A mostra, intitulada 'Surrealismos – Arte para Além da Razão', inaugura a nova sede da Pinakotheke Cultural em São Paulo e propõe uma defesa do surrealismo através de um fenômeno trans-histórico e expandido.
A mostra, intitulada 'Surrealismos – Arte para Além da Razão', inaugura a nova sede da Pinakotheke Cultural em São Paulo e propõe uma defesa do surrealismo através de um fenômeno trans-histórico e expandido.
A exposição estabelece uma conexão entre obras contemporâneas e modernistas. Exemplos incluem 'Homenagem a Meret Oppenheim' (2024-2026), da série de ping-poems de Lenora de Barros, e 'Tarsila com Laranja' (2011), de Erika Verzutti. Essas peças dialogam com artistas modernistas. Embora Meret Oppenheim (Berlim, 1913 – Sion, 1985) tenha sido associada ao surrealismo em sua época, Verzutti, Lenora e Tarsila do Amaral (Capivari, 1886 – São Paulo, 1973) fazem parte do conceito de Surrealismos – Arte para Além da Razão.
A curadoria, conduzida por Tadeu Chiarelli e Max Perlingeiro, diretor da Pinakotheke, utiliza a frase de Leonora Carrington, 'o surrealismo é um estado de espírito e nada mais', como epígrafe. A mostra reúne cerca de cem obras de sessenta artistas de origens europeias, latino-americanas, norte-americanas e caribenhas, unidas pelo foco nas dimensões subjetivas, oníricas, psicológicas, fantásticas, eróticas e mágicas.
Um ponto central da exposição reside nas interações entre as obras, observando como elas se correlacionam silenciosamente, remetendo às práticas do primeiro núcleo surrealista, como a escrita automática e os jogos de aproximação de elementos díspares, conhecidos como cadavre exquis. Por exemplo, a videoperformance 'Véu Útero' (2020), de Lia Chaia, onde o corpo da artista é coberto por uma imagem de útero em tecido voil, encontra paralelo em 'Le Baiser Caché [O Beijo Escondido, 1976]', de Leonor Fini, que retrata duas figuras abrigadas sob um tecido vermelho. Ademais, a jarra que despeja água continuamente, presente no vídeo 'Meio Cheio, Meio Vazio' (2009), de Katia Maciel, funciona como um elemento vivo na parede fantasmagórica que une fotomontagens de Athos Bulcão, Jorge de Lima, Grete Stern, Antonio Berni e Guignard.
Assim como outras vanguardas históricas, o surrealismo era predominantemente composto por artistas e poetas homens e europeus, com centros de atividade em Paris, Londres e Praga. No entanto, artistas latino-americanos como Roberto Matta (chileno), Wifredo Lam (cubano), Maria Martins (brasileira), que participou da Exposição Internacional Surrealista em Nova York em 1947, e Sergio Lima, quem recebeu a missão de André Breton de organizar uma Exposição Internacional em São Paulo em 1968, são considerados aqueles que realmente aderiram ao movimento. Na exposição, a colagem-objeto 'La Lupa' (1976), de Lima, é complementada por trabalhos de Tunga, Claudio Cretti e pelo filme máximo do surrealismo, 'Un Chien Andalou' (1929), de Luis Buñuel e Salvador Dali. Um encontro mais privado ocorre entre diversas esculturas e gravuras de Maria Martins e um objeto enigmático e erótico de Marcel Duchamp.
Segundo a pesquisadora Dawn Adès, citada no livro da exposição, o surrealismo histórico funcionava como um coletivo que valorizava a convivência, a interação e a atividade comunitária em encontros cotidianos em cafés. Assim, a mostra 'Surrealismos – Arte para Além da Razão' evoca os rumores de uma festa verdadeiramente anticonformista, conforme parafraseado de um texto de Juliana Monachesi para o livro 'Sergio Lima – Imagem Acontecimento'.