A discussão sobre se videogames constituem uma forma de arte não é recente. Com o avanço tecnológico e produtivo, os jogos tornaram-se progressivamente mais ricos em beleza, interesse e narrativa. Recentemente, houve mudanças importantes na esfera institucional, com governos e organizações começando a reconhecer os jogos como expressões culturais e até artísticas, embora debates e desafios persistam.
Evolução do reconhecimento artístico dos games
O conceito de que videogames são arte foi introduzido pela primeira vez em 1983, na revista Video Games Player, que afirmou que os videogames são tanto uma forma de arte quanto qualquer outro meio de entretenimento. Na mesma década, houve ações institucionais notáveis, como exposições de fliperamas e videogames no Museum of the Moving Image, localizado em Nova Iorque, destacando seu valor artístico.
Movimentos semelhantes ocorreram nas décadas de 90 e 2000. Em 2006, o Ministério da Cultura francês classificou os jogos como uma forma de expressão artística e concedeu a três designers de games a honraria Ordre des Arts et des Lettres. Paralelamente, o NEA (National Endowment for the Arts) dos EUA passou a aceitar jogos como projetos artísticos a partir de 2012.
Situação dos games no Brasil
No contexto brasileiro, o apoio financeiro a videogames como manifestação artística teve início em 2004. Em 2016, os jogos puderam acessar recursos através da Lei Rouanet, e desde 2023, estão formalmente incluídos na política de repasses audiovisuais da Lei Paulo Gustavo. Tais classificações não só facilitam a captação de verbas, mas também validam os jogos como arte e cultura.
Críticas ao status artístico dos videogames
Roger Ebert, conhecido crítico e historiador de cinema, gerou controvérsia em meados dos anos 2000. Durante debates, como o realizado na Conferência sobre Assuntos Mundiais, ele sustentou que os jogos não exploram o significado humano da mesma maneira que outras formas de arte. Mesmo em títulos profundos e filosóficos, Ebert questionava a presença de regras, objetivos e como múltiplos finais poderiam comprometer a expressão artística.
Ele argumentou: «Uma diferença óbvia entre arte e jogos é que você pode ganhar um jogo. Ele possui regras, pontos, objetivos e um desfecho. Santiago poderia citar um jogo imersivo sem pontos ou regras, mas eu diria que, nesse caso, ele deixa de ser um jogo e passa a ser a representação de uma história, um romance, uma peça, uma dança, um filme. São coisas que não se pode ganhar; apenas vivenciar.» Esta declaração foi feita por Roger Ebert durante a TED (Technology, Entertainment, Design) Conference.
Contudo, existem críticas severas que ecoam até mesmo dentro da própria indústria. Hideo Kojima concorda que os jogos podem ter elementos artísticos, mas aponta que a natureza popular dos jogos, focada em atingir 100% da satisfação do público, os transforma mais em um serviço do que em uma obra artística.
Michael Samyn e Auriea Harvey, fundadores da Tale of Tales, que desenvolve jogos independentes mais artísticos, compartilham uma visão semelhante. Eles defendem que os jogos preenchem uma necessidade humana por diversão, enquanto a arte visa propósitos distintos, mas afirmam que isso não desqualifica os jogos.
Desafios atuais e percepção da indústria
Embora a visão de que videogame é arte tenha se fortalecido desde os anos 80 e seja legalmente reconhecida em vários países, incluindo o Brasil, certas tendências na indústria caminham contra esse conceito. A preservação dos jogos enfrenta obstáculos impostos pelo próprio setor, agravados pelo declínio das mídias digitais. Adicionalmente, os constantes relançamentos de títulos antigos parecem ser mais uma tática de geração de receita do que um esforço para preservar a memória dos jogos.
Outro ponto divergente da arte é a aparente falta de inovação, onde há uma constante preferência por fórmulas estabelecidas por razões de segurança, negligenciando a audácia, o questionamento e a afronta, características comuns à arte. Todas essas questões levantam um questionamento fundamental: os videogames são, de fato, tratados como arte?
