Medicamentos usados para tratar obesidade e diabetes tipo 2 podem potencialmente desempenhar uma nova função: ajudar a controlar certos tipos de câncer. Estudos apresentados na conferência ASCO 2026 apontam para o possível benefício dos agonistas do GLP-1 na desaceleração da metástase.
Resultados dos estudos em Chicago
De acordo com informações da RFI, os resultados obtidos chamaram a atenção devido à identificação de efeitos positivos em tumores de pulmão, mama, colorretal e hepático. No entanto, especialistas enfatizam que esses dados ainda precisam de confirmação.
O conceito de usar os chamados 'medicamentos injetáveis para emagrecimento' em pesquisas oncológicas começou há cerca de cinco anos. Os dados mais recentes foram apresentados na ASCO 2026, realizada em Chicago, EUA. Neste estudo, foram analisadas informações de mais de 12 mil pacientes de diversas partes do mundo que sofrem de câncer em estágios iniciais e intermediários. A análise comparativa foi realizada entre pessoas que recebiam agonistas do GLP-1 e pacientes que tomavam outros medicamentos para controle do diabetes.
Substâncias analisadas e tipos de câncer
Entre as substâncias estudadas estavam: liraglutida, pramlintida, dulaglutida, tirzepatida, lexisnatida e semaglutida. O estudo demonstrou uma redução significativa na progressão das metástases, especialmente em quatro tipos de câncer: câncer de pulmão de células não pequenas, câncer de mama, colorretal e hepático. Em relação aos tumores de próstata, pâncreas e rim, foram observados sinais de benefício, mas estes não receberam confirmação estatística.
Limitações e opiniões de especialistas
Apesar dos resultados promissores, não se pode considerar que os medicamentos para emagrecer sejam um tratamento pronto para o câncer. Paulo Henrique Costa, oncologista clínico do Brasil, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e membro da rede Mater Dei, explica que os estudos existentes possuem várias limitações. Ele observa que não se tratou de um ensaio clínico randomizado, onde os participantes são divididos em grupos para obter evidências mais sólidas.
Paulo Henrique Costa também alerta sobre os riscos da automedicação, especialmente considerando o crescimento do mercado paralelo de medicamentos adquiridos sem receita. O especialista insiste que o controle de peso, a alimentação adequada e o estilo de vida saudável continuam sendo medidas críticas para reduzir os riscos, pedindo para que esses medicamentos não sejam usados de forma descontrolada.
Mecanismos de ação e futuras direções
Além da redução de peso e do controle do nível de glicose, os pesquisadores estão investigando se os agonistas do GLP-1 são capazes de influenciar processos relacionados ao câncer, como inflamação, funcionamento do sistema imunológico e comportamento das próprias células cancerosas. Costa afirma que existem novas evidências de influência direta dessas moléculas nos receptores presentes nas células tumorais, embora este mecanismo ainda precise de estudo detalhado.
Foi observado que pacientes com câncer que tomavam esses medicamentos apresentavam menor progressão da doença e menor risco de metástase. Supõe-se que o controle da obesidade, que é um fator de risco significativo, possa contribuir para a melhoria dos resultados do acompanhamento oncológico. A conferência ASCO 2026 reuniu mais de sete mil estudos sobre avanços em oncologia, entre os quais se destacou o medicamento daraxonrasib, que age na proteína KRAS e representa uma nova abordagem para o tratamento do câncer de pâncreas. Costa conclui que descobertas como essas expandem o conhecimento sobre a complexa doença, visto que a oncologia evolui através do acúmulo de conhecimento.
