Ornitólogos descobriram que a cor marrom das penas serve como proteção para as gaivotas jovens, prevenindo a agressão por parte de aves adultas. Esta conclusão foi alcançada após a análise dos resultados de experimentos realizados na Ilha Kent, no Canadá.
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Experimentos na Ilha Kent
As gaivotas americanas da população local demonstraram menor reação agressiva ao modelo que imitava um parente de primeiro ano de vida em comparação com a reação ao modelo com coloração adulta. Supõe-se que, graças a esta coloração protetora, os jovens possam visitar colônias de nidificação com segurança, onde adquirem habilidades relacionadas à reprodução e comportamento territorial. Os dados do estudo foram apresentados na revista Animal Behaviour.
Características da coloração das gaivotas
Gaivotas do gênero Larinae, exceto em casos raros, têm coloração branca com asas cinzentas, e algumas espécies podem ter cabeça preta, marrom ou cinza. No entanto, essa coloração só é adquirida por indivíduos que atingiram a maturidade sexual, o que pode levar dois ou mais anos dependendo da espécie. As aves não maduras parecem diferentes: no primeiro ano de vida, elas têm penas com muitas manchas marrons, e mais tarde adquirem uma coloração semelhante à de um adulto, mas com menos manchas.
Hipóteses sobre a função protetora
Embora a razão dessas diferenças significativas entre gaivotas de diferentes idades permaneça incerta, ornitólogos sugerem que a coloração marrom ajuda os jovens indivíduos a sinalizar que ainda não atingiram a maturidade sexual. Isso, por sua vez, significa que eles não representam concorrência para os indivíduos adultos em termos de busca por parceiros ou captura de território de nidificação, permitindo-lhes evitar a agressão. Um mecanismo de defesa semelhante, baseado em diferenças externas, foi observado anteriormente em outros animais, incluindo orangotangos (Pongo) e algumas aves e peixes passeriformes.
Metodologia de verificação da hipótese
Uma equipe de ornitólogos liderada por Molly Hill, da estação de pesquisa de Bowdín, verificou essa hipótese na Ilha Kent, localizada na Baía de Fundy, no nordeste da América do Norte. Anualmente, cerca de 6000 gaivotas americanas (Larus smithsonianus) nidificam nesta ilha. Durante o período de 2023-2024, Hill e sua equipe realizaram um experimento, colocando modelos plásticos de parentes perto dos ninhos (que já tinham dois ou três ovos). Esses modelos podiam imitar um indivíduo jovem de primeiro ano de vida (com muitas manchas marrons), um indivíduo jovem de terceiro ano de vida (com coloração próxima à de um adulto, mas com manchas marrons nas asas) ou um indivíduo adulto com mais de 46 meses. Para comparação, foi usado um modelo de ganso canadense (Branta canadensis) como grupo de controle. Após a instalação do modelo, os pesquisadores atraíam a atenção das gaivotas com sons de um alto-falante e registravam sua reação durante dois minutos. Em dois períodos, 120 ninhos foram testados, e os proprietários de cada um foram expostos aos quatro tipos de modelos.
Resultados da reação das gaivotas
Em 67% dos casos, as gaivotas não reagiram agressivamente ao modelo; elas o ignoraram ou mostraram sinais de inquietação e emitiram gritos correspondentes. No entanto, em 33% dos casos, observou-se agressão: as aves exibiram comportamento direcionado à defesa do território, tentaram atacar o modelo com o bico ou mergulharam nele pelo ar, e às vezes entraram em contato físico, como bicar. Segundo os cientistas, o modelo de parente sexualmente maduro provocou a reação agressiva mais frequentemente. A probabilidade de comportamento agressivo em relação ao modelo de ave de primeiro ano de vida foi 48% menor (p < 0,05), enquanto para o modelo de ganso, essa probabilidade diminuiu em 86% (p < 0,001). O modelo de gaivota de terceiro ano de vida causou agressão com probabilidade semelhante à do modelo de parente adulto. Além disso, o grau de manifestação da agressão em relação ao modelo de indivíduo de primeiro ano de vida foi menor do que em relação ao indivíduo sexualmente maduro. Se considerarmos apenas os casos agressivos, o modelo de ave de primeiro ano de vida desencadeou o nível máximo de agressão mais lentamente do que o modelo de ave sexualmente madura (em média 43,9 segundos contra 36,7 segundos).
Conclusões do estudo
Os dados obtidos confirmam a hipótese de que a coloração marrom das gaivotas jovens serve como proteção contra ataques de indivíduos adultos, visto que as gaivotas americanas reagem de forma menos hostil a parentes de primeiro ano de vida do que a indivíduos sexualmente maduros. Os autores acreditam que isso pode estar relacionado ao fato de tal coloração se assemelhar à de filhotes. Graças a essa proteção, as gaivotas não maduras podem visitar livremente colônias de nidificação para adquirir habilidades relacionadas à reprodução e comportamento territorial. No entanto, permanece incerto por que as gaivotas de terceiro ano de vida, que constituem cerca de quatro por cento do número total de colônia na Ilha Kent, não possuem essa coloração marrom protetora. Uma das versões sugere que sua coloração pode servir como sinal não para os mais velhos, mas para os parentes mais jovens com quem interagem em locais de descanso e alimentação. Outra versão afirma que sua coloração também reduz a agressão dos adultos, mas o desenho do experimento não permitiu confirmar esse efeito.