às reformas políticas contínuas, que formam uma base positiva para aumentar a confiança dos investidores, a África do Sul pode transformar a situação de emergência atual num fluxo reproduzível de projetos elegíveis para financiamento, o que restaurará a dignidade, protegerá o crescimento e reduzirá o custo total da água ao longo do tempo.

