Pesquisadores descobriram sinais de que os neandertais e o Homo sapiens no Levante praticavam modelos comportamentais culturais semelhantes milhares de anos atrás. Esta descoberta foi feita através do estudo de uma caverna na costa mediterrânea da atual Turquia, onde diferentes grupos de pessoas ocuparam o mesmo espaço em diferentes períodos de tempo.
Análise de artefatos na caverna Üçağızlı II
O estudo, publicado na revista PNAS na última segunda-feira (dia 6), incluiu a análise de fósseis, ferramentas de pedra e conchas encontradas na caverna Üçağızlı II. Os resultados mostraram que ambos os grupos usavam métodos semelhantes de obtenção de alimentos e criavam objetos que possivelmente tinham valor simbólico. Esta conclusão reforça novas interpretações sobre as relações entre essas duas linhagens humanas, sugerindo que eles poderiam ter trocado conhecimentos e preferências culturais, mesmo sem viver no mesmo local simultaneamente.
Evidências arqueológicas de continuidade cultural
A equipe que realizou a pesquisa estudou os materiais preservados na caverna Üçağızlı II, localizada em uma região que serviu como elo entre o Levante (Mediterrâneo Oriental) e a Eurásia. Embora os pesquisadores tenham encontrado apenas dentes e parte de mandíbulas, eles conseguiram distinguir os grupos humanos pela estrutura interna dos dentes fossilizados. A datação dos depósitos mostrou que os neandertais usavam a caverna aproximadamente entre 77 mil e 59 mil anos atrás, enquanto o Homo sapiens apareceu mais tarde, por volta de 59 mil e 47 mil anos atrás.
Apesar desses intervalos de tempo, os depósitos arqueológicos apresentavam características semelhantes. Os pesquisadores descobriram padrões parecidos no uso de ferramentas de pedra, no aproveitamento de recursos naturais e nos métodos de obtenção de alimentos. Entre os animais de caça estavam cabras selvagens, gamoses, cervos e javalis. Além disso, ambos os grupos utilizavam as mesmas fontes locais de matéria-prima, incluindo sílica, usada na fabricação de ferramentas.
Simbolismo e práticas culturais
A presença de 29 conchas de pequenos moluscos marinhos da espécie Columbella rustica chamou atenção especial. Esses itens, aparentemente, não eram usados para consumo, mas provavelmente serviam como adornos. Algumas conchas tinham furos, indicando a intenção de transformá-las em acessórios, e uma concha associada à presença neandertal tinha uma alteração de cor causada por aquecimento intencional.
Segundo Naoki Morimoto, paleoantropólogo da Universidade de Quioto e um dos autores do estudo, as descobertas testemunham uma proximidade cultural entre grupos biologicamente diferentes. Ele afirmou que «esses dois coletivos humanos diferentes, mas próximos, provavelmente compartilhavam preferências simbólicas». Esta descoberta também ecoa dados obtidos em outros sítios arqueológicos no Oriente Médio e na Europa. Na caverna Tinhshemet, em Israel, os pesquisadores relataram anteriormente sinais de comportamento semelhante entre neandertais e Homo sapiens em períodos ainda mais antigos.
Opiniões de especialistas e questões abertas
April Newell, arqueóloga especializada no Paleolítico da Universidade de Victoria, no Canadá, que não participou deste estudo, observou que locais como Üçağızlı II estão mudando a compreensão das conexões culturais entre essas populações. Em entrevista ao Live Science, ela avaliou que estas descobertas demonstram um alto nível de interação entre diferentes grupos humanos antigos. No entanto, a continuidade observada deixa em aberto a questão: se os neandertais e o Homo sapiens tinham um comportamento tão semelhante, quais fatores explicam o desaparecimento dos neandertais há cerca de 40 mil anos?
Os autores do estudo enfatizam a necessidade de um estudo mais aprofundado sobre quando e onde surgiram essas práticas comuns e se a semelhança cultural está relacionada ao cruzamento entre as duas populações humanas. Escavações futuras em Üçağızlı II e outros locais arqueológicos podem aprofundar a compreensão de como diferentes grupos de pessoas trocavam conhecimentos no final do Pleistoceno.
