A instalação intitulada 'Mãe Contempla o Mar', de Cristine Salgado, transformou o octógono da Pinacoteca do estado de São Paulo em uma paisagem onde corpo, lar e mar compartilham um movimento unificado das ondas.
Descrição da Obra Artística
No centro da exposição encontra-se um corpo monumental, formado por camadas onduladas de feltro, que repousa em uma cadeira e se estende sobre uma mesa de jantar. Diante dele, uma televisão exibe ondas lentamente quebrando em uma praia. Em seguida, longas tiras de feltro azul e cinza pendem do alto teto do octógono, criando uma estrutura vertical que lembra um poderoso mar agitado.
O motivo da onda percorre toda a obra: está presente na paisagem marinha da tela da televisão, nas camadas enroladas de feltro que compõem o corpo escultural e na estrutura suspensa que ocupa o centro do espaço. Assim, corpo, paisagem e matéria compartilham o mesmo princípio formal — o ritmo das ondulações.
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Abordagem Criativa de Salgado
Desde os anos 1980, Cristine Salgado cria obras profundamente ligadas ao corpo e às atmosferas do espaço doméstico. Em muitas de suas obras, ela utiliza objetos cotidianos, como cadeiras, mesas ou camas, como elementos estruturais de situações espaciais que conectam memória, mundo interior e imaginação. Nesta instalação apresentada na Pinacoteca de São Paulo, essa investigação atinge uma escala maior, interagindo diretamente com a arquitetura.
O artista ocupa o espaço monumental do museu, estabelecendo uma conexão entre o interior doméstico e a paisagem marinha, unindo arquitetura, material têxtil e imagem em um ambiente perceptível único.
Conceito de 'Desconhecido Familiar'
O curador Renato Menezes observa no texto da exposição que o corpo feminino é um eixo recorrente na obra de Salgado. De acordo com sua interpretação, esses corpos funcionam como campos de condensação simbólica, capazes de unir memórias, paisagens e experiências associadas ao cotidiano. Sob este ponto de vista, objetos familiares tornam-se dispositivos de transformação perceptiva, elevando o mundano à dimensão do estranho. Essa ambiguidade aproxima a obra do conceito freudiano de 'desconhecido familiar' (Unheimlich).
Em seu ensaio sobre o tema, Sigmund Freud descreve este termo como aquilo que surge quando algo profundamente conhecido, pertencente ao espaço do lar e da intimidade, subitamente se torna estranho. O familiar deixa de garantir estabilidade e começa a revelar zonas ocultas de significado.
Interação entre Interior e Paisagem
Na instalação de Salgado, essa tensão se manifesta na própria organização do espaço. Mesa, cadeira e televisão são objetos reconhecíveis. No entanto, o corpo que repousa sobre eles apaga as fronteiras entre figura e paisagem. Suas camadas onduladas lembram formações geológicas ou movimentos marinhos, aproximando anatomia e território. A televisão introduz outro nível — a paisagem mediada. O mar não está fisicamente presente no espaço; ele aparece como uma imagem transmitida, distante e repetitiva. Contudo, sua presença ressoa materialmente na composição da obra. As formas enroladas de feltro continuam o movimento das ondas na tela, como se a paisagem marinha penetrasse dentro de casa.
Essa continuidade entre o interno e o externo pode ser examinada através da lente das reflexões de Emanuele Coccia em 'Filosofia do Lar' (2022). Segundo o filósofo italiano, o lar não é apenas uma construção arquitetônica, mas uma atmosfera geral na qual corpos, objetos e imagens coexistem e se transformam mutuamente. Viver em casa significa participar de um ambiente onde o interno e o externo deixam de ser opostos e formam um ambiente de experiência unificado. A instalação de Cristine Salgado opera neste território híbrido. O mar exibido na televisão encontra eco nas ondas do corpo de feltro. A paisagem marinha ressoa no material da obra, transformando o espaço doméstico em um campo de correspondências formais.
Escala Arquitetônica e Percepção
Esses relacionamentos tornam-se ainda mais significativos ao considerar a escala arquitetônica do octógono. Graças ao seu vasto pé-direito e planejamento centralizado, o espaço exige intervenções capazes de dialogar com sua verticalidade. As tiras de feltro que descem do teto respondem diretamente a essa condição, reorganizando a percepção do visitante e introduzindo um eixo que atravessa todo o ambiente. Ao contornar a instalação, o espectador vivencia uma alternância entre proximidade e expansão. Entre essas escalas íntima e monumental, a obra constrói um percurso espacial que engloba o visitante e enfatiza o poder desta ocupação no contexto mais amplo das recentes intervenções no espaço.
Conexão com a Geração 80
No contexto histórico da chamada arte brasileira da Geração 80, a obra de Cristine Salgado ecoa o período marcado pela expansão das linguagens da pintura, escultura e instalação. A recente exposição Fullgás – Arte Visual e os anos 1980 no Brasil, curada por Rafael Fonseca, confirma essa interpretação, oferecendo uma visão ampla do período e demonstrando a diversidade de investigações surgidas naquela época. Nesse contexto, seu trabalho se destaca pelo estudo constante das interconexões entre corpo, domesticidade e espaço.
Há também um aspecto simbólico curioso: Salgado torna-se a 80ª artista a ocupar o octógono da Pinacoteca, coincidindo com sua própria ligação histórica com a Geração 80. Esta coincidência acidental sugere uma continuidade entre diferentes fases da trajetória da artista e a história recente da arte brasileira.
Em 'Mãe Contempla o Mar', contemplação e transformação tornam-se ações inseparáveis. O mar atua como uma imagem persistente e repetitiva na tela da televisão e nas ondas do material têxtil. Ao mesmo tempo, o corpo da mãe parece absorver esse movimento, tornando-se a própria paisagem. Entre o lar e o oceano, a instalação cria um espaço onde o mundo interior e o mundo exterior deixam de ser opostos. O mar permanece diante da mãe como uma imagem estável e repetitiva na tela e nas ondas do material. Ao contemplá-lo, o corpo parece reconhecer nele algo que lhe pertence sempre: o movimento contínuo das ondas.