Uma nova investigação analisou mais de 997 mil partidas de futebol amador realizadas na Alemanha e revelou um padrão inesperado: o calor intenso está associado a uma redução na quantidade de cartões aplicados durante os jogos.
Pesquisadores da Universidade Humboldt de Berlim e do Instituto Universitário Europeu, na Itália, conduziram este estudo. Eles compararam partidas que ocorreram no mesmo local, dentro da mesma liga e na mesma temporada, abrangendo o período de julho de 2022 a setembro de 2025. Os dados sobre a incidência de cartões foram correlacionados com a temperatura registrada no dia de cada partida.
Embora o público em geral e parte da literatura científica anterior indicassem que altas temperaturas levariam a maior agressividade entre os jogadores, a pesquisa demonstra que essa tendência se inverte em extremos de calor. Especificamente, nos dias mais quentes, houve uma queda de aproximadamente 15% no número total de cartões em comparação com a média observada no estudo. A temperatura máxima registrada durante a análise foi de 32 °C.
Os autores sugerem que essa diminuição ocorre devido à redução do contato físico em campo. Muitos atos de infração resultam de disputas acirradas, como carrinho, saltos e divididas vigorosas. Contudo, sob calor extremo, os atletas tendem a conservar energia, o que leva à diminuição desses tipos de jogadas e, consequentemente, ao menor número de faltas.
O estudo ressalta que o calor moderado pode, de fato, elevar a irritabilidade. No entanto, o comportamento agressivo, que depende de contato físico, tende a diminuir em temperaturas extremas. Os pesquisadores argumentam que estudos prévios que ligavam calor à agressividade podem ter sido influenciados por serem realizados em ambientes laboratoriais ou utilizando dados de futebol profissional, onde há condições como pausas para hidratação e ambientes climatizados, ausentes no contexto do futebol amador.
Adicionalmente, os autores alertam que as conclusões não devem ser generalizadas, visto que a amostra se restringiu a partidas de futebol amador, majoritariamente masculinas, e a temperatura máxima de 32 °C é inferior aos picos observados em ondas de calor em outras regiões. A redução de cartões não implica menor impacto fisiológico, mas sim uma estratégia de economia de energia por parte dos jogadores.